Religião

09/08/2019 | domtotal.com

Solidariedade e justiça: o mandamento do Cristo

A missão primeira do cristão é estar junto dos pobres, leva-los à mesa e libertar todos dos grilhões da injustiça e da opressão.

Trabalhar para a justiça é dever de todo batizado que deseja tomar para si o título de cristão.
Trabalhar para a justiça é dever de todo batizado que deseja tomar para si o título de cristão. (Nathan Dumlao/ Unsplash)

Por Daniel Couto*

O cristianismo se fundamenta na vida e nos ensinamentos de Jesus Cristo (que não podem ser desassociados um do outro), na experiência das comunidades cristãs e na teologia desenvolvida durante séculos por aqueles que se debruçaram (e se debruçam) sobre as Escrituras, o Magistério e a Tradição. Essa antiquíssima proposta narrativa para a vida é assumida por milhões de pessoas que, de maneiras diferentes, fazem do cristianismo o eixo sobre o qual fundamentam seus costumes, suas ações e suas relações. Porém, quão próximos estão os cristãos da verdadeira "Palavra Encarnada"?

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A expressão da Palavra Divina acontece em meio às conjecturas de cada tempo, abordando os problemas, as angustias e as conquistas de cada povo/sociedade à luz da revelação e do Evangelho. Sem negar a construção histórico-social que os seres humanos possuem (inclusive essa é a sua característica definidora), a leitura da vida contemporânea a partir da vida de Cristo permanece uma dificuldade cada vez maior, ainda mais no que se refere às compreensões fundamentalistas e anacrônicas que se espalham. Como agir segundo os “mandamentos divinos” e, ainda assim, não se afastar das necessidades próprias de nosso tempo? É preciso perceber que a “encarnação do verbo” acontece no “hoje” da nossa existência, rompendo a linearidade da história em uma antecipação do Reino dos últimos dias. Essa ruptura na temporalidade, fazendo da promessa futura uma realidade, nos conduz à presença do Cristo e a contemplação da sua vida nos torna “um com Ele”. Assim, a atualidade do Evangelho é o cumprimento das promessas em nossa vida cotidiana.

Esse compromisso com a pessoa de Jesus é assumido pela Igreja que, ao celebrar o seu corpo partilhado, amplia a missão de ser “cristo no mundo” para todos aqueles que caminham até a mesa do pão eucarístico e dele se alimentam. Sendo assim, estar junto dos pobres, leva-los à mesa e libertar todos dos grilhões da injustiça e da opressão é missão primeira dos seguidores do nazareno, uma vez que esse era o seu modo de agir e o seu anúncio mais profundo. Ao “resumir” os mandamentos ao amor incondicional, Ele nos coloca em constante caminhada de encontro, relação, misericórdia e serviço. É a partir dessa experiência que vivemos a solidariedade cristã: um dinamismo próprio do mandato batismal onde, pelo Cristo, somos enviados a fazer da humanidade inteira, sem distinção, companheiros na fraternidade e no amor.

Solidariedade, nessa perspectiva, é o movimento primeiro da ação evangelizadora que faz, dos discípulos e discípulas, anunciadores da proximidade do verbo. Solidariedade só se dá, em um sentido autêntico, quando o serviço desprendido dedicado aos outros é acompanhado da consciência de que “aquela obra” é para a restauração da dignidade humana. Aqueles com os quais somos solidários não podem ser instrumentalizados, pois o reino não é uma “conquista”, mas um dom gratuito da ternura e bondade divinas. Somente na pluralização das frentes de trabalho, lendo em cada contexto as necessidades específicas, é que podemos enxergar o horizonte das irmãs e irmãos que sofrem, levando a eles um respiro de esperança. A alegria do Espírito não é um dom privado daqueles que se encontram em condições de usufruir de uma vida confortável, mas um chamamento contínuo ao reconhecimento das mazelas dos outros, daqueles que “gritam a Deus” na esperança de serem ouvidos.

Essa postura de vida, porém, é difícil de ser compreendida por nós, seres humanos da contemporaneidade, porque fundamenta-se na percepção de um Outro que se apresenta constantemente em nossas vidas como um “desconhecido” que, em sua natureza é semelhante a nós em tudo. O espanto do mistério da encarnação, Deus-Homem, nos prepara para o movimento salvífico do Cristo, Homem-Deus. Se em absoluto o divino se torna o outro com o qual ele deseja se relacionar, a solidariedade nos faz buscar sempre estar com os outros que são o sentido da nossa existência: os seres humanos foram criados para a relação. Viver a solidariedade é cumprir, em suma, o primeiro mandamento divino: Escutar o Senhor e amá-lo sobre todas as coisas. Aquilo que escutamos é a Palavra e aquilo que amamos é objeto das nossas relações, neste sentido, caminhar seguindo os passos de Cristo é reconhecermo-nos, mutuamente, irmãos pelo amor. Escutar e amar a Deus é escutar e amar os irmãos.

É por isso que a solidariedade se sustenta pelo princípio divino da misericórdia que, etimologicamente, inclusive, pode ser traduzida como algo parecido com “corações que batem juntos, ou coração compadecido”. O divino se inclina para que seu coração pulse junto da humanidade, tomando para si a vida dos seres humanos e agindo com amor e misericórdia. A solidariedade não pode ser egoísta, interesseira, condicionada e nem limitada. A expressão máxima do amor divino se dá na entrega total à vida do outro. A solidariedade é a ação do Reino e o “Reino de Deus é paz e justiça”. Como isso acontece, então?

Percebemos que a justiça prometida pelo Senhor se destina a todos os seres humanos em todo tempo, em todas as circunstâncias e em todos os lugares. Não é uma justiça de processos tendenciosos, de argumentos falaciosos que pretendem armar ciladas em benefício de alguns e, muito menos, uma justiça seletiva que serve aos poderosos. É, em primeiro lugar, o reconhecimento de que todos possuem o mesmo direito à herança divina e a mesma dignidade perante o Criador e a criação. Se o divino faz chover sobre justos e injustos, não são os méritos e as conquistas de cada indivíduo que garantem para ele o direito de ser julgado com justiça, mas é a própria condição humana que o coloca na mesma medida de todos os outros. É a humanidade que se torna o critério para a misericórdia divina, que é eterna e sem limites. Ser justo, bom e misericordioso é a principal característica do Cristo que deveria se propagar em seus seguidores transformando-se no anúncio universal da salvação. A justiça divina é perfeita, pois não determina condições que impeçam a sua realização, é fundamentada na bondade e na relação. Ela se estabelece na medida em que a vida do Messias é assumida por cada um dos seus discípulos.

Sendo assim, a justiça do Reino é fruto da solidariedade (misericórdia) pois o próprio Deus se faz presente no meio do povo pela pessoa dos seus filhos e filhas, derrubando todas as barreiras, elevando todos aqueles que sofrem e regatando da exclusão os que foram banidos pela “justiça” vendida dos “mercadores do templo”. Enquanto nossos julgamentos são pautados na universalização de princípios que, muitas das vezes, aprisionam os seres humanos em cadeias legislativas excludentes e sistemas sociais de sobrevivência precária e mortal, a justiça divina é libertadora e revigorante. É a solidariedade daqueles que deixam uma parte de suas vidas (e em alguns casos, como do próprio Jesus, a vida inteira), que proporciona uma condição de existência para esses que foram feridos pela injustiça terrena e se sustentam apenas com os “olhos fixos no Senhor”.

É por isso que em nossa sociedade, cada vez mais individualista, desinteressada e excludente, os sistemas de justiça perdem a credibilidade, fazendo com que o “fechamento em si” se justifique pela negação da vida comum e da possibilidade de compartilhamento da existência. Quando manipulamos as estruturas sociais e econômicas para que elas beneficiem uma pequena parte da humanidade, tratando todos os outros como instrumentos descartáveis de exploração, envenenamos todas as sementes do reino que foram plantadas pelo anuncio do Evangelho. Semear as “palavras” da sagrada escritura sem um compromisso sincero e efetivo com a solidariedade verdadeira e a construção da “justiça divina” é hipocrisia e palavrório sem sentido. Solidariedade é compromisso e ação. Construir o Reino não é uma conquista do ser humano, mas um dom gratuito de Deus que se relaciona conosco com o coração transbordando de misericórdia. Trabalhar para a justiça é dever de todo batizado que deseja tomar para si o título de cristão. Dizer que é seguidor e discípulo de Cristo e compactuar com as ações maldosas e destruidoras que se espalham é falsidade descarada, testemunho de destruição e perversidade. Na dúvida olhe sempre para a vida de Jesus, caminho de todos os cristãos. Na dúvida nunca se esqueça que a solidariedade é a misericórdia nas mãos e que o “Reino de Deus é paz, justiça e alegria”. Finalmente, como dizia Pedro Casaldáliga: “na dúvida, fique do lado dos pobres”.

*Daniel Couto é mestrando em filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), com pesquisas na área de filosofia antiga, retórica grega, filosofia aristotélica e recepção da filosofia antiga. Trabalha, ainda, com a Liturgia, a Ritualidade Cristã, a Cerimonialidade e a Teologia Litúrgica e é membro da CELEBRA (Rede de Animação Litúrgica).

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