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04/08/2019 | domtotal.com

Dizer-uma arte, ou um desastre

Hoje vivemos em outra era. A pressa em falar, em acusar, em contestar, superaram a seriedade do dizer.

Multiplicam-se os rompantes, as agressões, os verdadeiros petardos gráficos ou vocais, que buscam apenas a vitória.
Multiplicam-se os rompantes, as agressões, os verdadeiros petardos gráficos ou vocais, que buscam apenas a vitória. (Pixabay)

Por Evaldo D' Assumpção*

Dizer e falar podem ser considerados  sinônimos, contudo há uma certa diferença no significado de cada uma dessas palavras. Falar, basicamente significa exprimir-se oralmente, sonoramente. É a vocalização de um pensamento. Seu órgão fundamental de expressão é a boca. Falar é um verbo intransitivo, ou se usa com preposição. 

Já dizer, é um verbo que exige complemento direto sem preposição, ou regido da preposição “de”. Mesmo sendo também a expressão de alguma coisa, tem maior densidade, pois sugere a transmissão, da maneira mais compreensível que for possível, de uma ideia, de algo bem elaborado, uma opinião sobre alguma coisa. E com um diferencial: tanto pode ser oralmente, como pode ser por escrito, por gestos, ou por sinais gráficos. Podemos afirmar então que o órgão do dizer, é basicamente o cérebro. Não é sem razão que de uma pessoa demasiadamente loquaz se diz “falante”. E geralmente com um sentido pejorativo. Contudo, não se ouve dizer que alguém é “dizente”.  

Por causa desses conceitos, iniciei essas reflexões com o título de que dizer é uma arte, tanto quanto pode ser um desastre.  Aprendemos, em tempos passados, que “o silêncio é de ouro”, contudo é também muito importante não deixarmos de dizer o que pensamos. Mas fazendo-o sempre com o cuidado de pensar bem o que se quer dizer, para quem o vai dizer, e a forma como o irá fazer. Isso o livrará de ser um desastre.

Certa vez, Sócrates foi procurado por uma pessoa que queria lhe contar algo que ficara sabendo. O filósofo lhe disse: “Você já passou o que me quer dizer pelas três peneiras?” Sem entender, o interlocutor perguntou-lhe que peneiras eram aquelas. E ouviu: “A primeira peneira é a verdade. O que você quer me contar dos outros é um fato? Caso só tenha ouvido falar, isso deve morrer aqui mesmo. Mas suponhamos que seja verdade. Deve, então, passar pela segunda peneira: a bondade. O que você vai contar é uma coisa boa? Ajuda a construir ou destruir o caminho, a fama do próximo? Se o que você quer contar é verdade e é coisa boa, deverá passar ainda pela terceira peneira: a necessidade. Convém contar? Resolve alguma coisa? Ajuda a comunidade? Pode melhorar o planeta? Se passou pelas três peneiras, conte, pois todos iremos nos beneficiar. Caso contrário, esqueça e enterre tudo. Será uma fofoca a menos para envenenar o ambiente e fomentar a discórdia entre irmãos”.

Se utilizarmos essa lição de Sócrates para uma observação criteriosa dos dias atuais, verificaremos o quanto estamos distantes de um mundo ético e harmonioso. A todo momento, escutamos e lemos nos noticiários coisas que nos deixam apreensivos com o que poderá acontecer ao Brasil, num futuro próximo. A mídia informativa deixou de ser um instrumento de educação, de formação e orientação, para se tornar numa máquina estressante e causadora de discórdias. 

Mas também as pessoas que ocupam cargos nos três poderes da República, falam muito e pouco dizem, despreocupadas que estão com os efeitos de suas colocações. Estão mais interessadas em denegrir imagens, criar expectativas negativas e desmoralizar os adversários. A verdade não lhes interessa, se forem opostas aos seus objetivos, às suas intenções. Por isso, não as divulgam.

Os ocupantes de cargos executivos, perdem seu tempo e gastam suas energias tentando explicar ao público, aquilo que pretendem ou estão buscando fazer, e que foram distorcidas ou ocultadas pelos seus opositores. E acabam falando muito, mas dizendo pouco, dando mais munição para seus adversários que deformam o que falam, pinçam frases esparsas, e fazem uma verdadeira montagem, retirando o sentido exato do que foi exposto. Usando um anglicismo atual, as fake news.

Volto no tempo e me recordo dos grandes mestres e oradores, que, com enorme perícia, muito conhecimento e rapidez mental, selecionavam e modelavam cada palavra que pretendiam dizer antes de fazê-lo. Construíam assim frases quase perfeitas que explicavam, sem tergiversações e sem deixar margem para outras interpretações, a essência de seus pensamentos.

Hoje vivemos em outra era. A pressa em falar, em acusar, em contestar, superaram a seriedade do dizer. A eletrônica, cada vez mais sofisticada, trouxe instrumentos de comunicação agilíssimos, mas que usam, e até exigem, resumos, contrações e símbolos, substituindo os pensamentos bem elaborados. Assim multiplicam-se os rompantes, as agressões, os verdadeiros petardos gráficos ou vocais, que buscam apenas a vitória, geralmente representada pela derrocada do adversário, sem qualquer real subsídio para construir melhores soluções para os graves problemas que assolam nosso país.

As escolas pouco ensinam, livros já não são lidos com gosto, mas superficialmente, quase sempre através de resumos nem sempre bem feitos, só para pontuação em exames. Valores éticos e morais já não valem quase nada, pois os golpes e a esperteza os substituíram. Diante desse quadro obscuro, fica a esperança de que dias melhores virão.

* Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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