Religião

13/08/2019 | domtotal.com

Eles estão intimidados?

O paradigma de defesa da vida precisa ser outro que não o do patriarcado.

Mulheres protestam contra a violência no Rio de Janeiro.
Mulheres protestam contra a violência no Rio de Janeiro. (Agência Brasil)

Por Tânia da Silva Mayer*

Não há dúvidas de que a violência contra a mulher atravessa os séculos e chega até os nossos dias. Também não há dúvidas de que os crimes bárbaros estão sendo praticados em número crescente. E eles acontecem cada vez mais próximos a nós e com as mulheres que conhecemos e com as quais convivemos. O fato é que esses atos de violência, na maioria absoluta das vezes, ocorrem sob uma autorização psíquico social que parte do pressuposto do fato de a vítima ser uma mulher.

Nesse sentido, a violência e o crime são autorizados porque são contra a mulher, compreendida aqui como alguém inferior, cuja existência está subordinada ao querer do seu algoz. Em última instância, trata-se de um homem que se sabe autorizado, porque dono da vida dessa mulher que já não merece viver. E a vida deve ser tirada como reparação por alguma ofensa que a vítima cometeu contra esse homem, seja por ter querido o fim do relacionamento, seja por o ter desagradado de alguma forma.

Claramente, percebemos que, nessas relações, as mulheres surgem como uma contra narrativa. O sistema sócio psicológico vigente se interessa pelas experiências e pelas relações que são experimentados pelos homens. O mundo é olhado a partir desse olhar e o discurso que emerge dessa contemplação procura enquadrar toda as relações aos princípios do patriarcado e do machismo nos quais a figura masculina é superior à feminina. Por isso, as narrativas sobre a vida e sobre o mundo estão centradas na figura do varão, de modo que nunca pareceu tão óbvio ser o homem – entendido aqui como o macho – o centro do universo.

Por conseguinte, as histórias que partem da vida e das experiências das mulheres reais se constituem como uma contra narrativa, porque o olhar para o mundo ganha aspectos plurais e multifacetados que confrontam estruturas pré dadas pelo sistema vigente. Esse necessário confronto acontece no nível da linguagem e tem consequências profundas para as relações de fato.

Dessa forma, é importante, num primeiro momento, tratar com suspeita as falas que pretendem elucidar os motivos que levam os homens a cometerem crimes contra as mulheres a partir da premissa de que a vítima é necessariamente mulher. Também é importante dimensionar tais falas quando pretendem explicar o lugar que as mulheres ocupam em nossa sociedade e as condições a que normalmente são subordinadas a viver.

Recentemente, escutamos falas afirmando que a violência contra a mulher em nossa sociedade se dá em decorrência do fato de os homens se sentirem ameaçados ou intimidados pela revolução empreendida no mundo para a derrubada do patriarcado machista que violenta há séculos as mulheres e, também, os homens. A respeito dessa fala é preciso considerar duas coisas. A primeira é que o levante conservador e violento do mundo hoje está em estreita relação com o fato de o mundo patriarcal já se perceber em ruínas pela nova consciência feminina que não permitirá às mulheres voltarem à caverna e às sombras. Nessa perspectiva, a reação que se vê e que passa pela eliminação de muitas mulheres deve ser entendida no seu coletivo e não a partir das individualidades.

A segunda coisa importante a postular é que a violência contra a mulher e os crimes bárbaros daí decorrentes são fruto de um sistema que já matava as mulheres e as violentava muito antes de suas estruturas começarem a ruir. Por isso, a afirmação que fundamenta os crimes individuais contra as mulheres na suposta intimidação dos homens porque o mundo está mudando é, no mínimo, ignorante e irresponsável.

Notadamente, esses discursos que pressupõe uma descida do erudito ao popular são cortina de fumaça para acobertar pessoas e instituições que não assumiram um compromisso com a garantia da vida das mulheres, fazendo perpetuar leis insuficientes e uma cultura que odeia e despreza o feminino e suas potencialidades. As melhores maneiras de resistir a esse tipo de verborragia são: não calar a voz e repropor leituras; botar o corpo na rua e na luta por outro mundo possível; educar as novas gerações a partir de um novo paradigma humano – linguístico – que considera todas as pessoas, sem discriminação ou hierarquias de morte.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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