Religião

26/07/2019 | domtotal.com

Sínodo da Amazônia, não do Amazonas, cardeal!

Em tempos de desrespeito ao romano pontífice, criticar um cardeal e identificar suas imprecisões, não faz de ninguém um mau católico.

Cardeal Walter Brandmüller.
Cardeal Walter Brandmüller. (ACI Prensa)

Por Mirticeli Medeiros*

As gafes do cardeal que comete erros de geografia e interpretação de texto ao criticar documento preparatório do próximo sínodo.

Em tempos de desrespeito ao romano pontífice, criticar um cardeal e identificar suas imprecisões, não faz de ninguém um mau católico. Aliás, prefiro ser chamada de papista a ser chamada de clericalista. Para dar um tapa na cara do anacronismo, vale salientar que não me refiro ao papista do século 16, um sujeito relutante em relação às reformas, mas ao papista contemporâneo que defende a urgência delas, in capite et membris, com a bênção do papa.

Após a publicação do Instrumentum laboris, o documento preparatório/de trabalho do próximo sínodo, não ia demorar muito para que muitos europeus, que não entendem bulhufas a respeito da complexidade da região amazônica, se manifestassem. Certamente, no Brasil, com esse espírito de vira-lata que temos, era previsível que muitos dessem ouvidos a algum sabe-tudo do velho continente em vez de escutar o bispo missionário que, com certeza, tem muita história para contar em relação aos desafios da evangelização naquela região. E são esses desafios que o sínodo para a Amazônia irá tratar, até quando o tema for os viri probati, a pauta mais espinhosa.

Depois de falarmos sobre os brasileiros eurocêntricos, vamos ao que nos interessa. De antemão, digo que não me atrevo a debater teologia com teólogo de carreira, afinal, não sou teóloga. Mas também não sou uma mera palpiteira de rede social. Os anos trabalhando com a “máquina vaticana” e estudando a igreja em toda a sua complexidade, me permitem, sim, identificar os erros técnicos em determinadas falas e afirmações.

O cardeal alemão Walter Brandmüller, autor do pronunciamento bombástico que elenca uma série heresias que, segundo ele, estão presentes no documento preparatório do sínodo, integra o grupo de cardeais que pede a cabeça de Francisco faz tempo. Ele foi um dos que assinou os dubia, os quais, sem querer ser redundante, trazem dúvidas em relação à intenção de sua publicação até hoje. Por que um cardeal, chamado a ser conselheiro do papa, não tratou diretamente com o pontífice as suas inquietações? Qual a intenção de provocar alarde, cisma e resistência em relação ao papa reinante através de uma carta aberta? É de se questionar, uma vez que um cardeal tem a possibilidade de agendar uma audiência privada com o sumo pontífice sem grandes dificuldades. Então, reitero: por que isso não foi feito antes da publicação da carta?

“Deslizes intelectuais”

Já na introdução do texto que critica o Sínodo para a Amazônia, publicado no último dia 27 de junho, um dos questionamentos de Brandmüller em relação ao próximo sínodo é o seguinte: “É de causar espanto, pois, ao contrário das assembleias anteriores, o sínodo se concentrará, exclusivamente, em uma região da terra cuja população é metade da Cidade do México, ou seja, 4 milhões”.

Para início de conversa, não sei a quais 4 milhões de habitantes o cardeal se refere, uma vez que, só no Brasil, a chamada Amazônia legal conta com quase 23 milhões de habitantes. De acordo com dados recentes publicados pela Repam (Rede Eclesial Pan-Amazônica), 33 milhões de habitantes, dentre os quais 1,5 milhão indígenas, vivem na região. Sendo assim, é o equivalente à população de Grécia, Turquia e Portugal juntos.

Como a maioria das pessoas que associam a Amazônia ao Brasil, o purpurado pensa que o território, cuja maior parte está no nosso país (60%), não se estenda por outras áreas da América do Sul. E a prova do seu total desconhecimento em relação à região se confirma quando ele diz: “Obviamente, podemos dizer que este sínodo se intromete agressivamente nos negócios seculares do Estado e da sociedade do Brasil”.

A região pan-amazônica, para a qual se voltará o próximo sínodo, engloba outros oito países além do Brasil: Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela. E por se tratar de uma região específica, a próxima reunião de bispos foi convocada como uma assembleia especial, não como uma assembleia ordinária ou extraordinária, as quais tratam de temas mais abrangentes, como no caso do sínodo para as famílias ou para os jovens. Uma assembleia especial conta com a participação de bispos de uma determinada área geográfica, como foi o caso do sínodo para o Oriente Médio e para a África, as últimas assembleias especiais realizadas. Mais uma gafe das feias, uma vez que, na afirmação do prelado, não foram levadas em consideração as três modalidades do sínodo dos bispos na qualidade de órgão consultivo, como foi dito acima: assembleias ordinária, extraordinária e especial.

Quando expõe a teoria da conspiração de que o “sínodo trabalhará para a extinção do celibato e pela ordenação de mulheres”, ele usa, intencionalmente, a terceira parte do artigo 129, excluindo a segunda parte que, em outras palavras, não fala do fim do celibato, mas da abertura aos viri probati, termo que ele conhece muito bem, já que é um renomado historiador:

129. 2: Afirmando que o celibato é uma dádiva para a Igreja, pede-se que, para as áreas mais remotas da região, se estude a possibilidade da ordenação sacerdotal de pessoas idosas, de preferência indígenas, respeitadas e reconhecidas por sua comunidade, mesmo que já tenham uma família constituída e estável, com a finalidade de assegurar os Sacramentos que acompanhem e sustentem a vida cristã.

 E na terceira parte do artigo, apontada por Brandmüller como uma abertura para a ordenação de diaconisas, não é citada uma ordenação especial para as mulheres, como no caso de uma ordenação especial conferida aos “homens de conduta provada” - os viri probati -, presente no quesito anterior. Em vez disso, fala-se do conferimento de um ministério oficial que não sabemos qual seria, uma vez que Francisco bateu o martelo contra o diaconato feminino. Mais uma vez, o cardeal alemão demonstrou desconhecer completamente o papel das mulheres na igreja da América Latina e, particularmente, nas regiões onde se atesta a enorme carência de padres. Desconhece o papel dos ministros extraordinários da Eucaristia que, na Europa, são praticamente inexistentes. Mas não podíamos esperar muito de alguém que não sabe nem mesmo o que é Amazônia, falar com propriedade a respeito da realidade eclesial latino-americana. Seria pedir demais.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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