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30/07/2019 | domtotal.com

A nação ilha

Toda vez que os britânicos quiseram se retirar de acordos com países europeus, o seu país foi jogado num caos total.

Agora, eleito premiê de seu país, Boris Johnson fez a promessa, muito difícil a meu ver de ser cumprida, de que queria ser o primeiro-ministro de todos os britânicos.
Agora, eleito premiê de seu país, Boris Johnson fez a promessa, muito difícil a meu ver de ser cumprida, de que queria ser o primeiro-ministro de todos os britânicos. (Oli Scarff/AFP)

Por Lev Chaim*

O novo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, recém-eleito por uma mínima maioria de votos dos conservadores britânicos, não só para a liderança do partido como também para o cargo de primeiro-ministro, no lugar de Theresa May, tem um herói: o falecido premiê britânico, herói da Segunda Guerra Mundial, Winston Churchill. Johnson até escreveu um best-seller sobre ele: O fator Churchill (The Churchill factor).

Agora, eleito premiê de seu país, Boris Johnson fez a promessa, muito difícil a meu ver de ser cumprida, de que queria ser o primeiro-ministro de todos os britânicos. E prometeu fazer o que a sua antecessora não conseguiu: executar o Brexit (separação de seu país da União Europeia), custe o que custar, com acordo ou sem acordo. Economistas de todo o mundo preveem um caos econômico para a Grã-Bretanha, caso esta separação aconteça sem um substancial acordo, para que ambos os lados continuem a se tratar como sócios comerciais, sem grandes estragos para cada um. 

Mas pelas palavras e gestos cômicos do novo premiê britânico, ele não vai abrir mão de nada que seu país deseja e vai deliberar este cansativo divórcio com a União Europeia. De acordo com o historiador holandês, Ivo van de Wijdeven, ao que tudo leva crer, Johnson não teria aprendido nada com o seu ídolo que tanto admira, Churchill, que muitas vezes disse ao grande público, como uma previsão deste futuro incerto de seu país: “uma nação ilha não pode sobreviver sozinha”. Ao que tudo indica, Johnson parece ignorar o que Churchill já sabia e muito bem!

De acordo com esse historiador, Boris Johnson comete vários equívocos sobre a história britânica, pois “foi exatamente quando os britânicos se separaram do continente que ficaram com sérios problemas”. Para esses que desejam ardentemente o Brexit e se apoiam nos pretensos ditos de Churchill, escolhido em 2002 como o mais importante cidadão britânico de todos os tempos, enganaram-se redondamente. Embora a maioria dos economistas preveem um caos para os britânicos em caso de uma separação sem acordo, os favoráveis ao Brexit, como Johnson, dizem se espelhar no grande Churchill quando uma vez ele disse “não para um acordo com o ditador Hitler”. Ou seja, agora os separatistas estão dizendo “não para um acordo com a toda poderosa União Europeia”, parodiando o grande herói de guerra. 

Ledo engano desses separatistas que parecem ignorar totalmente a história de seu país durante muitos anos, coisa que Churchill, na verdade, jamais o fez. Alianças políticas e econômicas sempre foram uma constante na história britânica. Os ingleses clamam orgulhosos que apenas Willem, o Conquistador, foi o único líder estrangeiro a conquistar o território britânico em 1066. Mas, como dizem os historiadores, e Churchill também o sabia, esta soberania britânica, que evitou ser conquistada por poderes estrangeiros, se deve principalmente ao grande envolvimento inglês no continente europeu. Para evitar serem invadidos ou conquistados por poderes estrangeiros, os ingleses sempre fizeram acordos e coalizões com o continente.

E reafirmo o que a história prova a favor daqueles que querem a permanência do país na União Europeia. Toda vez que os britânicos quiseram se retirar de acordos com países europeus, o seu país foi jogado num caos total. Em outras palavras, confirmando o já dito acima, uma ilha nação não pode sobreviver sozinha. Ao que tudo indica, o cômico premiê britânico parece desconhecer, totalmente, o que seu ídolo e herói maior de toda a Grã-Bretanha, Churchill, já sabia muito bem.

Talvez, o grande equívoco desse loiro premiê de hoje seja o de raciocinar como se os britânicos ainda fossem os donos de um grande império, que teve a sua glória maior por volta de 1920, quando ainda possuíam uma grande área no globo. Ele parece ter se esquecido que esse tão badalado império começou o seu declínio logo após o final da Segunda Grande Guerra Mundial, quando tiveram que dar adeus as suas colônias. Hoje, os separatistas britânicos sonham em fazer acordos com os países que um dia pertenceram ao Grande Império Britânico. Mas, como já ficou claro, a maioria daqueles países não está à espera de um estreito acordo econômico com a Grã-Bretanha. O protecionismo está na moda e as regras da Organização Mundial do Comércio, que Johnson frequentemente cita, estão sob forte pressão. Ao que tudo leva a crer, o premiê Boris Johnson parece ignorar a história de seu país e a sabedoria de seu grande herói, Winston Churchill.

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Dom Total.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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