Religião

31/07/2019 | domtotal.com

Inácio nos inspire ao discernimento e a amizade

Olhando para a vida de santo Inácio podemos nos perguntar por que e em que ele pode falar à nossa sensibilidade hoje.

Inácio de Loyola criou o método dos Exercícios Espirituais e fundou a ordem dos jesuítas.
Inácio de Loyola criou o método dos Exercícios Espirituais e fundou a ordem dos jesuítas. (Wikimedia)

Por Carlos César Barbosa*

Ao fazer memória da vida de um santo, é sempre oportuno nos questionar o que tal vida poderia nos iluminar hoje. Não se trata de querer imitar estritamente a vida dos santos nem querer começar a nossa vida de santidade por onde eles terminaram a sua. Não é ser imitador, mas encontrar na vida dos santos a inspiração para viver a nossa vida de um modo que valha a pena. Fazer memória da  vida dos santos é se deixar questionar pelos seus exemplos e, em nosso tempo e ao nosso modo, atualizar com fidelidade o carisma e o exemplo daqueles que fizeram do Evangelho a sua vida.

Olhando para a vida de santo Inácio, que neste dia 31 fazemos memória, podemos nos perguntar por que e em que ele pode falar à nossa sensibilidade hoje. Mais ainda, perguntar em que sentido a sua herança espiritual nos é contemporânea.

Nascido em 1491, na Espanha, Íñigo Lopez, que mais tarde adotaria o nome de Inácio, cresceu num ambiente feudal e com fortes aspirações militares, tendo feito parte de uma tradicional corte da época. A vida do jovem Inácio mudou radicalmente, quando, na Batalha de Pamplona, em 1521, caiu ferido. Durante sua recuperação ele quis ler livros de cavalaria, porém, na casa onde se encontrava, os únicos livros que havia eram a Vida de Cristo e a Vida dos santos. Inácio acabou por se confrontar com os clássicos espirituais, sendo conduzido de tal modo ao mundo sagrado, que constituiu na vida dele um caminho sem volta.

Por algum tempo, suas aspirações santas e divinas, advindas com os exemplos dos santos, competiam com as suas aspirações militares e cavalheirescas. Estas experiências de movimentos internos e de constante discernimento vão ser cruciais na elaboração dos Exercícios Espirituais, que mais tarde se tornariam a obra inspiradora e animadora de toda a Companhia de Jesus, ordem religiosa aprovada formalmente pelo papa Paulo III, em 1540. Inácio, passou seus últimos anos em Roma, governando a Companhia de Jesus. Morreu em 31 de julho de 1556 e, em 1622, foi canonizado pelo papa Gregório XV, juntamente com outros grandes santos, como Francisco Xavier, Teresa de Ávila e Felipe Néri.

Se olharmos mais a fundo a biografia de Inácio de Loyola, talvez concluíssemos que ele não é um santo de perfil fácil. Ao mesmo tempo em que ele é exigente, é terno. É um homem duro, mas dócil ao espírito. Humilde e forte. Crítico à Igreja, mas sempre fiel a ela. Inácio foi um peregrino de caminhos incertos. Foi acusado de heresia por uns e admirado por outros, foi estudante em Paris, trabalhador em hospitais e acolhedor das prostitutas. Foi um verdadeiro peregrino da vontade de Deus, um amigo do Senhor e um homem de discernimento. Reler, pois, a vida de Inácio pode nos levar a descobrir outros tantos aspectos que podem nos iluminar e provocar ainda hoje.

Conversando com alguns amigos jesuítas, perguntei-lhes o que na vida de santo Inácio lhes inspirava hoje em dia. Muitas foram as respostas. Para ficar somente em dois aspectos, destaco, dentre tudo o que me disseram, o discernimento e a amizade. Desde o início de seu processo de conversão, Inácio aprendeu em seu próprio itinerário a discernir. Foi um homem que teve que passar por diversos caminhos espinhosos, sem, muitas vezes, saber claramente para onde estavam sendo encaminhados os seus passos. Quando tudo parecia ter se acertado, uma nova reviravolta das circunstâncias o colocava diante das incertezas.  Mas ele nunca perdia a confiança em Deus.

Discernir não é recorrer a um manual mágico. Não o foi na época de Inácio nem o é em nossa época. Discernir hoje, como no tempo de Inácio, passa por considerar as circunstâncias, os próprios desejos, o contexto, as urgências da realidade e, sobretudo, considerar os critérios do Evangelho. Ademais, discernir passa por considerar ainda os sentimentos que tudo isso desperta. Requer o cuidado de não converter a vontade de Deus num monte de coisas que não são. Discernir, significa, portanto, estar consciente de que Deus nos ajudará a tomar boas decisões, levando-nos a escolher o caminho mais alinhado com os desejos que Ele tem para cada um de nós e para o mundo. Discernir é um trabalho permanente e torna-se um quesito necessário para vivermos no meio de um mundo em mudança.

O outro aspecto da vida de Inácio que pode nos iluminar, dado a sua atualidade, é o da amizade. Ao olhar para a vida do santo e para o inicio da Companhia de Jesus, é inevitável não perceber o lugar da verdadeira amizade nas relações e nas ações dos primeiros jesuítas. A Companhia de Jesus inicial era um grupo de amigos. Os primeiros companheiros em Paris formaram uma amizade profunda e sólida. Inácio buscou fazer amizades porque o bem que ele tinha a comunicar e oferecer não era algo que deveria ser imposto, mas a ser recebido como um presente, um dom, e isso se dava através da amizade. Ele tinha uma longa lista de pessoas com quem se correspondia e que parece ter tido com muitas delas uma verdadeira amizade.

Não por acaso, em momentos importantes dos Exercícios Espirituais, o tema da amizade aparece. Logo no começo da experiência dos Exercícios, ao descrever o colóquio, ele o apresenta como uma relação de dois amigos: “Assim como um amigo fala a outro amigo”. A amizade que se funda nos Exercícios encontra seu centro na pessoa de Jesus e em seu modo de viver e relacionar-se com as pessoas.

O tema da amizade é atual se considerarmos que vivemos numa sociedade na qual os vínculos humanos são cada vez mais complicados. Estamos rodeados de relações, mas ao mesmo tempo vemos que cada vez mais há muita gente sozinha. É alto o número daqueles que vivem digitando a própria solidão. Neste sentido, a amizade real e verdadeira é um valor. Um valor importantíssimo. Ter um amigo é ter alguém que nos devolva a nós mesmos. É ter alguém para nos amar e acolher em nossas contradições e fortalezas. Esse espírito da amizade sincera e que leva a Deus estava presente na vida de santo Inácio e dos primeiros companheiros e pode estar também em nossa vida hoje.

Celebrar santo Inácio, portanto, é lembrar do dom do discernimento e da amizade, mas também de tantos outros dons que podem nos inspirar. A vida de santo Inácio segue convidando a todos nós a pensar na própria vida, em nossas buscas, em nossas amizades, em nosso discernimento, em nossos projetos e nas marcas que queremos deixar. Que sua vida nos motive e sua intercessão nos  alcance.

*Carlos César Barbosa é graduado em Relações Internacionais pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Estudou na Universidad de La República (UdelaR), em Montevideo. Atualmente estuda Filosofia na Faculdade Jesuíta, em Belo Horizonte. (FAJE). E-mail: carloscesarsj@outlook.com

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