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06/08/2019 | domtotal.com

Vivendo no mundo da lua

No tocante à política e parcerias, vemos nossa política também viajando, mas infelizmente no mundo da lua.

China tem entrado não só para a história nesta corrida espacial, mas também como, de certa forma, tomando a frente na corrida.
China tem entrado não só para a história nesta corrida espacial, mas também como, de certa forma, tomando a frente na corrida. (Pixabay)

Por Fischer Stefan*

Recentemente dispararam as notícias sobre viagens à lua. Talvez, para esta geração os nomes Appolo e Sputnik começam a fazer sentido e, de um ponto de vista histórico,  traz à tona as relações entre duas nações durante a Guerra Fria.

Provavelmente, na quarta série do longa-metragem Robert 'Rocky' Balboa (Rocky IV),  quando assistimos ao impiedoso lutador soviético Ivan Drago (Dolph Ludgren) não só derrotando, mas assistindo friamente a morte de Apollo Creed (Carl Weathers) fazemos um link, quase sem querer e coincidência a parte, de um soviético matando o Apollo; e o nome que nos vem à mente é o programa desenvolvido pela National Aeronautics and Space Administration (Nasa) chamado de Programa Apollo ou Projeto Apollo.

As duas grandes nações que protagonizaram a Guerra Fria – EUA e URSS (antiga União Soviética) – obtiveram uma conquista sem precedentes: enviaram suas naves rumo ao espaço. Os soviéticos enviaram seu primeiro satélite Sputnik 1 em 1957  e, em 1961, o primeiro homem levado ao espaço: Yuri A. Gargarin e, em 1963, enviou a primeira mulher Valentina Tereshkova ao espaço. Como numa corrida, os EUA enviam com êxito os astronautas Neil Armstrong e Buzz Aldrin à lua em 1969. Estes feitos ecoam até o presente século como um dos grandes feitos da humanidade e, atualmente, com muito mais força devido às novas etapas desta corrida espacial.

Não estamos vivendo mais a Guerra Fria e, politicamente falando, vemos uma mostra de força, potência e tecnologia que ou renascem ou se evidenciam não somente de governos, mas também de empresas privadas. SpaceX e Blue Origin, fundadas no começo do ano de 2000 pelos bilionários Elon Musk e Jeff Bezos, respectivamente, estão desenvolvendo projetos de viagens espaciais comerciais. Nesta corrida, aparece o inesperado: China entra para história com feito memorável aterrissando Chang'e 4, em 3 de janeiro de 2019, numa superfície lunar ainda inexplorada. “The landing was described as an impressive accomplishment by Nasa administrator Jim Bridenstine” (The Guardian).

China tem entrado não só para a história nesta corrida espacial, mas também como, de certa forma, tomando a frente na corrida (Havard Political Review). Como política permeia praticamente tudo, resta saber se a China se tornará um parceiro ou um rival.

No tocante à política e parcerias, vemos nossa política também viajando, mas infelizmente no mundo da lua. Recentes rumores vindos do Planalto Central mostram um lançamento não muito esperado e que provocam indagações e perturbam o espaço democrático brasileiro. O governo brasileiro encaminhou aos Estados Unidos o pedido de agrément para para a indicação de Eduardo Bolsonaro ao comando da embaixada do Brasil em Washington, informação confirmada pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. 

Enquanto vemos países investindo na ciência e rompendo barreiras em prol do crescimento e fortalecimento de suas bandeiras, percebemos aqui um governo que parece não entender a importância de se investir na ciência em prol do desenvolvimento do país. O site O Antagonista publica a fala da presidente da CCJ do Senado, Simone Tibet: “A provável indicação de Eduardo Bolsonaro para ser embaixador do Brasil nos Estados Unidos é temerária e pode ter um efeito “danoso” ao país”. O jornal Folha de S. Paulo publica a fala da mesma parlamentar, que afirma que o presidente parece não respeitar a Constituição, fazendo menção ao nepotismo.

Paradoxalmente, cientistas brasileiros trabalham duro e sem investimentos desenvolvendo, pesquisando e construindo conhecimentos em prol da humanidade. Feitos brilhantes na saúde e na indústria, como o artigo publicado numa das mais prestigiosas e importantes revistas científicas, Nature Scientific Report, intitulado: “Blocking Zika virus vertical transmission”, mostram a capacidade do brasileiro de superar barreiras, de desenvolver o país cientificamente e trazer esperança de cura para diversas doenças.

Gostaríamos de ver o Brasil nesta corrida espacial, no desenvolvimento econômico, no crescimento do poderio bélico e defesa de suas fronteiras, no desenvolvimento social, investindo na saúde, segurança e educação. Orgulharíamos de perceber da política brasileira o mesmo labor, a mesma paixão, o mesmo entusiasmo e a mesma coragem dos cientistas, dos professores, dos trabalhadores, amplamente falando, que derramam suor dia-após-dia na esperança de que o amanhã será um dia melhor!

“Eu vivo sempre no mundo da lua porque sou um cientista o meu papo é futurista, é lunático...” (Guilherme Arantes), mas parece que a política brasileira se encaixa noutra estrofe: “Eu vivo sempre no mundo da lua porque sou aventureiro desde o meu primeiro passo pro infinito...(serão Eduardo Bolsonaro e seu pai aventureiros?). Por outro lado, para todos que amam o país, trabalham e lutam por uma vida digna e justa, fica a última estrofe: “Eu vivo sempre no mundo da lua porque sou inteligente se você quer vir com a gente venha que será um barato...”

Sem muito esforço, podemos ver dados e informações de que a ciência – saúde, desenvolvimento tecnológico, informação, educação, economia etc. – faz com que o país prospere, com que os cidadãos tenham acesso à uma vida mais digna e que a geração futura tenha condições de sobreviver e continuar o processo de crescimento e desenvolvimento do país. Não precisamos de aterrissar numa superfície lunar para mostrar que somos um país sério, desenvolvido e competitivo. Precisamos sim, aterrissar na superfície da educação infantil, secundária, universitária e apoiar  essas mentes brilhantes brasileiras que viajam no mundo da lua, mas com os pés firmes na Terra.

An artist’s impression of Chang’e-4’s lunar rover on the moon. Photograph: China National Space Administration/EPA

*Professor da Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE)

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