Religião

02/08/2019 | domtotal.com

Pão a quem tem fome e fome de justiça a quem tem pão

Questionamos a Deus os motivos pelos quais 'Ele permite' a fome e a miséria que assolam o mundo, sem perceber que este, antes de tudo, é um questionamento que Deus faz para nós.

O Senhor nos revela que a solução do problema não consiste em adquirir/comprar mais, mas em partilhar o que se tem.
O Senhor nos revela que a solução do problema não consiste em adquirir/comprar mais, mas em partilhar o que se tem. (Free Bible Images/ Lomo Project)

Por Daniel Reis*

Nestes tempos sombrios em nosso país, onde institucionalmente negligencia-se, ou pior, banaliza-se a fome, é imprescindível que nos voltemos para os ensinamentos do único e verdadeiro Messias, Jesus Cristo, a fim de reaprendermos com Ele a não menosprezar a miséria alheia, mas pelo contrário, a nos empenharmos para saná-la, como comunidade, sociedade e nação que somos.

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Para nos iluminar a respeito dessa questão, recordemos um relato presente nos quatro evangelhos: a multiplicação dos pães e peixes. Comecemos com a narrativa de Lucas (9, 10-17), quando os discípulos voltam de uma missão que Jesus lhes havia incumbido e vão contar para Ele como foi a experiência. O Mestre então toma consigo os apóstolos e vai com eles a um lugar deserto, na direção de uma cidade chamada Betsaida, na Galileia: região de empobrecidos. As multidões percebem a movimentação e vão atrás de Jesus, que as atraindo para si, acolhe-as, fala do Reino e cura os necessitados (cf. v.11).

Em seguida, “o dia começa a declinar” (v.12) e, com a noite, chega também a fome. Os discípulos se aproximam de Jesus e pedem que Ele resolva o problema, porém, categoricamente escutam do Mestre: “DAI-LHES VÓS MESMOS DE COMER” (v.13), ordem que deveria, incessantemente, ressoar nos ouvidos e nos corações de todos aqueles que hoje se dizem discípulos e discípulas d'Ele. Trata-se de uma exortação para promovermos a saciedade e a fartura do Reino na história, para todos.

Como os discípulos de outrora, muitas vezes queremos colocar nas mãos do Senhor aquilo que Ele colocou nas nossas antes para resolvermos. De “barriga cheia”, vivemos exclamando: “Seja o que Deus quiser!”, replicando muitas vezes aquele que foi o gesto de Pilatos (Mt 27, 24c). Petulantes e insolentes, ousamos questionar a Deus os motivos pelos quais “Ele permite” a fome e a miséria que assolam o mundo, sem perceber que este, antes de tudo, é um questionamento que Deus faz para nós.

Outra atitude igualmente problemática é a de negação da situação. Finge-se de cego, desvia-se o foco, “passa-se para o outro lado do caminho” (cf. Lc 10,31-32). Exemplo de uma atitude assim tivemos recentemente, com a imprudente e absurda declaração do presidente da república, ao dizer que “Passar fome no Brasil é uma grande mentira”, sendo que em nosso país milhões de pessoas passam fome todos os dias, segundo relatórios da FAO, órgão especial da ONU para o combate à fome.

De volta aos evangelhos, após receberem a ordem de Jesus, os discípulos logo respondem que possuem apenas cinco pães e dois peixes, não sendo assim o suficiente para alimentar as cinco mil pessoas ali reunidas (cf. vs.13b-14). No correlato em Marcos (6,38), logo após os discípulos apresentarem a proposta irônica de comprarem os pães para a multidão, Jesus inquire: “Quantos pães tendes? Ide ver”. Projetemos esta interpelação de Jesus a um plano global, nestes nossos dias atuais: se cada pessoa, olhando para tudo o que possui e, ainda que fosse pouco (“cinco pães e dois peixes”), resolvesse partilhar com os que nada têm, ainda haveria fome no mundo? O Senhor nos revela que a solução do problema não consiste em adquirir/comprar mais, mas em partilhar o que se tem.

Na sequência do relato, o Mestre Jesus resolve dar o exemplo: pede que os discípulos organizem e acomodem as multidões em grupos, enquanto tomando os pães e os peixes, Ele os abençoa, parte e dá aos apóstolos para que distribuam à multidão. Todos comem e ficam saciados (cf. Mc 6,42). As circunstâncias nos fazem recordar um novo Êxodo: como o Senhor, Deus de Israel, outrora atraiu seu Povo ao deserto e ali os instruiu, organizou e alimentou com o maná (cf. Ex 16), agora Jesus também atrai ao deserto as multidões pobres, famintas e oprimidas pelo Império, e as alimenta com um farto “banquete da partilha”, onde sobram doze cestos (cf. v.43), número este que para a numerologia bíblica significa a “totalidade” (como doze são os apóstolos, as tribos de Israel, etc.), prefigurando e antecipando assim, já neste mundo, a abundância do Banquete do Reino, onde não haverá mais fome (cf. Ap 7,16).

Jesus não se omite perante a fome, pois alimentou plenamente não só o espírito, mas também o corpo daquelas “ovelhas sem pastor” pelas quais “teve compaixão” (Mc 6,34). E assim o fez suscitando nos discípulos o espírito da partilha. Para nós, portanto, discípulos e discípulas de hoje, não é possível partilhar apenas o “Pão consagrado” sem partilhar o “pão nosso de cada dia”. Rezemos confiantes: “Senhor, dai pão a quem tem fome, dando fome de justiça a quem tem pão!”

*Daniel Reis é leigo, graduando em Teologia e em Direito, pela PUC Minas. Cursou Especialização em Liturgia, pelo Centro de Liturgia Dom Clemente Isnard e Universidade Salesiana de São Paulo (UNISAL). Membro da coordenação e assessor da Comissão de Liturgia da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Membro e assessor do Secretariado Arquidiocesano de Liturgia (SAL). Membro do Regional Leste II para a Liturgia, da CNBB. Membro da diretoria da Associação dos Liturgistas do Brasil (ASLI).

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