Esporte Futebol Mineiro

12/08/2019 | domtotal.com

Deu branco no negão

Se o Cruzeiro de 1966 ofuscou Pelé, o time de hoje de Thiago Neves, Robinho e Henrique pratica o que se pode chamar de futebol-desastre.

Lance de Cruzeiro 6 x 2 Santos, no Mineirão, pela Taça Brasil de 1966.
Lance de Cruzeiro 6 x 2 Santos, no Mineirão, pela Taça Brasil de 1966. (Acervo/Cruzeiro)

Por Afonso Barroso*

Foi numa tarde de domingo, no 66º ano do século 20, que comecei a torcer pelo azul do Cruzeiro. Assim como milhares de outros torcedores, eu tinha ido ao Mineirão para ver jogar um negão do cantado e decantado Santos Futebol Clube. Um certo Pelé. Mas o que vi foi um certo Dirceu Lopes, um certo Piazza, um certo Tostão, um certo Natal, um certo Hilton Oliveira, um certo Evaldo, um certo Raul, um certo Procópio, um certo Pedro Paulo, um certo William, um certo Neco. Fizeram dar um branco no negão.

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Como deve saber o caro leitor e a amantíssima leitora, naquele dia o Cruzeiro mudou a história do futebol brasileiro ao aplicar uma goleada de 6 a 2 no poderoso time do tal Pelé. O resto do país descobriu, então, que havia vida no futebol além do eixo Rio-São Paulo.

A cada passe do Tostão, a cada drible do Dirceu, a cada roubada de bola do Piazza, a cada arrancada em altíssima velocidade do Hilton Oliveira, a cada chute certeiro do Natal, a torcida assistia a um espetáculo a que depois se deu o nome de futebol-arte.

A partir daquele dia, dizia-se que ingressos para jogos do Cruzeiro, então cognominado Academia de Futebol do Barro Preto, deviam ser vendidos não no Mineirão, mas no Palácio das Artes.

Dou um flashforward até o século 21, mais precisamente a uma noite fria de agosto, e assisto ao que se pode chamar de futebol-desastre.

O time que vejo jogar contra o Internacional de Porto Alegre, pela semifinal da Copa do Brasil, veste a mesma camisa azul-estrelada, tem a mesma torcida fiel, mas o futebol é outro, muito outro, formado por um grupo de atletas ricaços, de salários astronômicos e futebol rasteiro. Não rasteiro no sentido de jogar com a bola na grama, mas rasteiro de ruim mesmo. 

Em vez de um certo Dirceu Lopes, lá está um incerto Thiago Neves. Em vez de um Tostão, lá está um Robinho. Em vez de Piazza, um cansado Henrique. E vai por aí até chegar ao banco, onde um técnico se prepara pra jogar a toalha, aos gritos de burro, burro. Mas, convenhamos: com esse time, nem burro aguenta.

Saio do campo e vou à diretoria. Não mais um Felício Brandi, o presidente de origem italiana como o próprio antigo Palestra. Não mais o diretor de futebol Carmine Furletti, tão dirigente como torcedor. No lugar deles, um presidente de nome Pires de Sá, que deixou o clube de pires na mão, e um diretor de futebol acusado de falcatruas semelhantes às descobertas pela Lava Jato na república dos gatunos.

Assim não dá pra torcer. Para me alegrar, só mesmo fazendo um flashback até o dia em que Dirceu, Tostão, Piazza e companhia apagaram o negão na Taça Brasil de 1966.

Se os ingressos para os jogos do time daquele tempo deviam ser postos à venda nas bilheterias do Palácio das Artes, onde o deveriam ser nos dias de hoje? Não, não digo. Não quero ferir ainda mais os brios dos cruzeirenses mais empedernidos, como é o caso da Sônia, minha dona.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

EMGE

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