Brasil Política

01/08/2019 | domtotal.com

Bolsonaro é o muro de Berlim

A barbárie narrativa venceu o bom senso.

Nossas instituições estão sendo desmontadas em uma velocidade avassaladora.
Nossas instituições estão sendo desmontadas em uma velocidade avassaladora. (Isac Nóbrega/PR)

Por Ricardo Soares*

Há quase 30 anos caiu o muro de Berlim. Mas nós, brasileiros, useiros e vezeiros em estarmos na contramão da história, resolvemos erguer o nosso ao elegermos um sujeito que se diz presidente mas se comporta como chefe de hooligans.

Para nossa tristeza e estupefação fomos bem além do então já preocupante Fla-Flu entre tucanos e petistas e a terceira via a "tudo isso que está aí" foi o pior dos cenários. A eleição de um sujeito não apenas completamente incapaz para o cargo, mas com flagrantes traços de psicopatia e nenhum apreço pela democracia.

Até o mais sonolento observador político há de convir que o Brasil está dividido por um firme muro ideológico construído com uma destrutiva massa de rancor, ausência de massa crítica e fake news turbinada pelo ódio e culpabilização de um único partido. Essa premissa, construída com ajuda da grande mídia, dá conta que muito PT e muito socialismo os males do Brasil são. Ou foram. 

Para o insustentável peso do fascismo culpabilizar os males do país em um único espectro político, eivado por múltiplos escândalos de corrupção, foi a saída encontrada para bombardear a democracia, legitimar a barbárie, a parcialidade e a mentira. Para essa gente vivemos uma realidade paralela que lembra a Coréia do Norte com salas de aula cheias de mamadeiras de piroca e ensino de sexo grupal nos pátios escolares. A barbárie narrativa venceu o bom senso. Não adianta repetir que nunca fomos comunistas ou socialistas. Sequer chegamos perto disso. Mas a realidade paralela venceu e está aí. O muro está erguido e agora a pergunta superlativa nos atormenta: como derrubá-lo?

O elemento que nos desgoverna foi eleito erguendo o muro e, apesar de todas as suas estultices, segue sendo aplaudido pelos seus hooligans o que nos faz temer por inevitáveis confrontos futuros se a carruagem seguir nessa toada.

Não vamos dourar a pílula. Nossas instituições estão sendo desmontadas em uma velocidade avassaladora e estão diante de um grupo no poder que não hesita em colocar nas redes sociais imagens de violência e festejá-las. Debocham de  minorias, da imprensa, dos artistas e de ativistas de direitos humanos. Desrespeitam direitos indígenas, normatizam as invasões e depredações amazônicas, liberam venenos na agricultura e mais um vasto cardápio que revela profunda indigência mental. É um desgoverno que dá claros indícios de que não está disposto a seguir algumas das bases da democracia. Sequer respeitam e reconhecem que a oposição existe, é legítima e muito numerosa. Não foi a maioria que elegeu esse elemento. É bom que se lembre.  

Vamos parar de nos iludir e de passar pano para bandido. Enquanto parte da sociedade se paralisa diante da ineficácia de uma certa "isenção", as sagradas colunas jônicas da democracia racham inapelavelmente sob a ameaça de uma legião de eleitores milicianos fanatizados pelas trevas e pela ignorância. Uma turba que não se nega a cumprir ordens de uma caserna sombria para atacar qualquer um que discorde de seu mentor. Gente que, com escárnio, ri da oposição e acha correto o "mito" confundir público com privado. Gente que zomba da própria democracia, gente que fundou a burrice orgulhosa, a burrice ostentação.

Quem sou eu para imaginar como pode ser derrubado esse muro enorme, sólido, cimentado com sangue e fel. Um muro de péssimas energias, obra de um elemento que tem um  falso Messias no sobrenome. O que sei é que esse muro de Berlim erguido em nossa frente é pesado, dolorido e nos adoece. Pedir ajuda a quem para interditar a obra? Ao papa? Convenhamos que o coitado tem até feito o possível para nos ajudar, mas diante do muro do inferno é preciso uma legião de templários guerreiros para erguer pontes. Pontes sobre nosso anacrônico muro de Berlim, cujo fim não parece próximo para nossa aflição. 

*Ricardo Soares é diretor de TV, roteirista, escritor e jornalista. Publicou oito livros, dirigiu 12 documentários.

EMGE

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