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29/07/2019 | domtotal.com

Caráter e política

A questão é até que ponto um prepotente mais declarado não fará um melhor trabalho do que um sensato mais astuto.

Trump e Jonhson mudaram o paradigma do que é corretamente político.
Trump e Jonhson mudaram o paradigma do que é corretamente político. (Kevin Lamarque/Reuters)

Há dois meses a personalidade original de Boris Johnson, o novo primeiro-ministro britânico, tem sido intensamente escrutinada e abundantemente analisada. Do mesmo modo, há três anos a personalidade também original de Donald Trump tem passado por um crivo diário, facilitado pelo fato de ele ter optado por pensar em voz alta diariamente, sem filtros, no Twitter.

Até já houve quem comparasse os dois, quando de fato são completamente diferentes. Ambos nacionalistas, talvez seja o único ponto comum que se lhes pode encontrar (fora o cabelo exuberante, mas isso é um fait divers). Mas os seus nacionalismos são bastante diferentes. Ah, sim, e narcisistas, mas também aí o seu egocentrismo manifesta-se em comportamentos quase opostos. (Trump leva-se a sério, sem margem para humor, enquanto Jonhson faz de conta de que não se leva e usa o humor como uma arma.)

Mas a questão que gostaríamos de levantar, a propósito destas duas figuras que mudaram o paradigma do que é corretamente político, é até que ponto o caráter serve como referência à eficiência da governação. Ou seja, antigamente – e não foi há tanto tempo assim – considerava-se que um político devia ter certas qualidades. Mesmo quando se achava que não as tinha, o que acontece cada vez mais, era sempre medido em referência a elas: honestidade, franqueza, ombridade, ética. São palavras que se tornaram antiquadas, o que já diz muito da situação em que estamos, mas são qualidades que ainda sabemos identificar quando as encontramos. 

Portanto, mesmo que esse político fosse um mentiroso compulsivo e efabulador em série, sentia-se sempre na obrigação de se apresentar como uma pessoa honesta e bem intencionada. Se os cidadãos acreditavam ou não – cada vez acreditam menos – mesmo assim “exigiam”, por assim dizer, que ele fizesse esse papel de que era o que não era. A desfaçatez de não ter essas qualidades e orgulhar-se disso, abertamente, era coisa nunca vista.

Mas, por razões que a razão, ou pelo menos bom senso, não explicam, esse paradigma do homem íntegro deixou de interessar os cidadãos. Demos os exemplos de Boris Johnson e Donald Trump, precisamente porque são eles que representam esta desfaçatez, enquanto outros dirigentes com os mesmos traços continuam a fazer o possível por parecer pessoas focadas e controladas. Quer dizer, um Duterte, por exemplo, ou um Maduro, podem ser verdadeiras catástrofes para os seus países, mas apresentam-se como probos e bem intencionados, e minimizam as críticas como sendo irrelevantes ou partidárias.

Mas a questão ainda não é essa. A questão é até que ponto um prepotente mais declarado não fará um melhor trabalho do que um sensato mais astuto. Ou, em linguagem corrente: quem nos pode governar melhor, defender com mais eficiência os nossos interesses? Uma pessoa com caráter ou um fala barato?

Dirão todas as figuras públicas que, evidentemente, nem se pode por esta questão. Ninguém quer um aldrabão mandando no país. Mas isso não é verdade, pelo que indicam votações e referendos um pouco por toda a parte. As pessoas querem um líder que lhes proporcione vantagens sobre os outros, não um sensato intelectual que procure equilíbrio de interesses. A solidariedade entre as nações, que sempre foi mais uma figura de estilo do que uma realidade, acabou por ser vista como uma prova de fraqueza. Queremos ter tudo e não dar nada aos outros. Na impossibilidade, queremos o mais possível para nós e o menos possível para quem não é do nosso sangue, ou terra, ou crença – ou as três juntas.

Voltemos a Trump e Johnson; é verdade que parece leviano comparar uma governação de três anos com outra que neste momento tem apenas três dias. Mas poderíamos dizer que três dias são mais do que suficientes para ver o caráter de quem escolhemos para nos conduzir pelo labirinto diabolicamente minado da comunidade das nações. Quem não se lembra de que a primeira grande embirração de Trump era o número de pessoas que tinham assistido à sua posse? As fotografias mostravam claramente que a cerimônia de posse de Obama tinha sido maior, mas Trump não aceitava essa realidade e, mais, não se calava sobre ela, como se fosse um assunto com grande importância. Que interessa para o avanço do país, o progresso da indústria e a eficiência dos serviços, em comparação com o número de pessoas que tinha ido vê-lo jurar sobre a Bíblia? Desde então, Trump tem mentido descaradamente. Segundo o Washington Post, que mantém um fact check diário, já mentiu mais de 10 mil vezes nestes três anos de Presidência. Isso não abala as suas bases, que até declaram para as TVs que o que interessa é o que ele faz e não os defeitos de caráter que revela.

