Cultura TV

30/07/2019 | domtotal.com

Masterchef: sorte ou talento?

Quem diria que um pato pudesse causar tanta confusão em uma das edições mais acirradas e animadas do programa?

Quem acabou pagando o pato na prova eliminatória do último domingo foi o mineiro Helton, tido como um dos favoritos, com torcidas inflamadas.
Quem acabou pagando o pato na prova eliminatória do último domingo foi o mineiro Helton, tido como um dos favoritos, com torcidas inflamadas. (Carlos Reinis/Band)

Por Alexis Parrot*

Mesmo com o acidente sofrido por Eduardo na prova eliminatória do último domingo, quem acabou pagando o pato foi o Helton. Ficou no ar a pergunta: pato que cai no chão seria motivo para eliminação? Para Jacquin, Paola e Fogaça, a resposta já foi dada. A flagrante polêmica é apenas mais um lance apimentado em uma das edições mais acirradas e animadas do Masterchef – que completa neste ano 10 temporadas, se contarmos as versões de amadores, profissionais e uma Kids, em seis anos de transmissão.

Infelizmente, é também a temporada menos vista, graças à desastrosa decisão de remanejar o dia de exibição do programa para os domingos, competindo no mano a mano com Faustão e Fantástico na Globo, Domingo espetacular na Record e Silvio Santos no SBT. Não que Faustão, Fantástico, Domingo espetacular ou Silvio e seu eterno auditório sejam bons programas, estão longe disso.

A inércia criada pelo hábito entranhado há anos no telespectador brasileiro (tradicional no que assiste nas noites domingueiras) fez com que a ousadia da Band desse com os burros n'água. A batalha seria árdua, disso não se duvidava - tanto que já era previsto o retorno do programa para as terças, caso a estratégia não desse certo. Mas perder quase um milhão de espectadores assim, em uma lambada só, deve ter superado todas as projeções da emissora. Não foi uma simples perda de público, mas um êxodo de audiência.

Houve ainda quem se preocupasse com a estreia brasileira do Top chef e se a atração não poderia roubar o lugar que o Masterchef ocupa há anos na nossa TV aberta. Por também se tratar de um formato norte-americano vitorioso, no ar há 13 anos e com versões locais em mais de 20 países, é até de se admirar a demora para que alguma emissora brasileira se interessasse em importar a franquia. 

Mesmo com um ibope bem mais consistente, o Top chef, graças às suas deficiências, acabou servindo para reafirmar todas as qualidades do Masterchef. A ausência de um apresentador/mediador na atração da Record, por exemplo, prova a necessidade de se escalar alguém para a função e valoriza ainda mais o trabalho de Ana Paula Padrão.

Outra bola fora: são totalmente dispensáveis as sequências no confinamento, pelo menos da maneira como vistas na primeira temporada. Por acrescentar pouco ou nada ao que percebemos dos competidores durante as provas, só arrastam a narrativa do programa e dão espaço para nos distrairmos com outra coisa ou até trocar de canal.    

A alma de um programa desse tipo são os seus jurados – e a Band soube trabalhar este conceito no Masterchef desde a primeira temporada do reality. Não é de hoje, os três cozinheiros e suas personalidades disputam a atenção do público com a competição e são os responsáveis diretos por muita da atenção gerada. Coloridos e divertidos - verdadeiros personagens de si mesmos – Paola, Jacquin e Fogaça deixam a banca de julgadores do Top chef no chinelo.

Embora correto, Felipe Bronze (mauricinho e com seu bom mocismo carioca) chega a irritar. Talvez o que funcionava no GNT, tão identificado com o Rio e seu espírito, não seja o ideal para alçar voos maiores. A participação de Ailin Aleixo parece fora de lugar a maior parte do tempo, levando à seguinte questão: um crítico de gastronomia é mesmo a melhor escolha para assumir uma cadeira no júri, ladeando dois chefs? Por fim, Emmanuel Bassoleil, engessado e sem espaço para evoluir, resulta apagado, rendendo muito menos do que poderia e perdendo feio no saldo final, ainda mais se comparado com o francês da concorrência.

Mas voltemos ao pato. Após uma temporada de amadores tão sem sal como a passada, coroada com a vitória da vilã Maria Augusta para piorar tudo, o elenco de participantes do Masterchef este ano foi uma deliciosa surpresa. Além de serem, em sua maioria, cozinheiros melhores, movimentam-se no programa tendo em vista o que ele é de fato, um jogo, como poucas vezes na história da atração.

Já havíamos visto rivalidades pontuais ou desavenças – como os embates entre o baiano Cristiano e Iranete ou Fernando contra Lucas, na segunda temporada – mas dessa vez a guerra e ódio claramente declarados é o que está guiando os rumos da competição.

