Religião

31/07/2019 | domtotal.com

Deus é amor sem qualquer 'mas'

Compreender que Deus é amor traz implicações para a vida.

Se é próprio do amor a geração da vida, então todo discurso e ação geradores de morte não pode ser vista como pertencente a um discurso que se diz cristão.
Se é próprio do amor a geração da vida, então todo discurso e ação geradores de morte não pode ser vista como pertencente a um discurso que se diz cristão. (Unsplash/ Chelsea Bock)

Por Fabrício Veliq*

Ao contrário do que se possa pensar, a imagem que hoje se concebe de Deus nem sempre foi a mesma. Ao longo do texto bíblico é possível encontrar visões diferentes a respeito de quem Ele seja. Desde o “Deus da terra” – que estava ligado e reinava sobre um lugar específico (O Deus de Canaã era diferente do Deus do Egito, por exemplo) – até o soberano sobre todas as coisas e criador de tudo – que passa a ser desenvolvida no período exílico e pós-exílico. Todas essas imagens são construídas a partir da experiência de um povo, em determinado contexto geográfico, político e econômico.

Assim sendo, é ilusório pensar que a forma como falamos de Deus seja a mesma que se falava nos tempos bíblicos, especialmente no Antigo Testamento. As categorias que usamos para nos expressarmos sobre coisas mudam com o tempo e, da mesma maneira, as que usamos para Deus.

O cristianismo que surge com a pregação dos apóstolos também fará suas próprias elaborações teológicas, mostrando que, a partir de Cristo, Deus deveria ser enxergado e dito de outra maneira. Já quase no final do primeiro século, a Primeira carta de João trará a forma que se tornou ponto pacífico entre os cristãos e que é bastante conhecida e falada em homilias, pregações, evangelismos etc.: "Deus é amor".

Essa fórmula é inovadora, pois estabelece que Deus é pura relação – isso porque só existe amor quando há algum tipo de relacionamento e, portanto, é próprio do amor um outro a quem se ama. Ao mesmo tempo, ela se torna critério para o discernimento a respeito da pessoa, do conhecimento e da ação de Deus na perspectiva cristã. O próprio autor da carta dirá que “todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Quem não ama, não conhece a Deus, pois Deus é amor” (I Jo 4,7-8). Assim, conhecer a Deus implica amar. Logo, também podemos dizer que todo ato que não é amor não pode levar o nome de Deus.

Em via contrária, está bem claro que toda ação em amor só pode ser ato feito em Deus e do qual ele se agrada. Afinal, atos em amor só podem ser feitos quando motivados pelo próprio amor, que se torna critério de discernimento do cristianismo para pensar as relações e ações feitas em seu nome.

Se é próprio do amor a liberdade, toda relação que não a gera aos seus integrantes não pode ser baseada no amor. Consequentemente, não pode ser cristã. Isso nos leva a pensar os diversos relacionamentos abusivos existentes entre cristãos e que são legitimados pela impunidade e por pregações de viés opressor.

Se é próprio do amor a relação com o outro, não podem ser considerados cristãos os discursos que pregam o isolamento do mundo e a criação de guetos onde todos pensam da mesma forma. Da mesma forma, não o são os sistemas que utilizam o isolamento como mecanismo para promoção da vulnerabilidade das populações, como acontece nos regimes totalitários.

Se é próprio do amor a geração da vida, então todo discurso e ação geradores de morte – seja humana (com a pobreza, a miséria, os assassinatos etc), seja da natureza (o desmatamento exacerbado, a poluição dos rios, o aquecimento global etc), seja dos animais (a caça predatória, o uso de animais em testes de cosméticos etc) – não pode ser vista como pertencente a um discurso que se diz cristão.

Dizer que Deus é amor tem implicações enormes para a vida em sociedade e para a forma como avaliamos as políticas públicas, as ações eclesiais, as relações humanas, as políticas ambientais, o desenvolvimento da economia, dentre outras. Sem a promoção da liberdade, a geração de vida e a relação amorosa com o outro, todo discurso que se diz cristão não passa de demagogia e instrumento para geração de lucro por líderes inescrupulosos.

Deus é amor. Todo “mas” que geralmente é posto depois dessa frase não tem outro intuito a não ser encaixá-la em algum padrão moral que, na maioria das vezes, oprime e mata quem não opta por esse mesmo padrão.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bacharel em Filosofia (UFMG) E-mail: fveliq@gmail.com

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