Religião

09/08/2019 | domtotal.com

O papa que lutou contra a polarização

A figura do papa rechaçada por grupos ideológicos causadores de cismas tanto na Igreja quanto na sociedade.

João XXIII foi acusado de ser comunista por fundamentalistas.
João XXIII foi acusado de ser comunista por fundamentalistas. (Vatican Media)

Por Mirticeli Medeiros*

Era a época da Guerra Fria. Um papa corajoso teve a coragem de romper os muros erguidos pela polarização. Seu nome é associado à revolução do diálogo gerada pelo Concílio Vaticano II. Em outras épocas, foi apresentado como papa de transição. Hoje, os documentos do seu magistério foram jogados num “arquivo morto” por grupos que acusam-no de comunista até hoje. Um papa falar de reconciliação, hoje em dia, é pedir para ser chamado de herege. Foi assim com com João XXIII, o 261º pontífice da Igreja Católica para o qual dedicaremos esta reflexão.

Ele era o “papa bom” e, para muitos, ficou só o slogan. O que está por trás da quase negação dessa figura por parte de alguns católicos na atualidade? Por que a voz profética de Giuseppe Roncalli – seu nome de batismo – incomoda tantos cristãos das “cruzadas” contemporâneas?

Há quem diga que o tal título lhe foi conferido para sobrepor o seu sucessor, Pio XII, o pontífice que não agradou muito a opinião pública. Mas na interpretação dos especialistas nesse pontificado, seu estilo pastoral fez dele um pontífice bastante peculiar e digno desse apelido carinhoso. Ele revolucionou o papado, sobretudo no modo de se relacionar com as pessoas. Os encontros com doentes, crianças e presidiários causaram enorme comoção popular. O povo foi conquistado pela humanidade daquele “papa diferente” para os moldes de uma época, de uma mentalidade dominante.

Além de preparar a Igreja Católica para os novos tempos, através do Concílio Vaticano II, convocado três meses após assumir o pontificado, João XXIII escreveu uma encíclica que precisa ser reproposta com urgência. Estamos falando da Pacem in terris, a primeira encíclica moderna no real sentido da palavra, no tocante à linguagem e às categorias teológicas utilizadas. Para se ter ideia, foi o primeiro documento magisterial da história voltado não somente para os católicos, mas “aos homens de boa vontade”, como vemos no prefácio.

“Os elementos (da encíclica) visam atrair o consenso de todos os homens inteligentes e livres, também daqueles que não partilham a fé e a visão sobrenatural da Igreja Católica”, disse João XXIII no dia da promulgação do documento.

O grande elemento de ruptura do texto, escrito e maturado em meio às primeiras sessões do concílio, foi o apelo para que todos os católicos trabalhassem juntos pelo bem comum, independentemente do espectro político. Portanto, no documento há uma distinção clara entre as ideologias – condenadas pela Igreja Católica – e os movimentos políticos que atuam na história, os quais, na visão desse papa, podem reunir as mais justas aspirações do ser humano, independentemente do “lado” de proveniência.

Sendo assim, tomar os documentos de magistério anteriores a essa visão colaborativa de João XXIII é um prato cheio a essa visão maniqueísta e ideológica que divide o cenário político entre anjos e demônios. E o pior: que divide a Igreja entre “condenados ao inferno” e “homens de bem”, que é o que observamos hoje.

O próprio João XXIII, assim como Pio XII, condenou a filosofia marxista e seu sistema, mas não é bem quisto pelos grupos católicos fundamentalistas por causa da sua abertura à conciliação entre partidos opostos em prol da sociedade. Sem contar que o capitalismo selvagem, enquanto componente de um sistema, também foi condenado pela Igreja Católica: algo que fazem questão de não citar.

O papa entendeu que não se “endireita” a sociedade com uma eterna “dança das cadeiras” entre ideologias. Se quem cria polarização e incentiva a divisão é considerado “homem de bem” e o papa atual é tido como inimigo da humanidade na tentativa de evitar a próxima guerra, estamos mais fadados ao fracasso do que nunca. Tempos sombrios.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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