Religião

24/07/2019 | domtotal.com

Vós sois meus amigos se fizerdes o que vos mando

Escolher amar uns aos outros é escolher ser amigo de Deus.

'Amem uns aos outros como eu vos amei', eis o que pediu Jesus.
'Amem uns aos outros como eu vos amei', eis o que pediu Jesus. (Helena Lopes/ Unsplash)

Por Fabrício Veliq*

O meu mandamento é este: Amem-se uns aos outros como eu os amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos. Vocês serão meus amigos se fizerem o que eu lhes ordeno. Já não os chamo servos, porque o servo não sabe o que o seu senhor faz. Em vez disso, eu os tenho chamado de amigos, porque tudo que ouvi de meu Pai eu lhes tornei conhecido. Vocês não me escolheram, mas eu os escolhi para irem e darem fruto, fruto que permaneça, a fim de que o Pai lhes conceda o que pedirem em meu nome. Este é o meu mandamento: Amem-se uns aos outros (Jo 15,12-16)

Quando falamos de amizade e de melhor amigo e melhor amiga sempre temos alguém em mente. Há sempre aquela pessoa que é mais chegada, com a qual confidenciamos medos, dúvidas, alegrias e tristeza.

Algo que é interessante de se perceber é que a amizade não é algo que nos é imposta. Muito pelo contrário, ela é fruto de uma total liberdade. Afinal, ninguém obriga a ninguém a se tornar amiga de determinada pessoa, o que é muito diferente das relações familiares, uma vez que somos cônscios de que não escolhemos a família em que nascemos, simplesmente fazemos parte dela e temos que arcar com os ônus e bônus de termos a família que temos.

Dessa forma, sendo um total ato de liberdade, cada pessoa estabelece para si quais serão os critérios necessários para que determinada pessoa se torne ou não sua amiga, ainda que questões como a necessidade de um interesse comum, a dedicação de tempo para se estar junto e compartilhar a vida, a sinceridade e o esforço em construir uma relação sejam comuns a toda e qualquer amizade.

Diante disso, a fala de Jesus de que “vós sois meus amigos se fizerem o que vos mando” parece um pouco estranha. Afinal, não definimos há algumas linhas acima que tornar-se amigo/a de alguém é um ato de liberdade? O que, afinal, Jesus está dizendo?

Para responder a essa questão é necessário tomarmos a partir do versículo 12 do mesmo capítulo em que diz sobre o novo mandamento que é dado aos discípulos: “Amem uns aos outros como eu vos amei”. Com isso em mente, é possível entender o que Jesus está dizendo no versículo 14. Somente aquele ou aquela que obedece a seu mandamento de amar é que pode ser seu amigo, uma vez que obedecer ao mandamento de amar é exercer o amor e, como já dissemos em outros textos, todo amor pressupõe a liberdade, de maneira que essa obediência não se torna algo imposto, mas também em pura liberdade por parte daquele que decide obedecer a esse mandamento dado por Jesus.

Outro ponto importante que é digno de ser mencionado nessa perícope é que Jesus diz: “já não os chamo mais servos, porque o servo não sabe o que o seu senhor faz. Em vez disso, eu os tenho chamado amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu lhes tornei conhecido”.

O termo grego utilizado no texto para servo é doulos, que quer dizer escravo. No mundo antigo era possível se ter um escravo que fosse útil e confiável. No próprio texto bíblico se percebe alguns casos em que os servos são enviados para missões nas quais se demandavam grande confiança, como, por exemplo, quando Abraão manda seu servo buscar uma esposa para Isaque. O escravo, no entanto, jamais era visto como um parceiro de seu senhor, também não sabia qual era o propósito de seu senhor para suas ordens, simplesmente obedecendo aquilo para o qual havia sido mandado.

Os amigos, no entanto, são aqueles e aquelas que conhecem os propósitos de seu senhor. Jesus, tendo tornado conhecido aos seus discípulos tudo que recebeu de seu Pai, mostra a eles o porquê de não os considerar mais simplesmente servos, mas agora como amigos, visto que a partir desse revelar de Jesus, que é sempre progressivo na vida cristã, os seus discípulos passaram a conhecer também o propósito de Deus para a salvação da humanidade.

Jesus escolheu os seus amigos, revelou aquilo que conhecia do Pai e ordenou que, firmado nele e alimentando-se dele, a videira verdadeira, eles continuassem dando frutos de amor que permanecessem, continuando, assim, a obra inaugurada por Jesus.

Escolher amar uns aos outros é escolher ser amigo/a de Deus. Ao mesmo tempo, o texto bíblico mostra que é impossível ser amigo de Deus sem amar ao próximo, uma vez que o amor a Deus se torna provado quando do amor ao próximo.

Por último, devemos lembrar de que os verdadeiros amigos e amigas não causam medo. Assim, a imagem de um Deus cruel que irá julgar impiedosamente os bons e maus não encontra eco na perspectiva do Deus revelado por Jesus Cristo. Antes, aquele que nos julga é nosso irmão mais velho e nosso amigo, o que nos oferece consolo, visto também interceder por nós como amigo, o que nos mostra o belíssimo texto de Jó:

Saibam que agora mesmo a minha testemunha está nos céus; nas alturas está o meu advogado. O meu intercessor é meu amigo, quando diante de Deus correm lágrimas dos meus olhos; ele defende a causa do homem perante Deus como quem defende a causa de um amigo (Jo 16,20)

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven) e Bacharel em Filosofia (UFMG) E-mail: fveliq@gmail.com

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