Também Johnsom está a mostrar, nos seus primeiros dias, que o importante é captar as pessoas com o seu entusiasmo, mesmo que não tenha hipóteses viáveis de realizar o que promete. Numa reportagem na TV britânica Sky News, os inquiridos ressaltaram a sua determinação de resolver o problema do Brexit, em oposição às hesitações de Theresa May. Na primeira sessão no Parlamento, achincalhou Jeremy Corbin com uma verve e uma graça inimparáveis, embora não tenha feito nenhuma acusação substanciável. Corbin, marxista sem humor (os marxistas não cultivam o humor, um sentimento burguês) ficou calado e sisudo, furioso. Percebeu que as eleições que tanto quer lhe vão correr muito mal com Johnson como adversário.

Sam Knigt, num comentário na revista The New Yorker detalha muito bem esta situação:

“Se podemos ter algum consolo, é que Johnson não é nenhuma espécie de extremista. Por temperamento e educação, é um liberal urbano: pró-vida, pró-imigração, tolerante perante a diversidade, com uma educação cosmopolita e preparado para aceitar um consenso sobre as alterações climáticas. O problema é que também é tão pouco sério e sem princípios, que se torna impossível saber se manterá estas posições debaixo de pressões significativas. Não se deve comparar Johnson com Donald Trump, são muito diferentes. Partilham a capacidade de desviar constantemente a atenção (para o que é importante), e uma incerteza enervante sobre o que farão a seguir.”

Mas isto é um intelectual a comentar, muito naturalmente preocupado com o futuro incerto que estes líderes representam. E até nem está a ver algumas evidências, como o elitismo da educação de Jonhson, contrário à tolerância racial e social. Para o “povo” – a grande massa de pessoas que quer apenas que a sua tribo se dê melhor na vida do que as outras tribos – o que interessa é o otimismo, a ação e a convicção de que aqueles homens vão tornar as suas vidas melhores. Sinais contrários, não são levados em conta. O que fica para a fotografia é a nova atitude de superioridade assumida, uma vez que a velha atitude de cordialidade e consenso não levou ao prometido bem estar.

Diz-se que foi a internet as redes sociais que exacerbaram o egocentrismo e a falsidade como valores. Mas esse egocentrismo e pouco interesse na verdade já existiam antes, apenas lhe faltava a montra das redes. Quando se percorrem as mais frequentadas, como o Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat, 4chan, Discord, Bling, Flickr, hi5, Linkedin, Myspace, Pinterest, Reddit, StumbleUpon, Weeworld – são centenas, entre mundiais, nacionais e setoriais – o que se encontra é uma exibição narcisista, muito superficial e sem qualquer preocupação ética. Sem qualquer preocupação, ponto. 

Para estes milhões, o caráter não é sequer um dado a levar em conta. Porque hão-de exigir algum caráter aos dirigentes que lhes prometem prosperidade e bem estar? Na China, as principais plataformas, TikTok e Weibo, com dezenas de milhões de seguidores, são fortemente censuradas quanto a qualquer conteúdo político ou negativo; ninguém se importa, porque ninguém se interessa por política (o que serve à política oficial) e ninguém quer parecer negativo ou calimero. É só alegria e felicidade, os sentimentos expressos com a profundidade dum pires de café.

Nas redes internacionais e nacionais sem censura, as pessoas queixam-se constantemente dos políticos, da corrupção e ineficiência, mas é mais um desabafo do que uma decisão levada às urnas. Criticar descomprime, alivia, mas o que interessa é o que se tem a ganhar. Já na década de 1940, Adhemar de Barros usou o slogan “Rouba mas faz” para se eleger governador de São Paulo. Um percursor, portanto. E em Oeiras, Portugal, o conselho com mais pessoas de nível universitário do país, quando se perguntava, em 2017, porque elegeram Isaltino de Morais, condenado por fraude fiscal, lavagem de dinheio e abuso de poder, respondiam que era o melhor presidente de Câmara do país, e isso é que interessava.

Bolsonaro, um político que reúne a ignorância de Trump com a volubilidade de Johnson, reconhecida até pelos seus votantes, foi eleito no pressuposto de que vai varrer a corrupção dos governos anteriores e dar melhor qualidade de vida à classe média. Se a sua personalidade é fraca, pouco interessa.

 O caráter deixou de ter valor, o que vale é a eficiência. Vamos ver, com o passar dos anos, os resultados deste novo paradigma. Se calhar, funciona.

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