Religião

14/08/2019 | domtotal.com

Um paradoxo na mochila do cristianismo

Professar que aquilo que se crê é a verdade sem entender que outras crenças não são necessariamente um mentira a ser combatida é um desafio.

Defesa da fé e abertura ao diálogo, um paradoxo cristão.
Defesa da fé e abertura ao diálogo, um paradoxo cristão. (Josiah Weiss/ Unsplash)

Por Fabrício Veliq*

A questão do diálogo no meio cristão constantemente se mostra carregando um paradoxo em sua mochila de caminhada. Se perguntarmos se o cristão deve ser aberto ao diálogo a qualquer pessoa que professe essa fé, provavelmente a resposta será um alto e bem sonoro “sim”. Da mesma forma, é de se esperar a mesma resposta para a pergunta: “você é uma dessas pessoas que são abertas ao diálogo?”. Afinal, ninguém se considera um intolerante ou não aberto ao diálogo, ainda mais no mundo atual em que esse ponto é até mesmo incentivado nos meios corporativos e acadêmicos, onde os cristãos estão inseridos.

Ao mesmo tempo, porém, é possível perceber os diversos atentados feitos por pessoas que se dizem cristãs contra outras religiões, como as religiões de matrizes africanas. Estas constantemente têm seus terreiros destruídos por grupos evangélicos, ou ainda, seus seguidores e seguidoras considerados como filhos do diabo, servos de Satã ou como quem quer desvirtuar as pessoas do caminho da luz, entre tantos outros títulos já ouvidos por eles em algum momento da vida.

Nesse sentido, o paradoxo consiste justamente no fato de pessoas cristãs, quase unanimemente, dizerem ser abertas ao diálogo e, ao mesmo tempo, destruírem os lugares de culto ou serem contra a forma que entendem ser a correta para a adoração a Deus.

Que o medo do diferente seja uma das grandes motivações desse tipo de atitudes não podemos negar. Afinal, teme-se aquilo que não se conhece. Como conhecer dá trabalho, muitos preferem manter seus antigos preconceitos e leituras fundamentalistas a tentar compreender quais são os referenciais teológicos e espirituais de determinada religião. Conhecer isso permitiria, através disso, poder aprender com ela e, quiçá, tornar-se uma pessoa cristã melhor, ajudando também ao dialogante se tornar um fiel melhor na prática de sua própria religião.

Outra motivação, contudo, que acredito ser ainda mais séria do que a questão do medo, é justamente a ideia de superioridade que existe e prevalece dentro do movimento cristão. Essa ideia é diversas vezes fomentada por diversas pregações que versam sobre as pessoas cristãs serem o “povo escolhido de Deus”, “conhecedores da verdade”, “instrumentos de Deus para a salvação do mundo”, entre outros títulos que criam a sensação de que ser pessoa cristã concede um status de ser melhor do que aquelas pessoas que não o são.

Diante disso, é de se perguntar: como uma religião que se julga superior às outras pode dialogar? Não exige o diálogo a equidade de dignidade entre os dialogantes, de maneira que o que um tem a dizer tem a mesma importância daquilo que o outro tem a expressar? Dialogar não parte, justamente, da ideia de que há algo a ser aprendido e ensinado pelas partes dialogantes? Se essas premissas não são aceitas, se uma parte se acha superior à outra, mais correta, mais santa, mais verdadeira, o que se propõe não é um diálogo, antes, um proselitismo (muitas vezes light) com ares de misericórdia para com os que não conheceram “a verdade do cristianismo”.

Que isso aconteça com as outras religiões também não seria de se admirar. Afinal, em todas as religiões há aqueles e aquelas que não são abertos ao diálogo e ao diferente, por se considerarem como detentores do conhecimento a respeito da verdade última.

Contudo, como pessoas que se dizem cristãs e, consequentemente, seguidoras de Jesus, estar aberto ao outro para ouvi-lo e tentar entendê-lo é algo imprescindível. Se Deus é amor, como os seguidores de Jesus acreditam que ele seja, então essa abertura é um estilo de vida, motivado por esse mesmo amor que nos alcançou e nos faz perceber que só podemos amar porque fomos amados primeiro, ao mesmo tempo em que também nos alerta para o fato de que, no amor, não há filhos e filhas preferidas, não há melhores e piores diante de Deus.

Se todos e todas são alcançados pela graça divina, como afirma o cristianismo, então toda ideia de superioridade religiosa não pode encontrar amparo entre as pessoas que se dizem cristãs. E isso é uma condição crucial para se pensar a ideia do diálogo inter-religioso hoje.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bacharel em Filosofia (UFMG) E-mail: fveliq@gmail.com

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