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07/08/2019 | domtotal.com

Natureza quase morta

Voltou ao mesmo banco e olhou as árvores, agora floridas na primavera, o vento era pouco e quase não mais.

Era uma carta, letra de mulher e parecia rasgada com ímpeto.
Era uma carta, letra de mulher e parecia rasgada com ímpeto. (Pablo Pires Fernandes/Dom Total)

Por Pablo Pires Fernandes*

As nuvens ligeiras espalhando folhas amarelas sobre a grama do parque, o murmúrio do vento. Pouca gente se aventurava a remar os barquinhos no lago quando Laura notou a bola de papel se movendo em sua direção. Apesar da curiosidade crescente e da inexplicável atração, não se levantou do banco e esperou o objeto cumprir seu trôpego trajeto até o alcance de suas mãos.

Laura juntou os oito pedaços da folha de papel. Era uma carta, letra de mulher e parecia rasgada com ímpeto. Ao ler as primeiras palavras, toda a história lhe veio à mente. Sem saber explicar, as imagens que se sucediam não eram de uma moça escrevendo aquela carta de amor, mas do momento em que o casal discutia até desfazer o relacionamento.

Dias depois, os diálogos ainda soavam em Laura. A cena se repetia e parecia se materializar diante dela. Tudo tão real. As vozes carregadas de emoção, a mágoa se confrontando com o remorso, o drama daquela ruptura lhe causava arrepios, seu corpo estremecia.

Sob a árvore quase nua – as poucas folhas amarelas se despregando dos galhos – a briga tinha a cor do outono. Sacudindo a carta, o rapaz acusava a amada de traição, recitava as juras de amor eterno feitas na varanda, invocava sua integridade, seu compromisso sincero com os pais dela e outros momentos do namoro que, naquele momento, apenas aumentavam a fenda, o abismo, o oco em seu ventre.

Entre soluços, a moça tentava se explicar. No entanto, como numa gravação truncada, Laura não conseguia distinguir as palavras da jovem. Apenas sentia, por mera intuição, que a moça suplicava numa derradeira tentativa diante da inevitável ruína do casamento, dos planos de ter uma vida normal e do desejo de ter uma filha.

Com o passar do tempo, as imagens e as palavras que tanto reverberaram em Laura foram desbotando até restarem apenas vultos e murmúrios. Mesmo quando abria a gaveta, recompunha os pedaços da folha de papel sobre a mesa e relia as palavras de amor escritas em letras redondas e tão cheias de sonhos.

Porque eu?, pensava Laura. Que conexão era aquela? Sentia ter presenciado um instante decisivo na vida de duas pessoas que nunca tinha visto. Nem sabia o nome daquela moça e do rapaz que rasgou em pedaços as folhas da carta por causa de algum ato desconhecido, mas que, sem dúvida, deixou seu coração em frangalhos.

Não era o amargo da mágoa na voz dele, tampouco os soluços dela – incompreendidos, arrependidos?, não entenderia jamais. Só queria saber o porquê. Voltou ao mesmo banco e olhou as árvores, agora floridas na primavera, o vento era pouco e quase não mais, assim como as imagens e as palavras rudes, outrora tão nítidas.

Quando se levantou do banco, ainda buscava encontrar outra bola de papel, outras palavras sobre uma folha. Foi surpreendida por uma rajada de vento, alguns segundos curtos. Seguiu em direção à avenida, às imagens de carros em movimento e sons indistintos. Laura teve então uma única certeza. Nada resiste para sempre. Só o vento.

* Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'.

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