As duas peças principais neste tabuleiro vinham sendo Helton e Juliana N., com lances de vingança e perseguição explícitas dignas das reviravoltas de um Game of thrones gastronômico. Juliana, a administradora hospitalar que se acha uma khaleesi do forno e fogão, é fria e calculista. Tem a favor de si a capacidade para cozinhar – mas a mesma empáfia que destruiu Daenerys Thargaryen pode fazê-la cair do cavalo.

Suas hostes estão desfalcadas, porque Fernando e Ecatharine, seus dragões de estimação e fiéis escudeiros já foram eliminados. O primeiro, apesar de ter vencido algumas provas, não chegou a impressionar; e sobre a segunda (que de tão apagada, parecia mais uma participante da última edição), pode-se dizer que a comida combinava exatamente com sua personalidade, nada marcante e desanimada.

Por falar em eliminados, merece destaque o bonachão André, muito simpático aos olhos do público, porém, nem tanto junto aos companheiros de programa (como se percebia nos depoimentos que entrecortam o fluxo das provas). Renan, o adorável caipira goiano, o definiu como "professor de Deus", sinônimo de prepotência e mandonice.

Se nos esquecemos até dos vencedores, daqueles concorrentes que saem logo no início é que nunca nos lembramos mesmo. Mas dessa vez é importante citar Imaculada, a primeira eliminada dessa temporada, pelo tipo de participante que ela representa (e que deve aparecer cada vez mais, à medida que o programa for seguindo pelos anos afora).

Ela não estava preocupada com a culinária ou mesmo em cozinhar, muito menos vencer. Queria apenas estar no Masterchef – a realização modesta de um sonho de fã. Após alcançar seu desejo, era justo que saísse rápido mesmo.

Outro tipo que engrossou as fileiras das figuras antológicas da atração foi o Carlos. Pelo nome, fica difícil lembrar, mas se eu disser que é aquele americanizado, todo mundo sabe quem é. Não cozinhava nada, mas nos divertiu a valer com seu jeito de falar misturando expressões em inglês no meio das frases, como se estivesse em um filme antigo de faroeste dublado (uma versão masculina e mais estapafúrdia da Luby).

Dos que permanecem na disputa, é impossível não se afeiçoar a Lorena, a smurfete do Parnaíba, com seus laçarotes gigantes no cabelo à la Minnie Mouse. Maternal e arretada ao mesmo tempo, tem poucas chances de chegar à final. O fator emocional é um de seus maiores inimigos - juntamente com a tendência de infantilizar a culinária. Se não leva o troféu, certamente já conquistou a faixa de Miss Coentro 2019.

No outro lado do ringue, está Rodrigo; este sim, com boas chances de preencher uma vaga na final e até vencer a disputa. Sério e focado, entende mesmo do riscado e, via de regra, surpreende com suas criações, além de parecer ter nervos de aço. Totalmente desprovido de empatia (tanto nas ações quanto nos depoimentos), é como se vivesse em um mundo à parte, estranhamente isolado dentro dele próprio.    

E chegamos, finalmente, ao pato. Se o pato do inseguro Edu caiu no chão em uma prova de pato laqueado, não deveria ter sido sumariamente desclassificado? A questão assume maiores proporções porque o eliminado acabou sendo justamente Helton, tido como um dos favoritos, com torcidas inflamadas tanto a favor quanto contra sua permanência no programa.

A frase emblemática que marcou a temporada foi a pergunta que Fogaça fez a ele, na primeira prova da caixa misteriosa, se teria acertado uma receita por sorte. Ele respondeu sem pestanejar: "acredito que foi no talento!" - Mas a verdade é que ele tem bastante das duas coisas. A combinação de ambas o trouxe até esta altura da competição, conseguindo até um retorno por meio de repescagem. 

Mas faltou a ele outra qualidade: maturidade; o que é natural até, do alto de seus 19 anos. A juventude lhe subiu tanto à cabeça que não foi capaz nem de ouvir os clamores, avisos, broncas e ensinamentos que os jurados lhe dirigiam, especialmente Jacquin e Paola, servindo a ele como mentores. Os dois acreditaram no potencial do garoto e tentaram de tudo para que ele se aprumasse e encarasse com mais respeito e menos arrogância o ato de paixão que é cozinhar. Em vão.

No extremo oposto da equação está Haila, porque soube agarrar a oportunidade que o Masterchef e seus jurados lhe deram para crescer. A menina de trancinhas, chorona e descontrolada, ficou definitivamente para trás, como bem pontuou Paola. Foi bonito acompanhar pela televisão uma transformação pessoal tão inspiradora - coisa de novela, mas que só poderia acontecer mesmo em um reality show. Perto disso, o tal pato da discórdia perde até o sentido. Se Haila vai ganhar ou não, já nem importa mais – seu verdadeiro prêmio já foi conquistado. Inclusive por isso, minha torcida é por ela.   

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o Dom Total.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas