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09/08/2019 | domtotal.com

Água, bucha e sabão

As investigações da Lava Jato começam a respingar na Suprema Corte.

Se tudo não for bem lavado, são naturais e compreensíveis a descrença, a dúvida e até a agressividade do cidadão comum contra o Supremo.
Se tudo não for bem lavado, são naturais e compreensíveis a descrença, a dúvida e até a agressividade do cidadão comum contra o Supremo. (Nelson Jr./SCO/STF)

Por Fernando Fabbrini*

O mal de se viver num país com escândalos diários é que a gente acaba se anestesiando um pouco. E isso é péssimo. A violência das ruas, por exemplo – repetida e transformada em notícia atraente pela TV – parece já não nos afetar, virou coisa “normal”.

O mesmo acontece com os desmandos e chiliques dos que arbitram do alto de seus poderes baseados na lei – certo – ou no próprio humor ou conveniências – erradíssimo. Vamos achando que isso também é normal, rimos de duas ou três piadinhas na internet, repassamos alguns memes – e vida que segue. Uma lástima.

As investigações da Lava Jato começam a respingar na Suprema Corte. A Receita andou filtrando rendimentos e segurou na peneira 134 brasileiros com transações financeiras – digamos – fora dos padrões. Na lista, certos cidadãos ilustres, como os ministros Dias Toffoli, Gilmar Mendes e respectivas esposas.

“Opa! Pode não! Aí já é demais!” – devem ter pensado alguns, remexendo-se nas poltronas de couro macio. O polêmico ministro Gilmar, contumaz ofendido nas calçadas lisboetas e aviões de carreira, classificou a Lava Jato como um “tribunal de exceção”. E mais: subindo o tom, disse ser a operação uma “organização criminosa”.

É isso mesmo, ministro? São “criminosos” os procuradores empenhados no combate à corrupção e à impunidade que esculhamba nosso país há décadas? Contrariando milhões de brasileiros, ele concebeu essa invertida absurda. É a sentença de um magistrado para os 1.825 dias de trabalho de investigação, acusação e julgamentos. E dos quais resultaram 242 condenações contra 155 pessoas, em 50 processos sentenciados por lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, fraude à licitação, organização criminosa, evasão de divisas, tráfico internacional de drogas, crime contra a ordem econômica, embaraço à investigação de organização criminosa e falsidade ideológica. Ufa!

Da Lava Jato veio ainda o repatriamento de valores surrupiados pelos criminosos. Por exemplo, os R$ 2,5 bilhões que retornaram à Petrobras, a principal lesada pelo esquema – o que corresponde a uma média de R$ 1,37 milhão por dia devolvido aos cofres públicos desde 2014. Faltam ainda R$ 11,5 bilhões a serem devolvidos, inclusive à Petrobrás, conforme já acertado com a Justiça Federal.

A reação dos ministros suspeitos de transações irregulares logo recebeu apoio corporativo. O colega Alexandre de Moraes mandou parar tudo. Suspendeu a tal investigação da Receita e, pra encerrar o assunto, afastou os três procuradores que a realizavam.

Essas atitudes pegam muito mal para a opinião pública. A Justiça, no equilíbrio de sua balança, permite investigações e, daí, a) absolve o inocente ou b) condena o culpado. Não é como funciona a coisa? Simples assim.

Vale aqui, mais uma vez, o antigo, surrado e sábio dito popular. Quem não deve, não teme. 

Nós que pagamos impostos, sustentamos salários e ainda não nos anestesiamos demais, queremos saber a verdade. O temor da água, do sabão e dos possíveis esfregões nas togas levantam suspeitas óbvias quanto às possíveis sujeiras escondidas. Então, desnudem-se sem medo, caros (e botem “caros” nisso) senhores de nossos destinos.

Se tudo não for bem lavado, são naturais e compreensíveis a descrença, a dúvida e até a agressividade do cidadão comum contra o Supremo, agravadas ainda mais pelo R$ 1 milhão em lagostas e acepipes variados – enquanto o povo permanece com sede e fome de justiça. 

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O Tempo.

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