Brasil

26/07/2019 | domtotal.com

Transfusão de letras

Leitura do dia, Brecht em dois de seus referenciais e atemporais poemas.

Bertolt Brecht.
Bertolt Brecht. (Getty Images)

Por Eleonora Santa Rosa*

Para renovar a crença no ser humano, na inteligência, na criatividade, na sensibilidade, na generosidade, nos valores civilizatórios, nada como boas doses diárias de poesia na veia, transfusão de sangue em letras, em palavras, em conteúdos de formação, de sabedoria, de capacidade crítica, de resistência real e concreta em apontamentos de insubmissão.

Hora de voltar a formar uma biblioteca básica, repleta de antídotos contra a burrice generalizada, a estupidez infinita, a pobreza de espírito, a violência dos atos dos algozes de ocasião, o ideário raso e inane daqueles que servem, diariamente, sua ignorância em rede nacional.

Leitura do dia, Brecht em dois de seus referenciais e atemporais poemas:

Elogio da dialética

A injustiça vai por aí com passo firme.

Os tiranos se organizam para dez mil anos.

O poder assevera: Assim como é deve continuar a ser.

Nenhuma voz senão a voz dos dominantes.

E nos mercados a espoliação fala alto: agora é minha vez.

Já entre os súditos muitos dizem:

O que queremos, nunca alcançaremos,

Quem ainda está vivo, nunca diga: nunca!

O mais firme não é firme.

Assim como é não ficará.

Depois que os dominantes tiverem falado

Falarão os dominados.

Quem ousa dizer: nunca?

A quem se deve a duração da tirania? A nós.

A quem sua derrubada? Também a nós.

Quem será esmagado, que se levante!

Quem está perdido, que lute!

Quem se apercebeu de sua situação, como poderá ser detido?

Os vencidos de hoje serão os vencedores de amanhã.

De nunca sairá: ainda hoje

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Perguntas de um Operário que lê

Quem construiu Tebas, a de sete portas?

Nos livros, ficam os nomes dos reis.

Os reis arrastaram blocos de pedra?

Babilônia, muitas vezes destruída,

Quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas

De Lima auri-radiosa moravam os obreiros?

Para onde foram, na noite em que ficou pronta a Muralha da China,

Os pedreiros? A grande Roma

Está cheia de arcos de triunfo. Quem os erigiu? Sobre quem

Triunfaram os Césares? Bizâncio multicelebrada

Tinha apenas palácios para seus habitantes? Mesmo na legendaria Atlantis,

Na noite em que o mar a sorveu,

Os que se afogavam gritavam por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou a Índia.

Ele sozinho?

César bateu os gauleses.

Não levava pelo menos um cozinheiro consigo?

Felipe da Espanha chorou, quando sua armada

Foi a pique. Ninguém mais teria chorado?

Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos. Quem

Venceu junto?

Por todo canto uma vitória.

Quem cozinhou o banquete da vitória?

Cada dez anos um grande homem.

Quem pagou as despesas?

Histórias de mais.

Perguntas de menos.


Traduções de Haroldo de Campos – O arco-íris branco. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

*jornalista.

EMGE

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