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10/08/2019 | domtotal.com

O coração selvagem do preconceito

'Bom crioulo', obra de 1895 do naturalista Adolfo Caminha, expõe as visões da sociedade brasileira em relação aos negros e a angústia de um amor homossexual impossível.

A Rua da Misericórdia, citada na obra, foi uma das primeiras do Rio de Janeiro
A Rua da Misericórdia, citada na obra, foi uma das primeiras do Rio de Janeiro (Augusto Malta/1922)

Por Jovino Machado*

É bem possível que o romance Bom crioulo, de Adolfo Caminha, publicado em 1895, seja o primeiro texto LGBT de ficção da literatura brasileira. Nesses tempos sombrios, em que a frágil democracia brasileira sofre ataques e o presidente incentiva o racismo, a homofobia e a violência, é oportuno que os leitores do século 21 tenham a oportunidade de conhecer ou de revisitar este clássico naturalista do século 19.

Escravo fugido que se tornou marinheiro, o protagonista Amaro tinha as costas de ferro porque aguentava os castigos físicos sem gemer e sem reclamar. Ter o corpo tatuado pela chibata não transformou o negro num homem insensível e sem alma, muito pelo contrário, seu coração selvagem tinha ardentes desejos de sexo e amor.

Discriminado e julgado pelo narrador, Amaro é descrito com características animalescas, "raro sorriso idiota", estúpido e subserviente. Segundo a personagem Carolina: "Negro é raça do diabo, raça maldita”. Se o amor de Amaro era acima de tudo uma preocupação ativa pela vida, não foi exatamente essa a percepção dos críticos da época que consideraram Bom crioulo uma história chocante escandalosa e pornográfica. No primeiro encontro íntimo entre Amaro e seu amado Aleixo, o autor não descreve a cena, mas chama o ato sexual de delito, condenando o homossexualismo.

Segundo o Grupo Gay da Bahia, em 2018 morreram de morte violenta (incluindo suicídio) 420 LGBTS, em 2017 haviam sido 445 vítimas e, em 2016, 343. Produzido há 39 anos ininterruptos, o relatório identificou no ano 2000 130 mortes. Em 2010, haviam sido 260. Diante dessas estatísticas alarmantes, Bom crioulo é um importante documento histórico e literário muito útil no exercício de reflexão sobre as injustiças cometidas por racistas e homofóbicos.

"Atrás dos apedrejados vem as pedras", diz o provérbio citado no livro. Atrás das feridas abertas pela exclusão de grupos discriminados, temos a herança de um Brasil escravocrata, que ainda hoje explora a grande maioria da população. Se tudo na vida tem seu preço, o escavo fugido sonhava com a liberdade do mar, tornando-se um escravo marinheiro. Mais de 100 anos depois de ser criado por um autor/narrador branco, o negro gay e trabalhador braçal continua sendo vítima explorada pelo capitalismo.

Na "quadrilha" de Caminha, Amaro amava Aleixo, que desejava Carolina, que amava Aleixo. Na tragédia do final infeliz, Amaro se transforma num assassino transtornado pelo ciúme. Da janela do quartinho da Rua da Misericórdia, o leitor não se surpreende com o corpo sangrando do jovem de olhos azuis que perde a vida no meio da rua. Foi nesse quartinho que Amaro e Aleixo foram "felizes como Adão e Eva, antes do pecado".

Em seus momentos de dor, solidão e saudade, o "bom crioulo" disse para si mesmo: "Preferia o Aleixo do que todas as mulheres bonitas do mundo". Foi na Rua da Misericórdia que Amaro descobriu o que é ter uma família, e é nesta mesma rua onde ele prefere ver morto o seu "objeto" de desejo amoroso, do que vê-lo debaixo dos lençóis da quarentona Carolina.

Jorge Luis Borges disse que só existem três tipos de história na humanidade: "duas pessoas que se amam, três pessoas que se amam e a luta pelo poder". Amaro, que não conhecia o amor, luta pelo poder de possuir o corpo de Aleixo só para o seu exclusivo deleite. Carolina se torna inimiga de seu ex-hóspede, porque também deseja exclusividade. Aleixo, que sentia gratidão por Amaro, diz sentir nojo do "negro com instintos e taras animalescas", depois de se envolver com os carinhos e cuidados da portuguesa Carolina.

Se Amaro achava que era desesperador ficar separado de seu amor, que era uma tremenda injustiça ser trocado pela dona do quartinho, foi ziguezagueando com sua faca afiada, pela Rua da Misericórdia, que decidiu dar fim ao triângulo amoroso. Muitas vezes a morte é a única solução encontrada pelos autores, em narrativas nas quais existem três pessoas que se amam. Foi com a morte da personagem feminina, que Machado de Assis termina o romance Esaú e Jacó. Também foi sacrificando a mulher, que Borges conclui o seu conto A intrusa. Caminha segue a trilha dos amores que se transformam em ódio, em crimes, em mortes.

BOM CRIOULO

De Adolfo Caminha

Editora Todavia

176 páginas

R$ 49,90

*Jovino Machado é poeta, autor de 'Sobras completas' (2015) e 'Trilogia do álcool' (2018).

EMGE

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