Religião

09/08/2019 | domtotal.com

A solidariedade como testemunho do segmento de Jesus

A prática da justiça e a caridade para com os pobres e sofredores é o verdadeiro culto que o Senhor busca.

A solidariedade é critério de avaliação do verdadeiro e falso cristão, da verdadeira e falsa igreja cristã.
A solidariedade é critério de avaliação do verdadeiro e falso cristão, da verdadeira e falsa igreja cristã. (Perry Grone/ Unsplash)

Por Rodrigo Ferreira da Costa, SDN*

Responsabilidade pelo outro. Sensibilidade pelos feridos no corpo e na alma. Compaixão e misericórdia para com os pobres, doentes, sofredores, angustiados... Proximidade junto aos excluídos e marginalizados. Respeito ao diferente e às diferenças. Acolhida do outro como outro... Solidariedade aos rostos que gritam por cuidado e interpelam a nossa responsabilidade ética, aquém a nossa própria liberdade. Eis alguns nomes que podemos traduzir a Boa Nova do Reino vivida e anunciada por Jesus de Nazaré.

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O testemunho de seguimento de Jesus não passa necessariamente pelo culto, pela ação litúrgica, pela profissão de fé, "pois nem todo o que me diz: 'Senhor! Senhor!', entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus" (Mt 7, 21). A via da solidariedade, do cuidado pelo outro, do compromisso pela justiça, é um modo visível de mostrar a fé e atualizar a mensagem do Mestre de Nazaré. Quando lemos os Evangelhos, os relatos das atividades e ensinamentos de Jesus, percebemos que a solidariedade para com o outro foi sempre um critério de avaliação da presença do Reino no meio do povo e da fidelidade ao seguimento do Mestre (cf. Mt 11, 2-6).  

No Antigo Testamento, os profetas denunciavam o pecado do culto desligado da prática da justiça. Em Miquéias, o povo quer responder aos apelos do Senhor pela via do culto e dos sacrifícios rituais. No entanto, a verdadeira resposta que Deus espera é a justiça e a misericórdia: "Foi-te anunciado, ó homem, o que é bom, e o que o Senhor exige de ti: nada mais do que praticar a justiça, amar a bondade e te sujeitares a caminhar com teu Deus!" (Mq 6,8). O verdadeiro culto que o Senhor procura é a prática da justiça, a caridade para com os pobres e sofredores, do contrário nosso culto será idolatria. 

O profeta Isaías afirma que Deus está farto dos sacrifícios oferecidos no culto, Ele tem nojo da gordura de animais cevados e abomina as liturgias celebradas nas festas, pois estão sujas do sangue inocente, maculadas pela injustiça. Por isso o profeta faz um apelo: "Lavai-vos, purificai-vos, tirai dos meus olhos a malícia dos vossos pensamentos! Parai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem: buscai o direito, socorrei ao oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva." (Is 1, 16-17). Nota-se que a solidariedade é a resposta de fé que Deus espera do seu povo.

Jesus, seguindo essa mesma perspectiva profética, também denuncia a idolatria de um culto desligado da vida, de uma fé que não se traduz em caridade. Quando lemos, por exemplo, Mateus 25,31-46, o critério do julgamento final não passa pelo culto, e sim pela solidariedade, pela responsabilidade ética. “Não posso descrever a relação com Deus sem falar daquilo que me empenha com respeito a outrem. Cito sempre, quando falo a um cristão, Mateus 25: a relação com Deus é aí apresentada como relação ao outro homem. Não é metáfora: em outrem, há presença real de Deus. Na minha relação a outrem escuto a Palavra de Deus. Não é metáfora, não é só extremamente importante, é verdadeiro ao pé da letra. Não digo que outrem é Deus, mas que, em seu Rosto, entendo a Palavra de Deus” (Emmanuel Levinas). 

