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30/07/2019 | domtotal.com

Autoatendimento sem remorsos

As pessoas lutam contra automação e os serviços de autoatendimento alegando que deveríamos criar mais empregos e evitar o desaparecimento de algumas profissões.

As pessoas lutam contra automação e os serviços de autoatendimento alegando que deveríamos criar mais empregos e evitar o desaparecimento de algumas profissões.
As pessoas lutam contra automação e os serviços de autoatendimento alegando que deveríamos criar mais empregos e evitar o desaparecimento de algumas profissões. (PhotoMIX-Company/Pixabay)

Por Mario Sérgio Teixeira Marques*

Uma grande rede de lanchonetes lançou recentemente um atendimento auto-caixa, equipamento onde o próprio cliente registra seu pedido e faz o pagamento de sua compra. A Amazon, empresa varejista americana, foi a primeira a possuir lojas totalmente automatizadas, hoje já comum em países mais desenvolvidos.

Você já viu pessoas lutando contra esse tipo de serviços e de lojas, alegando que tiram empregos e empobrecem os trabalhadores que são substituídos por máquinas e scanners insensíveis? À primeira vista a maioria de nós até concorda com essa ideia. Não há mal algum em fazer essa escolha.

As pessoas lutam contra automação e os serviços de autoatendimento alegando que deveríamos criar mais empregos e evitar o desaparecimento de algumas profissões. No Brasil, até leis foram criadas com essa finalidade, por exemplo a que proíbe o autosserviço em postos de combustíveis e a retirada dos cobradores nos ônibus é tema de alongados debates. Ativistas alegam que deveríamos até mesmo parar de fazer compras pela internet e só realizar compras em lojas físicas, garantindo dessa forma os empregos de balconistas e caixas.

Segundo esse pensamento tais ações incentivariam a força de trabalho nacional, abrindo milhares de vagas e reduzindo o desemprego. O que é uma visão simplista da situação como um todo. Se aceitarmos a ideia de não utilizarmos o autoatendimento como forma de não causar desemprego, então deveríamos fazer muito mais. Por exemplo: em vez de pegarmos nosso carro e dirigirmos até o supermercado ou shopping, poderíamos ir de táxi, ou utilizar um carro com motorista e, em seguida, pagar a algumas pessoas para levar nossos itens um a um, depois de fazermos as compras. Seguindo esse raciocínio para criarmos empregos, deveríamos também jogar nossos smartphones fora. Segundo pesquisas, ele sozinho substitui 1,2 mil aparelhos e produtos. Vamos pensar como os aplicativos de guias de ruas, destruiu a indústria de guias e mapas.

Claro, isso seria um absurdo. Não estaríamos distribuindo prosperidade ao negligenciarmos os avanços tecnológicos e optando pelo uso de mão-de-obra intensiva, por gerar empregos diretos. Na verdade, estaremos apenas desperdiçando recursos. Historicamente os avanços tecnológicos não geraram desemprego, pelo contrário criaram. Assim como diminuiu a pobreza mundial e melhorou a expectativa e a qualidade de vida da humanidade. Devemos economizar tempo e dinheiro usando os autoatendimentos e fazermos isso sem sentirmos remorso.

Uma pesquisa recente revelou que, em 2017, a geração millenium ao utilizar sistemas de auto pagamento e autoatendimento com alimentação gastou US$ 237 por mês. Graças ao avanço desses sistemas nos Estados Unidos, pressupõe-se que os millenniums economizaram 1% em suas contas de supermercado todos os meses. Isso chega a apenas US$ 25 por ano, aproximadamente R$100. Não parece muito, mas o que você faria com um extra de R$100 por ano? Veja algumas opções que o ajudarão a entender como você não está "destruindo empregos" ao usar o autoatendimento e, inversamente, como você está "criando empregos" e não desperdiçando dinheiro e outros recursos valiosos.

Uma primeira opção é pegar esses R$ 100 e simplesmente gastá-los. Isso é óbvio. Talvez você possa fazer um novo corte de cabelo e estaria então criando uma oportunidade para uma cabeleireira ou comprar uma peça de roupa e colocar toda cadeia produtiva para funcionar.

Outra opção é poupar. Ao colocar os R$ 100 em uma caderneta de poupança ou outra aplicação qualquer, você estará deixando esse recurso para outra pessoa pedir emprestado e colocar em uso produtivo. Seus R$ 100 podem não ser tão importantes, mas quando associados a vários outros R$ 100 de poupadores adicionais, podem ser o suficiente para financiar um empreendimento produtivo como um pequeno salão de beleza, uma padaria, um escritório de advocacia ou um consultório médico.

Uma última opção seria queimar uma nota de R$ 100. Na verdade, como destruir moeda é ilegal no Brasil e pode trazer problemas jurídicos, talvez você possa fazer algo menos severo, como colocá-lo debaixo do colchão ou enterrá-lo no quintal. Parabéns, segundo a teoria monetarista, você diminuiu os preços de todos os produtos e redistribuiu seu patrimônio pessoal igualmente ao tornar os nossos reais um pouco mais valiosos.

Como economista, não posso dizer exatamente o que você deve fazer. Não conheço seus valores, suas preferências e assim por diante. Posso, no entanto, dizer-lhe que, se você está perdendo recursos de forma visível, você está fazendo exatamente isso, desperdiçando dinheiro. Portanto, não ceda à pressão social, use o autoatendimento, se desejar, e não perca o sono com o que seus amigos estão compartilhando em seus feeds de notícias nas redes sociais.

Para quem quer começar a estudar os princípios econômicos recomendo o livro Economia em uma lição, de Henry Hazlit.

*Professor de Economia da SKEMA Business School – Brasil e pesquisador do Lataci Research Institute através do qual colabora com grupos interdisciplinares de iniciação científica da EMGE (Escola de Engenharia de Minas Gerais).

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