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02/08/2019 | domtotal.com

Tecendo a manhã

Como curar a infecção advinda da incontinência diarreica verbal, com a propagação de seus efeitos deletérios no corpo social do país adoentado?

Faroeste canhestro de tiroteio desvairado e morticínio alastrado.
Faroeste canhestro de tiroteio desvairado e morticínio alastrado. (Pixabay)

Por Eleonora Santa Rosa*

Semaninha azeda, com desfile de comentários escabrosos, exalando ódio e rancor, em direção ao buraco mais profundo que se possa imaginar, ainda longe do que parece possível em curto espaço de tempo.

Assombrados muitos, chocados outros tantos e impassíveis outros muitos tantos, simplesmente, alguns apáticos, outros apoiadores, outros alienados, outros renitentes e insistentes.

Como curar a infecção advinda da incontinência diarreica verbal, com a propagação de seus efeitos deletérios no corpo social do país adoentado?

Descentramento, desassossego, cizânia, enfrentamento, coação, coerção, demolição de princípios básicos da civilidade, respeito, de compreensão e, sobretudo,  magnanimidade, um verdadeiro ‘palavrão’ nos dias de maus modos e incensamento à burrice ampla, geral e irrestrita.

A cada dia a agonia do impropério da hora, do insulto sem pudor, do sarcasmo que cala fundo, da mentira sem cerimônia.  Faroeste canhestro de tiroteio desvairado e morticínio alastrado.

Dias de difícil digestão, mas de obrigação de sobrevivência, transmutação, contraposição, articulação, de insistência nos valores de formação, de educação, cultura, de elevação de espírito e de não agressão.

Nos instrumentos à mão, o livro e sua forma extraordinária de reflexão, a poesia e sua irrefreável potência de não servidão.

Na cabeceira, João Cabral tecendo a manhã:

Um galo sozinho não tece a manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro: de outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzam
os fios de sol de seus gritos de galo
para que a manhã, desde uma tela tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

Poema de João Cabral de Melo Neto – Tecendo a manhã, A educação pela pedra.

*jornalista

EMGE

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