Escutar a voz de Deus no rosto do outro, principalmente naqueles rostos mais sofridos e desfigurados pela injustiça e abandono, nos faz pensar que a solidariedade não é apenas caminho de fidelidade ao seguimento do Senhor, que foi o primeiro a ser solidário escolhendo viver entre nós, "assumindo as nossas enfermidades e carregando as nossas doenças" (Mt 8,17), mas nos abre para o diálogo com tantas pessoas de boa vontade que mesmo não professando a fé, a vive pela prática da justiça e da solidariedade. Pois a glória de Deus não consiste apenas em louvá-Lo e adorá-Lo na Sagrada Liturgia, mas em servi-Lo de todo coração e com todas as nossas forças no outro, que é a Sua imagem e semelhança, ou seja, são as obras de misericórdia que realizamos na alegria e na gratuidade diante dos homens que glorificam a Deus Pai que está nos céus (cf. Mt 5, 16).

Servir a Deus servindo o próximo. Amar a Deus que passa e se passa no rosto do outro. Eis o caminho que a sabedoria bíblica nos indica. Como podemos ler no livro dos Gênesis (18, 1-10), Deus apareceu a Abraão ao mesmo tempo em que os três viajantes. É a Deus que Abraão dizia: "Não passe, Senhor, diante de teu servidor. Espera que eu receba os três viajantes", porque os viajantes, cansados pelo calor e pela sede, passam antes do Eterno nosso Deus. A transcendência de Deus é seu próprio apagamento, que nos obriga, porém, em relação aos homens. A hospitalidade é, ao mesmo tempo, uma resposta ética ao outro e uma expressão da fé que acolhe a Deus que passa e se passa no rosto do outro.

Tomar a solidariedade como testemunho do seguimento de Jesus nos faz pensar em tantos discursos religiosos ideologizados que usam a religião para se beneficiar da "boa fé" do povo, mas que na prática estão longe de serem cristãos. Porque se a minha fé não me faz uma pessoa mais solidária e mais comprometida com a justiça social e com a vida dos pobres, não posso afirmar que estou sendo um discípulo fiel a Jesus de Nazaré. Pois o cristianismo é a experiência do encontro com uma Pessoa que dá um novo horizonte à vida (cf. DAp. n. 243), não um amontoado de normas a serem seguidas. A solidariedade é, portanto, critério de avaliação do verdadeiro e falso cristão, da verdadeira e falsa igreja cristã. Deus nos livre de uma igreja hipócrita que louva Jesus com os lábios, mas o seu coração permanece longe do seu amor (cf. Mt 15, 8). Eis a bela intuição do profeta Jeremias: "Ele fazia justiça ao pobre e ao indigente... Não é isto conhecer-me?, diz o Senhor" (Jr 22, 16), ou seja, conhecer a Deus tem que ver com a prática da justiça e da solidariedade; "quem não ama, não conhece a Deus, porque Deus é amor" (1 Jo 4, 8).

O testemunho de solidariedade, de proximidade, em meio a uma cultura da indiferença e do isolamento é um sinal profético que o mundo espera dos cristãos. Pois "quando se lê o Evangelho, encontramos uma orientação muito clara: não tanto aos amigos e vizinhos ricos, mas sobretudo aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, "àqueles que não têm com que te retribuir" (Lc 14,14). Não devem subsistir dúvidas nem explicações que debilitem esta mensagem claríssima. Hoje e sempre, "os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho", e a evangelização dirigida gratuitamente a eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer. Há que afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos jamais sozinhos!" (papa Francisco, Evangelii Gaudium, n. 48).

A solidariedade é, portanto, a porta de entrada para a cultura do encontro, para a paz. Pois o encontro com o outro não passa necessariamente pela via do conhecimento, mas pela escuta, a atenção, o cuidado, o estar com o outro; pela compaixão que não nos deixa passar adiante como se a "miséria" do outro não dissesse nada a nós (cf. Lc 10, 29-37). Vivendo numa sociedade tão complexa como a nossa, na qual muitas vezes as pessoas se cruzam pelas outras, mas não se encontram. Onde cada um preocupa-se consigo mesmo e se esquece do outro; olha, mas não vê; ouve, mas não escuta; sente pena, mas não se deixa conduzir pela compaixão... Faz-se necessário cultivar a solidariedade que acolhe o outro como outro, com sua beleza e miséria. Nisso consiste o mandamento de Jesus: "quem ama a Deus, ame também seu irmão" (1 Jo 4, 21).

*Pe. Rodrigo, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Mora atualmente na paróquia São Bernardo, Belo Horizonte - MG.

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