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12/08/2019 | domtotal.com

Viela liga década de 1970 a 2019

Não poucas vezes o quinteto varou noites discutindo literatura e poesia e as preferências ao redor de Bandeira, Drummond, Quintana, Mario e Oswald de Andrade, Ferreira Gullar e os poetas concretos.

O pior é a sensação de que a poesia não ajuda enfim a consertar nada.
O pior é a sensação de que a poesia não ajuda enfim a consertar nada. (Pixabay)

Por Ricardo Soares*

Para quem conhece e não conhece não custa lembrar que a Avenida Lins de Vasconcelos, no Cambuci, São Paulo, não teve, não tem e jamais terá qualquer charme ou atrativo mais peculiar do que a Pastelaria Yokoyama, considerada por muitos como das melhores da capital paulista.

Isso posto, lhes conto que na parte baixa da avenida, a dois ou três quarteirões do Largo do Cambuci, havia uma casa em uma viela onde pelo menos uma vez por semana encontravam-se cinco jovens poetas-escritores entupidos de sonhos quixotescos, influenciados por manifestos passados, contaminados pelo tônus da palavra , com a certeza de que a literatura e, ainda mais, a poesia remove montanhas.

Corriam os últimos anos da década de 70 do século 20 e o quinteto com seus agregados – namoradas, irmãos, amigos próximos – transformava aquela casa, naquela viela, em uma espécie de quartel general da poesia alternativa brasileira, recebendo versos e livros mimeografados de autores de todo o Brasil, que seriam posteriormente expostos em saraus, exposições e nas Bienais do Livro.

Não poucas vezes o quinteto varou noites discutindo literatura e poesia e as preferências ao redor de Bandeira, Drummond, Quintana, Mario e Oswald de Andrade, Ferreira Gullar e os poetas concretos . Não havia consensos, mas as discordâncias eram sempre bem aparadas, molhadas em vinho barato e refrigerante sem gás. De comida ali lembra-se de muito pouco, mas a fome era de outra ordem.

Sim, quase todos sabiam muito bem que ainda vivíamos o período bicudo da ditadura militar e a vigência da Lei 477 pesava sobre os corações desses estudantes que haviam acabado de sair do colegial e entravam na faculdade. Sim, todos sabiam que não era fácil a vida com Geisel e Figueiredo, mas, por estranho que pareça, havia esperança subindo e descendo a Lins de Vasconcelos, o Largo do Arouche, a Rua General Jardim, o Viaduto do Chá ou qualquer ponto que pudesse ser usado para falar e divulgar poesia. Eles não eram alienados, mas a chatice do discurso da esquerda estudantil os afugentava com seus dogmas, proibições, gostos proibidos.

Naquela fome imensa de palavra e música, cabia não apenas o quarteto Gil, Caetano, Chico e Milton, mas entravam com louvor João Bosco e Aldir Blanc, Elis Regina, Ivan Lins , todo o Clube da Esquina, mais Paulo César Pinheiro com sua ponte que unia e mais uma imensa geografia de gente que cantava e não era devidamente escutada.

Alento e esperança eram as mercadorias e aquele doce pássaro da juventude –que eles não iam deixar escapar pelas mãos – batia asas dentro de um quarto naquela casa, que , aliás, era de propriedade da madrinha de um dos poetas que, entre outras folias brejeiras, fizeram chuvas de poesia sobre São Paulo, recitais-relâmpago, papos muitos em recantos ermos onde nem imaginavam que a poesia poderia chegar. Quando passo pela Lins de Vasconcelos ainda os posso ver sentados sobre o capô dos velhos fuscas, que tinham a planejar uma nova Semana de Arte Moderna de 1922.

Nenhum deles tinha ainda 22 anos e, depois disso, os anos foram solapando os anos, veio aquele aluvião das "responsabilidades", das famílias, dos filhos, dos empregos que deveriam render mais que os caraminguás da juventude. E o resto nem pra história ficou e, quando vejo a desinteressante Lins de Vasconcelos com sua sina anônima, penso que se os poetas tivessem triunfado aquele modorrento pedaço de São Paulo poderia ganhar algum significado. Mas que nada. Dos poetas um ficou careca, outro engordou, outro engordou muito, outro tem a cabeça branca, um stent no coração e um ainda foi se refugiar em Brasília, o que é uma forma exacerbada de exercer solidão.

Diante deles também me enxergo naqueles tempos, mas não vejo mais os fuscas, os vinhos baratos, aquela sensação de relativa segurança que ainda havia nas ruas paulistanas no fim dos anos 1970. O pior é a sensação de que a poesia não ajuda enfim a consertar nada. Quando muito vira bálsamo para o pesadelo que aqueles jovens poetas jamais pensariam viver nesses idos de 2019, quando completam 60 anos e lamentam o país voltando 500 na emporcalhada linha do nosso tempo.

*Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista,escritor e jornalista. Publicou oito livros, dirigiu 12 documentários.

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