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05/08/2019 | domtotal.com

Líbano: uma experiência de crescimento pessoal e profissional

Professora da EMGE acompanhou grupo de alunos durante intercâmbio pelo país.

Professora Aline Oliveira (centro) durante intercâmbio na Universidade Saint-Esprit de Kaslik.
Professora Aline Oliveira (centro) durante intercâmbio na Universidade Saint-Esprit de Kaslik.

Por Aline Oliveira
Professora da EMGE

Sou fascinada por conhecer lugares novos. A primeira vez em um novo ambiente é sempre encantadora, porque temos a oportunidade de observar e prestar atenção aos detalhes. Facilmente nos acostumamos com o lugar onde vivemos ou passamos todos os dias. De repente, não enxergamos mais o caminho para o trabalho, as redondezas do bairro onde moramos, as pessoas que nos cercam... Conhecer desperta a curiosidade, a criatividade, o olhar atento, a sensibilidade, a empatia, a compreensão e outros sentimentos impossíveis de se prever.

Gosto tanto de conhecer que prefiro não retornar aos lugares que já conheço. Mas um desses lugares inaugurou a lista dos lugares aos quais, certamente, eu voltarei: o Líbano.

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Antes de embarcar para Beirute, muitos eram os questionamentos. Sobre a cultura, o modo de vida, religião, vestimenta, alimentação... Mesmo que os contatos na universidade e as fontes da internet me dissessem que não há excesso de conservadorismo, eu precisava ver para acreditar. Eu vi, acreditei e me encantei. Descobri que o Líbano se parece muito mais com o Brasil do que eu poderia imaginar. E é bem verdade que todo libanês já esteve no Brasil ou conhece alguém que mora aqui.

A maior comunidade libanesa fora do país está no Brasil. Segundo dados do último senso disponível, a comunidade libanesa no Brasil é quase o triplo da população do Líbano: 12 milhões de libaneses viviam no Brasil em 2017, enquanto a população do Líbano é de 4,5 milhões. Mais de 12 mil brasileiros viviam no Líbano também em 2017. De fato, há uma semelhança impressionante.

Povo acolhedor, extrovertido, amigável e hospitaleiro. São muito religiosos, gostam de música e dança e, apesar de terem sofrido muito com guerras e desastres ambientais, estão sempre alegres. Pude perceber essas qualidades desde o voo de Dubai a Beirute. O voo dos Emirados Árabes para o Líbano foi muito mais agitado. Pessoas falando alto, gesticulando, muito mais interação, mais sorrisos e mais comunicação.

Apesar das semelhanças, há algo que ainda precisamos aprender com os libaneses. Lá, não há violência urbana. Não se houve falar sobre roubos, assaltos ou latrocínios. Pode-se andar nas ruas tranquilamente ou deixar seus pertences em qualquer ambiente. As casas não têm muros, não há cerca elétrica ou garagem. Os carros ficam estacionados nas ruas mesmo, geralmente abertos. Me pergunto porque ainda não podemos desfrutar deste sentimento de liberdade e confiança no país tão maravilhoso em que vivemos. Mas tenho esperança na educação que estamos transmitindo às novas gerações. Em breve chegaremos lá, tenho certeza.

O professor Gilmar e eu fomos recebidos como convidados especiais na Universidade de Kaslik. Fomos hospedados na Guest House, dentro do campus, com muito conforto e comodidade. Os demais ficaram alojados no dormitório de estudantes, também no mesmo campus e muito bem organizado.

A infraestrutura da faculdade é admirável. Equipamentos e mobiliários modernos contrastam com a arquitetura antiga. O campus é muito arborizado e limpo. Em 2018, a Usek foi ranqueada como a universidade mais verde do Líbano, estando entre as 10 universidades mais verdes do mundo árabe. Os critérios e indicadores de classificação incluíram a configuração e a infraestrutura do campus, energia e mudança climática, resíduos, água, transporte e educação. A Usek realiza coleta seletiva diariamente e não utiliza copos descartáveis de plástico, mas sim de papel.

Nosso grupo foi para o Líbano para participar do curso de verão da Usek, em uma turma composta também por intercambistas do Iraque, Holanda, Jordânia e Itália. Na programação do curso, tivemos aulas de Árabe, Questões do Oriente Médio, Enologia, Música e Dança Tradicional.

As aulas de árabe foram as minhas preferidas. Aprender a se comunicar na língua local é o ponto de partida para se fazer parte da comunidade. Mesmo na capital e arredores, nem todos falam inglês. A primeira língua é árabe e a segunda, francês. Aliás, há muita influência francesa na arquitetura, nos estabelecimentos, no dialeto, no comportamento, na moda etc.

Nas aulas da disciplina Questões do Oriente Médio, tivemos a honra de aprender pela experiência do professor Nassif Hitti, que atuou como embaixador da Liga Árabe por mais de 20 anos. Como é diferente a perspectiva de quem de fato vive a situação do mundo árabe, enquanto nós, aqui de longe, apenas consumimos notícias superficiais de grandes redes de comunicação. Aprendemos muito sobre as motivações da guerra na Síria, sobre o importante papel do antigo Iraque (antes dos EUA) no controle das tensões com o Irã, entendemos que Saddam Hussein era um ditador sim. Mas seu papel era necessário e importante em todo o mundo árabe, como a religião pode ser maior que a nacionalidade, como as questões culturais influenciam muitos povos, o porquê de tantos problemas com a Palestina e como o Líbano consegue manter o equilíbrio delicado com Israel. Depois de escutar e sentir o que o professor e os libaneses nos transmitiram, eu não poderia voltar deste intercâmbio com as mesmas ideias que tinha antes. Me lembro de uma frase famosa atribuída a Einstein: “A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”.

Nas aulas de Enologia aprendemos sobre a tradição do vinho, que teve início com os fenícios, no Líbano, milhares de anos atrás. Como produzir, o que observar e como degustar. A visita à vinícola foi o ponto alto do curso.

As aulas de Música e Dança Tradicional com a professora Cedra foram diversão à parte. A professora tem experiência como coreógrafa do The Voice Arab e nos ensinou o dabke, a dança típica libanesa. É uma dança folclórica em que os participantes, homens e mulheres, ficam em linha e executam os mesmos passos de mãos dadas. Tem origem na antiga tradição de pisar fortemente sobre argila e era realizada inicialmente pelo povo em momentos felizes da comunidade, como nascimento, casamento, colheita etc.

Ainda na programação do curso de verão, tivemos oportunidade de saborear refeições tipicamente libanesas (café da manhã, almoço e jantar). Fizemos uma caminhada na linda reserva ambiental de Jabal Moussa e um passeio a Byblos, uma das cidades mais antigas do mundo e patrimônio mundial da Unesco. Acredita-se que Byblos tenha sido ocupada pela primeira vez entre 8800 e 7000 a.C. e tenha sido continuamente habitada desde 5000 a.C.

No Líbano, as cidades são muito pequenas e próximas umas das outras, como bairros aqui no Brasil. Caminhando a pé por alguns quarteirões ao redor da universidade, poderíamos visitar mais de quatro cidades em poucos minutos, sendo Jounieh a maior delas. Lá, participamos do festival de verão e pegamos o teleférico em direção a Harissa, onde se encontra o monumento da Mãe do Líbano. Local turístico, de oração e peregrinação, com uma vista paradisíaca do Mar Mediterrâneo, que banha toda a costa libanesa.

A uma quadra da Universidade de Kaslik estava o mar, de um azul incomparável. Do campus tínhamos uma bela vista do mar. Entretanto, não era fácil acessar a costa. As praias no Líbano não são públicas. Na orla são construídos clubes particulares, que cobram pela entrada. Na verdade, os libaneses não têm o hábito de tomar banho de mar como os brasileiros. Eles preferem utilizar a piscina e aproveitar apenas a vista do mar.

Em todos os estabelecimentos é aceito o dólar como moeda, mas o troco sempre é dado em libras libanesas. A conversão adotada por todos é de US$ 1 para 1.500 L.L. (libras libanesas).

A culinária é muito saudável (e deliciosa, na minha opinião). Come-se muitos vegetais e carnes grelhadas magras. Os molhos brancos são à base de iogurte natural (labneh). Os temperos de ervas naturais são muito variados, mas a comida não costuma ser apimentada. Talvez a alimentação saudável justifique, em grande parte, o fato do índice de obesidade no Líbano ser próximo de zero.

Acredita-se que a maior parte da população seja muçulmana, embora não haja um senso atual que comprove essa informação. Entretanto, na capital Beirute e arredores, aparentemente, há maior concentração de cristãos. Na porta das casas, encontrávamos sempre altares de culto a algum santo. A religião é superior à nacionalidade. No registro civil de cada cidadão consta a religião a qual ele pertence. E ele deve ser julgado conforme os costumes de sua crença.

Segundo os moradores, a legislação do Líbano é falha e a fiscalização inexistente. A polícia atua pouco ou nada, porque a relação entre cristãos e muçulmanos é pacífica, mas desde que não haja conflito de interesses. No caso de uma infração, por exemplo, se o policial for cristão e o infrator muçulmano, a abordagem pode ser levada para o lado religioso e se transformar em um grande conflito, assim como na situação inversa.

A presença do Exército nas ruas é constante, fazendo rondas com grandes armas e tanques de guerra, seja ao redor da universidade ou em grandes eventos. É proibido filmar ou fotografar qualquer militar. Confesso que no começo foi estranho, mas rapidamente nos acostumamos.

O trânsito foi algo que me impressionou bastante. Nas ruas ou rodovias, não há controle de velocidade, poucos utilizam cinto de segurança, não há transporte público e o uso de capacete não é obrigatório. Tampouco é controlado o número de pessoas que podem ser transportadas em uma única motocicleta ou a idade mínima para tal. Comumente, motocicletas em alta velocidade transportavam, de uma só vez, famílias inteiras. Foi uma grande aventura viajar pelo Líbano, de automóvel ou a pé. Como não há transporte público, a maior parte da população tem carro próprio ou utiliza táxi (que cobra valores acessíveis). Portanto, não há infraestrutura para pedestres. Na maior parte das cidades, não há calçadas ou passarelas. As buzinas constantes e o ronco dos motores deixaram de me assustar após a primeira semana.

A energia elétrica consumida no Líbano é produzida praticamente por termoelétricas. Tivemos oportunidade de ver várias delas. Acredita-se que a energia gerada seja suficiente para abastecer toda a população, mas, segundo os moradores, as políticas públicas não são bem estruturadas. Há ruptura no fornecimento de energia todos os dias. Às vezes, mais de uma vez por dia/noite. E todos tratam isso com total naturalidade. Não há sequer um comentário ou pausa nas atividades quando falta energia. Todos os equipamentos eletroeletrônicos são preparados para as quedas e muitos locais possuem geradores próprios.

Durante estes 15 dias do curso de verão, aproveitamos os horários livres para conhecer o máximo sobre a cultura libanesa em diferentes cidades nas redondezas de Kaslik. Na capital Beirute, visitamos uma mesquita, diferentes igrejas cristãs, passeamos pelo centro histórico e conhecemos uma bela escultura natural em Bayrock. Por falar em beleza natural, quantas são as belezas desta terra! Na região central do Líbano, conhecemos também a gruta Jeita, cuja visitação é dividida em duas partes: uma superior, onde se caminha pelos grandes salões, e uma inferior, onde é possível fazer um caminho de barco pelo salão inundado da gruta, com uma água incrivelmente verde. Uma pena ser proibido fotografar dentro de Jeita.

O pôr do sol no Líbano é um espetáculo diário. Difícil escolher o pôr do sol mais bonito que presenciamos, mas certamente o de Batroun foi especial. Pudemos assistir ao cair da tarde em frente ao muro fenício, sob os grandes pórticos de pedra da Igreja Nossa Senhora do Mar. Batroun é mais uma cidade cheia de história, construída pelos Fenícios no século 9 a.C. O muro fenício, feito de pedra na beira do mar, tem 225 metros de comprimento, 5 de altura e um de largura. Mesmo com seus mais de 2 mil anos de existência, ainda resiste às ondas do Mediterrâneo.

De todos os lugares que visitamos durante esses 15 dias, um deles me impressionou. Se eu pudesse voltar no tempo e repetir algo que fiz, voltaria ao nosso passeio a Baalbek. Nossa viagem ao interior do Líbano, quase na fronteira com a Síria, foi em um domingo livre e foi acompanhado pelo professor Roberto Khatlab, brasileiro que vive no Líbano há mais de 15 anos. Nessa viagem, conheci um Líbano muito diferente do Brasil.

Baalbeck é uma cidade famosa mundialmente, um dos sítios arqueológicos mais importantes e antigos do mundo, além de patrimônio mundial da Unesco. As origens de Baalbeck se perdem no tempo, no entanto, indicações lá encontradas fizeram arqueólogos datar sua fundação por volta do início do século 12 a.C. pelos fenícios. Mas a região continuou a ser construída pelos gregos e mais tarde pelos romanos.

Baalbeck está situada na região do Vale do Bekaa, controlada pelo grupo Hezbollah, cujo nome significa Partido de Deus, mas trata-se de uma organização xiita extremista de influência iraniana. Toda a região é controlada pelo grupo, sendo a lei deles a que rege qualquer ação por ali.

No caminho, ao passar pelo alto do Monte Líbano em direção ao Vale do Bekaa, pudemos observar grandes plantações verdes na planície. De perto, já no vale, por quilômetros ao longo da estrada, lá estavam as grandes plantações de maconha. O consumo de drogas é ilício no Líbano, mas não ali, na região controlada pelo Hezbollah.

Ainda ao longo da estrada, inúmeros outdoors e placas com rostos de pessoas (sobretudo homens) chamavam nossa atenção. “São os mártires”, explicou o professor. “Aqueles que se ‘sacrificaram por Deus’ cometendo atos de terrorismo, sendo homens-bomba ou camicazes. Esses se tornaram mártires e são cultuados e homenageados como grandes heróis. Após a morte, eles acreditam que terão a recompensa no paraíso com oito virgens. Além disso, a família do mártir recebe boa indenização pela coragem e bravura daquele que se matou.”

Nesta região, a grande maioria é muçulmana. As mulheres andam totalmente cobertas pelas ruas e as mesquitas estão por toda a parte, algumas, inclusive, construídas pelo Irã. Camisas, bonés e enfeites de promoção do Hezbollah são os itens mais vendidos por ali. A ala militar do grupo está em guerra com a Síria e também com Israel. Portanto, é uma área de tensão constante.

Apesar da apreensão inicial, aproveitamos intensamente o passeio em meio às ruinas. Toda a preocupação foi esquecida diante de tamanha surpresa. Eu não poderia acreditar na veracidade dos templos e da engenharia presente naquele lugar, se eu não tivesse visto e tocado pessoalmente. Não há explicação para construções e arquiteturas tão arrojadas terem sido feitas por civilizações sem maquinário pesado ou infraestrutura de alta complexidade. São edificações enormes, que utilizam pedras maciças de 2 toneladas na fundação. Pedras essas talhadas a cerca de 2 quilômetros de distância e levadas inteiriças até o local das construções. São edifícios perfeitamente calculados, decorados e montados, que resistiram a terremotos e guerras desde o século 7 a.C. Como explicar que fenícios, gregos e romanos tenham realizado tais feitos há tanto tempo? A teoria mais aceita pelos libaneses é de que essas construções, assim como as pirâmides do Egito, Machu Picchu no Peru e outras, foram realizadas por outras civilizações que não habitam mais o nosso planeta. Há uma crença na ufologia.

Nas regiões montanhosas do Líbano, assim como na Síria e na Jordânia, ainda existem muitas tribos de beduínos. Vimos várias durante a viagem a Baalbeck. Os beduínos são pastores nômades que viajam a pé pelas regiões montanhosas em busca de pasto para as ovelhas, percorrendo diferentes países e produzindo o próprio alimento com o que encontram – tradição transmitidas de geração para geração. As famílias vivem em tendas de plástico ou pano, sendo submetidas a condições climáticas severas, desde verões com mais de 40 graus a invernos com temperaturas negativas e neve.

O Líbano é agraciado pelo clima mais ameno entre os países do mundo árabe. Devido às montanhas próximas à costa, não tem deserto, e por isso, tem o verão mais agradável da região. Durante a estação quente, muitos turistas árabes viajam para lá para fugir das altas temperaturas e do clima seco do deserto. O povo libanês, de característica resiliente e empreendedora, percebeu então uma oportunidade de transformar o país em um centro comercial rico e diverso, conhecido então como a “Europa Árabe”. O Líbano possui economia aberta e se parece de fato com um país ocidental, com lojas de marcas famosas no Ocidente. Pelo que pudemos perceber, os árabes são muito vaidosos e estão sempre bem arrumados.

O horário comum de trabalho no Líbano é das 8h às 14h30, de segunda a sexta-feira, sem intervalo de almoço. Por este motivo, os libaneses têm o costume de almoçar mais tarde, após às 14h30. E então ficam com a tarde livre para outras atividades. O horário de trabalho comum é tranquilo, mas em compensação, não há legislação trabalhista em vigor no país. Tudo depende de negociações entre empregador e empregado. Não há aposentadoria, sendo o filho homem geralmente responsável por manter financeiramente os pais durante a velhice.

Apesar de terem sido apenas 15 dias, a experiência no Líbano provocou impressões impossíveis de traduzir em palavras. Fica o sentimento de preconceitos descontruídos, de gratidão imensa pela oportunidade e o desejo de conhecer mais sobre essa cultura tão apaixonante.

Shukraan Lubnan!

Almaelim Aline Oliveira

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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