Mundo

31/07/2019 | domtotal.com

Provocação, bicicletas e humor

Na década de 1960, um grupo de jovens holandeses deu início à contracultura com ideias estapafúrdias e incrivelmente pertinentes, que deixaram uma herança notável.

Bicicletas seriam públicas e deixadas em qualquer lugar, livres para serem usadas por qualquer cidadão.
Bicicletas seriam públicas e deixadas em qualquer lugar, livres para serem usadas por qualquer cidadão. (Pablo Pires Fernandes/Dom Total)

Por Pablo Pires Fernandes*

Não me dei conta de que era comigo, mas as cidades do interior da Holanda são silenciosas e a voz soou bem nítida. Entendi nada, mas o homem repetiu: “Provo”, apontando para a bicicleta branca que eu fotografava. Vendo minha cara de interrogação, aproximou-se.

Era alto, suas roupas estavam manchadas de tinta e o desleixo era maior do que a informalidade típica dos habitantes do país. Devia ter pouco mais de 50 anos. Perguntou se eu sabia o que era o Provo e neguei, mentindo apenas para ouvir a história da boca de um holandês. Sentados à beira do canal, ele me contou sobre a iniciativa anárquica surgida na década de 1960.

Antecessor de toda a onda hippie e o primeiro grupo de jovens com pretensões políticas, os provos – a designação cabe a seus ativistas – nem pode ser chamado de movimento, diante da variedade de ideias e do reduzido número de seus integrantes. Suas iniciativas provocativas (daí a origem do termo) e cheias de humor causaram impacto na estável sociedade de Amsterdã. E, de fato, as consequências ainda são notáveis.

O discurso era pontuado por divagações e casos hilários, interrompidos apenas pelos longos tragos no cigarro, quando me dirigia o olhar como se checasse meu interesse na narrativa. “Em 1965”, contou, “lançaram uma revista, fizeram happenings nas ruas e chegaram a eleger um representante para o Conselho Municipal”.

Dias depois, comprovei a veracidade de tudo que ouvi. A provocação no dia do casamento da princesa Beatrix, os boatos falsos, a reação violenta da polícia e “os planos brancos” que tentaram implementar, sem grande sucesso.

O mais famoso foi o das bicicletas brancas, um plano de colocar nas ruas 20 mil veículos para evitar a proliferação de carros. Pintadas de branco, as bicicletas seriam públicas e deixadas em qualquer lugar, livres para serem usadas por qualquer cidadão.

“Hoje, as grandes cidades do mundo todo têm bicicletas disponíveis para a população, mas são privatizadas. Isso tudo começou em Amsterdã com o Provo”, explicou, soltando uma baforada do cigarro e completando que um dos principais fundadores do grupo o condenaria por fumar, pois era antitabagista e costumava inscrever a letra K, de kanker (câncer, em holandês) sobre cartazes publicitários de cigarro.

Minha expressão de surpresa o fez rir e seguir com as histórias. Falou sobre o manifesto, que definia Provo como “alguma coisa contra o capitalismo, o comunismo, o fascismo, a burocracia, o militarismo, o profissionalismo, o dogmatismo e o autoritarismo”.

Contou-me das propostas de criar grupos de cinco pais e mães para cuidar dos filhos, revezando-se nos dias da semana, de pintar de branco as chaminés de fábricas poluidoras, de ideias sobre habitação e de eleição popular para comandantes da polícia. “Muito utópico”, comentei. O holandês me fitou longamente e disse: “Precisamos de utopias e de humor, senão a vida não tem a menor graça”.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista, subeditor do caderno de Cultura do Estado de Minas e responsável pelo caderno Pensar.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas