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28/07/2019 | domtotal.com

Pensar nos outros

O não pensar na coletividade pode ser claramente percebido nas atitudes individuais.

Observando os transeuntes, os que dirigem carros, os que entram e saem de casas públicas, e mesmo em nossa própria casa, vemos que todos têm pressa.
Observando os transeuntes, os que dirigem carros, os que entram e saem de casas públicas, e mesmo em nossa própria casa, vemos que todos têm pressa. (Pexels/Pixabay)

Por Evaldo D'Assumpção*

A velocidade vem se tornando alucinante. É a velocidade das comunicações, a velocidade dos transportes, a velocidade comportamental, esta geralmente desintegrando os valores sociais e morais. Hoje, todos têm pressa, todos querem que tudo aconteça rapidamente, ninguém mais tem tempo para sequer perceber o ar que se respira, cada vez pior pela poluição, outro fruto da rapidez. E nessa fúria “rapidológica”, a cada dia desaparece, mais rapidamente, a nossa capacidade de pensar nos outros. Já não temos tempo para isso.  

Observando os transeuntes, os que dirigem carros, os que entram e saem de casas públicas, e mesmo em nossa própria casa, vemos que todos têm pressa. Por isso, cada um limita seus olhares e seus cuidados para si próprio, fazendo uma coisa e já pensando na próxima que deverá fazer. Isso me lembra o coelho de Alice, sempre correndo, sempre com pressa e reclamando enquanto consultava seu relógio de bolso: “Tenho pressa, tenho muita pressa!”.

Se a pressa é inimiga da perfeição, como diz antigo apotegma, hoje ela é a maior inimiga das relações interpessoais, pois as fragiliza, não deixando tempo sequer para olhares mútuos, cuidados mútuos, pensar no outro, falar com o outro. Pior ainda quando percebemos essa atitude com relação ao coletivo: quase ninguém pensa nos outros (já no plural, ressalto). Em decorrência disso, muitos comportamentos sociais se tornam obsoletos e incômodos, especialmente quando de alguma forma significam retirar tempo e atrasar as próprias atividades. 

Numa sociedade nanotecnológica, em que o infimamente pequeno assume proporções gigantescas, um segundo que “perco” representa um tempo e prejuízo enormes para o que preciso fazer. Some-se a isso má educação social que vem sendo transmitida aos jovens, e perceberemos o porquê do isolamento das pessoas no pequeno e medíocre mundo individual, causando-lhes a desconfortável sensação de solidão, especialmente quando no meio das multidões. Absurdo paradoxo!

O não pensar na coletividade pode ser claramente percebido nas atitudes individuais. Uma pessoa transita pela rua, comendo um pastel protegido por um guardanapo. Terminado aquele lanche, o que fazer com o incômodo papel que lhe restou nas mãos? Simplesmente o embola e joga-o ao chão. Assim como faz com a bagana, com a latinha de refrigerante ou cerveja que acabou de tomar: descarta-os na via pública. Algumas vezes, para um falso alívio de consciência joga-os na base da árvore mais próxima, quem sabe no bueiro que existe para recolher a água da chuva e evitar enchentes, ou no canteiro do prédio diante do qual se está passando, sem se dar conta de que existe uma lixeira ali por perto. Dirigindo o carro, abaixa o vidro que está fechado, geralmente obscurecido por películas plásticas que preservam o isolamento de quem está lá dentro, e joga o lixo, seja ele qual for, na rua por onde passa.

No ônibus, se tem um banco livre senta-se, e no espaço ao lado coloca a bolsa, o pacote que carrega. Não para liberar as mãos, mas para criar um obstáculo para outro não sentar ali. O mesmo gesto que repete no cinema, na igreja, onde for. O importante é garantir seu isolamento.

Em casa, essas ações se multiplicam, mas em forma mais discreta. Quem faz suas refeições à mesa, raramente leva as vasilhas e talheres utilizados para a pia da cozinha, tendo o cuidado de colocar um pouco de água nos mesmos, para facilitar o trabalho de quem irá lavá-los. A cadeira em que estava sentado – coisa que faz também em restaurantes – ao se levantar não a recolhe para deixar livre o espaço dos outros transitarem. Se precisa fazer alguma anotação, pega a caneta que estiver ao seu alcance e raramente a devolve para o seu lugar. 

Os telefones sem fio já se tornaram parte de uma brincadeira de esconde-esconde. Quem o usa andando pela casa, terminada a conversa deixa-o onde estiver, esquecido de que outros irão procura-lo em vão, em sua base, para onde deveria ter voltado. Isso sem falar da bateria que muitas vezes irá descarregar por estar fora da base, prejudicando os próximos usuários. E quantos se recordam de apagar as luzes do cômodo em que estava, quando o deixa? E ainda reclamam da conta de energia muita alta, coisa que certamente irá afetar a muitos.

Deixando essas ações, passo às relações interpessoais. Expressões hoje raras de serem ouvidas são “por favor”, “muito obrigado”, “com licença” etc. Mais raras ainda são “bom dia”, "boa tarde”, “boa noite” dirigidas às pessoas com as quais se cruza, sem terem sido oficialmente apresentados um ao outro. Quanto custa um “bom dia”? Absolutamente nada, mas traz uma sensação agradável para quem o recebe. E quanto a dar retorno a um telefonema, uma mensagem no celular, um e-mail? Mesmo quando pedimos, raramente os recebemos. Se deixamos um recado com alguém, para outra pessoa, não temos nenhuma garantia de que ele lhe será dado. E se o for, ainda assim não temos qualquer certeza de que receberemos o retorno.

Poderia estender indefinidamente esta lista, mas creio já ter dado uma boa amostragem dessa atitude grosseira das pessoas, de não pensar nos outros, só se ocupando com seus próprios umbigos. E depois, haja antidepressivos, psicoterapias, drogas, álcool e tantas outras muletas para as pessoas que manqueteiam solitárias pela vida vazia, ainda que superlotada.

*Médico e escritor

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