Cultura

26/07/2019 | domtotal.com

Nem coleira, nem cabide

Para mim, a arte não pode ser a coleira do artista, nem tampouco o cabide onde ele se pendura em busca de vida fácil.

Quando a cortina se fecha, que venham os aplausos ou as vaias, o sucesso ou o fracasso.
Quando a cortina se fecha, que venham os aplausos ou as vaias, o sucesso ou o fracasso. (ulma93/Pixabay)

Por Fernando Fabbrini*

Durante o curtíssimo governo Jânio Quadros, um então famoso coral de Belo Horizonte foi convidado para se apresentar em Paris. Tratava-se de um encontro internacional de corais, evento importante. Muito honrado – e depois, apreensivo – o grupo fez as contas: não haveria dinheiro para as passagens aéreas e estadias na França. Mexeram os pauzinhos e conseguiram agendar às pressas uma audiência com o presidente, em Brasília.

Dizem que Jânio os ouviu em silêncio, cofiando o bigodão. Quando finalmente lhe entregaram o orçamento da viagem, o presidente correu os olhos pelo papel e disparou, no seu tosco e célebre sotaque mato-grossense:

- Senhores, sinto muito. Primeiro darei dinheiro aos que choram; depois, aos que cantam – e encerrou a conversa.

O caso – que não deixa de ser engraçado - é um exemplo da complicada e instável relação entre o poder e a arte. Minha opinião é uma só: quanto mais distante ficarem um do outro, melhor. Sobretudo em países como o nosso, onde governantes usam descaradamente dinheiro público para encher as praças com shows de estrelas milionárias assistidas por multidões de analfabetos.

Nada contra a arte ou os artistas, claro. Até porque venho de uma família acostumada à vida dura dessa profissão. No passado, minha bisavó cantava óperas na Itália, liderando uma trupe mambembe. Mamãe e irmãos, quando jovens, mantiveram uma modesta companhia de teatro no interior de Minas. Meu pai, luthier autodidata, tocava bandolim com seus amigos. Meu tio Afonso construiu uma câmera com as próprias mãos e tornou-se cineasta amador. Tenho primos pintores; uma sobrinha diretora renomada; uma irmã artesã de belos bordados; uma filha cantora e outra fotógrafa. Enfim: tivemos o privilégio de sermos criados no meio de livros, músicas, filmes, tintas e pincéis.

Graças a essas boas influências aprendi que a arte deve ser, em primeiro lugar, uma expressão intransigível e independente. E, por isso, quase sempre rebelde, orgulhosa, íntegra. Quando vira arte "patrocinada", murcha. Perde sua essência, domestica-se, submete sua alma às conveniências.

O poder é bastante esperto para cooptar artistas e usá-los em seu benefício. Assim, ele tem a cara-de-pau de botar grana em absurdos como “Lula, o Filho do Brasil”. Mudam os governos, de esquerda e de direita, e a prática corre o risco de se manter inalterada. Espero que não surja o filme intitulado “Bolsonaro, o Bravo Capitão” – ou algo semelhante. Melhor seria se nenhuma produção fosse patrocinada com dinheiro público. “Filtrar” roteiros, como insinuou o presidente, é fazer igual aos governos anteriores – só invertendo o plugue ideológico.

Contrário ao apoio com dinheiro público, defendo integralmente o show-business – dinheiro privado financiando bons artistas e dividindo os resultados do investimento. Arte e mercado, quando levados a sério, com profissionalismo, são excelentes parceiros. Assim funciona, já está provado.    

Na contramão, as leis de incentivo sempre privilegiaram artistas que beijam as mãos – direta ou indiretamente – do governo em curso. E até o velho leão da Metro sabe que tal sistema facilita falcatruas que enriquecem intermediários; resulta em calotes gigantescos e contrapartidas escabrosas debaixo dos panos.

Para mim, a arte não pode ser a coleira do artista, nem tampouco o cabide onde ele se pendura em busca de vida fácil. É um trabalho de valor, como qualquer outro, exigindo talento, sensibilidade, disciplina, dedicação. Quando a cortina se fecha, que venham os aplausos ou as vaias, o sucesso ou o fracasso. É o preço - às vezes doce, às vezes amargo – de quem escolhe esse caminho.  

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas