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06/08/2019 | domtotal.com

Humberto e Elias


Humberto Werneck é cronista e jornalista. Elias Canetti, escritor búlgaro que ganhou o nobel de literatura em 1981
Humberto Werneck é cronista e jornalista. Elias Canetti, escritor búlgaro que ganhou o nobel de literatura em 1981 (Divulgação)

Por Lev Chaim*

Após ter lido a crônica de Humberto Werneck, “Um talento perdulário”, escrita numa das terças para o Estadão, como sempre ocorre, fiquei calado, contemplativo. Depois, veio-me à mente a minha favorita obra de todos os livros que já li, O jogo dos olhos, de Elias Canetti (História de uma vida/1931-1937, Companhia das Letras). Canetti assim se referiu ao encontro com algo escrito que nos enleva: “O encontro com uma obra talentosa de um amigo torna-se algo monumental. Talvez seja essa a única forma possível de lograrmos renascimentos espirituais que nos preservem das consequências da rotina e da ruína”.

Pois é Humberto, o meu encontro com a sua crônica provocou-me uma catarse de sentimentos borbulhantes, desencontrados, alegres e tristes. A primeira pergunta que me fiz foi a seguinte: Por que o Humberto leu, pela primeira vez, alguma menção ao intelectual perdulário, Jayme Ovalle, na epígrafe de um conto de Ivan Angelo e eu não? Ciúmes? Não, admiração pura. Humberto é capaz de encontrar uma pérola ao caminhar até a esquina da padaria de sua casa. Naquela epígrafe estava escrito: “O suicídio é um ato de publicidade: a publicidade do desespero”.

Humberto foi fisgado pela frase aos 18 anos e saiu à procura de material para escrever a biografia deste desconhecido ilustre, amigo de tantos famosos, que registraram as tiradas orais de Jaime Ovalle. Para quem não sabe ainda, Ovalle foi o compositor de Azulão, nascido em Belém e falecido aos 61 anos de idade no Rio de Janeiro. Humberto explicou que foi Vinicius de Moraes que apanhou no ar essa frase de Olavo, quando foi fazer uma entrevista com o dito cujo.

E Humberto contou mais: “Ovalle só muito raramente escrevia, e para comprovar a sua inapetência bastava ver a sua caligrafia garranchosa. Suas pérolas só sobreviveram quando houve, ali ao lado, alguém – os amigos Vinicius, Manuel Bandeira, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos – para impedir que elas escoassem pelo ralo da conversação”. Como Canetti contou em O jogo dos olhos, Humberto descreveu nessa sua crônica: “ele tinha muitos amigos e eram amigos famosos, criativos e caridosos, até para escrever frases ditas por um outro e deixar marcado para a eternidade a sua procedência”. Grandes amigos. Não quero comparar aqui a grandeza literária de amigos de Canetti com os de Humberto e nem deles próprios. Mesmo porque, o efeito que eles causam em mim é o mesmo: empurram-me para a frente.

Elias Canetti também teve um companheiro, grande amigo de conversas em um dos bares vienenses, amigo este que era chamado pelo autor de Dr. Sonne. Em Os jogos dos olhos, Canetti assim o descreve: “Sonne – o homem bom. Era uma época infestada por palavras de ordem, em que era difícil encontrar um lugar que estivesse livre delas, onde se pudesse respirar. Dr. Sonne examina toda a situação com uma análise bastante apurada, que continha o germe para toda a superação do horror que dominava a Alemanha e infestava a Áustria (com a subida de Hitler ao poder na Alemanha por volta dos anos 1930)”.

Canetti prossegue: “Com Dr. Sonne, descobri que é possível dedicar-se às mais diversas questões sem se tornar um embusteiro tagarela. Em qualquer assunto, terminada a sua exposição, seu interlocutor sentia-se esclarecido e saciado: era um assunto encerrado, que não voltaria à baila. Dr. Sonne falava da mesma maneira que o grande escritor alemão Musil escrevia (autor do O homem sem qualidades). Nada era preparado. Tudo brotava do momento em que era discutido. Mas nascia sob a forma perfeita, transparente, que Musil só alcançava ao escrever. Sonne tinha o maior respeito pela individualidade alheia. Cada ser humano era um ser único”.

Pois é Humberto Werneck, o seu Jayme Ovalle me fez retornar pela centésima vez ao O jogo dos olhos, de Canetti. E o seu Jayme Ovalle, com tantos amigos famosos, me recordou ainda mais do Ovalle de Canetti, o Dr. Sonne, um homem de dizer e não escrever, mas quem o ouvia, jamais o esquecia, tal qual a sua citada epígrafe do conto de Ivan Angelo: “O suicídio é um ato de publicidade: a publicidade do desespero”. Como Canetti se dirigia ao seu amigo ventríloquo literário para todas as horas, eu o digo a você, meu caro Humberto: mais uma vez, obrigado pela sua esfuziante mania de juntar a memória e os fatos e nos presentear com belíssimas crônicas, que entram na cabeça, ficam por algum tempo e depois descem para o coração, para ali morar, a vida toda. 

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Dom Total.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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