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29/07/2019 | domtotal.com

Chaplin & Keaton


(Paramount)

Por Afonso Barroso*

Assisti mais uma vez (já são três ou quatro, talvez mais) ao filme Luzes da ribalta, de e com Charles Chaplin. É, sem dúvida, uma das obras primas do cinema, dessas que a gente não se cansa de ver. Nele, Chaplin faz uma mistura de tudo que o cinema pode oferecer, da comédia ao drama, do drama ao romantismo, do romantismo ao enlevo musical, da juventude à velhice, do passado ao futuro, do amor à compaixão, do apogeu à decadência de um artista, da decadência ao ressurgimento, da alegria de viver à fatalidade da morte.

Sempre me chama a atenção nesse filme, e me provoca risadas irreprimíveis, a sequência em que Chaplin contracena, acho que pela primeira e única vez, com o rival Buster Keaton. É a cena em que ocupam o palco com dois instrumentos, ele tocando violino e Keaton acompanhando-o ao piano. Não há um só instante nessa cena que não seja de rolar de rir.

Ao assistir novamente ao filme, exibido no canal Telecine Cult, lembrei-me de um episódio da minha carreira no Diário da Tarde. Eu era foca, foca mesmo, principiante e ainda meio jovem, quando o Fábio Doyle, editor geral, me encarregou de entrevistar um casal de mímicos alemães em turnê pelo Brasil. Estavam hospedados no vizinho Hotel Del Rey e se apresentariam acho que no Palácio das Artes.

Lá fui eu. A mulher, de quem não me lembro o nome, tinha alguma semelhança com a atriz e dramaturga Denise Stoklos. Loura, alta, extremamente simpática. Ele, um homem também louro e alto, de não menor simpatia. Entrevistei-os com a ajuda de um intérprete. Pareceram gostar de mim e disseram se surpreender com a minha aparente juventude. Eu tinha mais de 20 anos, mas com cara de adolescente. Gostaram principalmente da observação que fiz quando disseram que não tinham muita familiaridade com palavras, por isso não eram bons de entrevistas. Nosso negócio são gestos, disseram. Foi quando eu, de bate-pronto, lembrei que gestos às vezes valem mais do que palavras. Como esta era a atividade deles, essencialmente gestual, os dois sorriram em aprovação ao meu comentário.

Mas o que eu quero lembrar, da entrevista, é que em dado momento eu disse a eles que preferia Buster Keaton a Charles Chaplin. Ah, para quê! Ambos me passaram um sabão, uma reprimenda que em alemão pareceu um tapa na cara, já que alemão é o idioma mais machão e mal-educado do Ocidente. Qualquer palavra em alemão, por mais doce que queira parecer, soa como xingamento. Disseram que não existia nem existiria jamais um comediante do cinema mudo maior do que Chaplin. Eu tive que me render e tentei justificar minha preferência dizendo que tinha visto mais filmes de Keaton do que de Chaplin. Eles simplesmente adoravam Chaplin e apenas admiravam Keaton.

Escrevi a matéria, e tive a alegria de saber que os dois leram e gostaram muito. Ligaram no dia seguinte para o jornal, elogiaram e agradeceram. Fiquei sabendo que o espetáculo dos dois foi aplaudido de pé. Não pude ir por causa das minhas aulas na Faculdade de Direito. Acho que levaram boa impressão daquele foca com cara de menino que os entrevistara no hotel.

Tempos depois, quando vi Luzes da ribalta pela primeira vez, achei que não tinha cometido nenhum disparate ou pecado mortal quando falei da minha admiração por Buster Keaton. A cena do violino e do piano no filme de Chaplin nivela os dois por cima. Eram ambos geniais no ofício de fazer rir. Quem viu sabe. Quem não viu, veja.

EMGE

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