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13/08/2019 | domtotal.com

Mulheres em série


Com a terceira temporada recém estreada, GLOW segue divertindo sem exageros ao comentar a situação da mulher.
Com a terceira temporada recém estreada, GLOW segue divertindo sem exageros ao comentar a situação da mulher. (Divulgação/Netflix)

Por Alexis Parrot*

Tendência inegável, a mulher tornou-se o centro de todas as atenções e público alvo preferencial do mercado televisivo. Nicole, Meryl, Julia, Reese, Naomi, Renée, Jane e Lily, Amy, Drew, Jessica, Viola... com um olho no peixe e outro na frigideira, todas elas fizeram a transição do cinema para a TV de forma vitoriosa, se nem sempre no terreno artístico, com certeza comercialmente. 

Orange is the new black e United states of Tara são descendentes diretas das pioneiras Murphy Brown e Mary Tyler Moore, da mesma forma que 30 rock e Unbreakable Kimmy Schmidt têm I love Lucy no DNA. Cito ainda Ugly Betty, Jane the virgin e Desperate housewives, que devem mais à tradição da soap, sem nenhum desmerecimento. De lá para cá, a presença feminina na TV vem evoluindo em número e ressonância, chegando até às mais recentes Big little lies, Crazy ex-girlfriend, Sharp objects, The handmaid's tale, Killing Eve, Boneca russa, Ela quer tudo, Homeland e GLOW.   

GLOW não chega a ser uma grande série, mas é inteligente e funciona. É divertida, com alguns bons momentos; é atual porque uma história protagonizada por mulheres mas, principalmente, pela época em que se passa. Após o sucesso estrondoso de Stranger things, não existe nada mais lugar comum do que rebobinar o tempo e voltar à década de 80 do século passado para ambientar tramas e situações. 

Ombreiras e cabelos armados de tanto gel eram itens obrigatórios na moda desse tempo que abrigou também o surgimento e apogeu do VHS, a febre dos ioiôs, o ocaso das ditaduras sul-americanas, o break dance e a epidemia da Aids – chamada errônea e preconceituosamente de "peste gay". O psicodelismo do LSD cedeu lugar à excitação da cocaína; bebia-se keep cooler e ainda fumava-se desavergonhadamente em aviões e restaurantes.

De 1986 a 1990, houve um programa na TV norte-americana em que mulheres invadiam a luta livre, espaço até então masculino. Misto de luta esportiva e espetáculo teatral, chamava-se GLOW (a sigla para Gorgeous ladies of wrestling) e foi concebido com a intenção de divulgar uma recém-criada liga feminina de lutadoras.

A série do Netflix usa a antiga atração como ponto de partida apenas para construir uma ficcionalização radical, abandonando completamente a história das participantes originais. Há fidelidade apenas ao modelo empregado para o casting, em que atrizes, modelos, dançarinas e dublês foram treinadas para representar estereótipos étnicos, culturais ou fetichistas e fingir que lutavam – o negócio todo tem mais a ver com coreografia e encenação do que com alguma modalidade esportiva de fato.

Da telinha para as performances em carne e osso em Vegas, o programa é competente na construção dos personagens e em sua evolução. O diretor Sam Sylvia, vivido por Marc Maron (excelente!), consegue sintetizar esse amadurecimento ao dizer que para ele é estranho estar na Cidade do Pecado pela primeira vez sem beber, sem jogar e sem encher o quarto de prostitutas – e mesmo assim se sentir realizado.

Allison Brie, após ter se destacado em Mad men, assume o papel principal com verdade e brilho nos olhos. Ladeada por um elenco coadjuvante igualmente interessante, o ringue ferve e a cada round conhecemos estas mulheres um pouco mais e mais nos afeiçoamos a elas.  

Com a terceira temporada recém estreada, GLOW segue divertindo sem exageros ao comentar a situação da mulher, seus papéis e lugares na sociedade, com ressonância clara no presente. No limite, quer ser política, por abordar temas que ainda hoje estão na pauta do dia (o cotidiano de uma mãe que trabalha fora, com seus dilemas e culpas; sororidade; sucesso profissional e assédio; sexualidade), mas triunfa mesmo é no melodrama.

O desencontro amoroso, a rivalidade entre colegas e os percalços de bastidores do mundo da televisão e do showbusiness são águas por onde a série navega com maior desenvoltura.

No campo oposto, está Disque amiga para matar, série um tanto boba estrelada por Cristina Applegate. Mesmo discutindo com um viés novidadeiro o tema do stalker misturado em uma trama de assassinato, não acrescenta muito ao gênero. Prefira o clássico As diabólicas (com Simone Signoret e Vera Clouzout) e o almodovariano Volver (com Penélope Cruz, além do bonus track do reencontro do diretor manchego e Carmem Maura, após quase 20 anos sem filmarem juntos).

Apesar da pertinência do protagonismo feminino, em alguns casos a TV comete abusos, tratando temáticas candentes com didatismo, levando o politicamente correto às beiras do exagero. Por excesso de zelo, são os britânicos que mais cometem pecados nesta seara.

As recentes Liar – Rede de mentiras (Globosat Play) e Cheat (sem previsão de estreia no Brasil) são bons exemplos da tese. Ambas trabalham com a questão do estupro e assédio, porém, com tamanha obviedade que acabam nos afastando da discussão proposta e impossibilitando que criemos qualquer tipo de empatia com as vítimas da trama.

A leveza de GLOW aponta para outro horizonte. Nem sempre é preciso ser chato para falar de coisa séria.

(GLOW – Terceira temporada disponível no Netflix.)

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o Dom Total.

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