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15/08/2019 | domtotal.com

Piroli, Lygia, Otto e eu

Poucas pessoas conheciam o conto, ao qual dei o nome de Mistérios gozosos.

Como eu pertencia à categoria dos inéditos, pensei em inscrever algum dos continhos que mantinha guardados no meu arquivo caseiro.
Como eu pertencia à categoria dos inéditos, pensei em inscrever algum dos continhos que mantinha guardados no meu arquivo caseiro. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Mais de 40 anos atrás, nos idos da década de 1970, o Unibanco, que tinha como diretor de relações institucionais o diplomata, jurista e intelectual Marcílio Marques Moreira, lançou o Concurso Unibanco de Literatura, exclusivamente para inéditos. A Editora Abril era parceira do banco na promoção, também inédita no país.

Como eu pertencia à categoria dos inéditos, pensei em inscrever algum dos continhos que mantinha guardados no meu arquivo caseiro. Um deles era ambientado no Colégio São João, de São João del-Rei, dos padres salesianos. O são João do nome não se referia à cidade, mas ao fundador da congregação, são João Bosco.

Poucas pessoas conheciam o conto, ao qual dei o nome de Mistérios gozosos. Uma dessas pessoas era o Jadir, meu irmão, que gostava muito da minha pequena obra, até porque também ele havia estudado no Colégio São João e conhecia bem os métodos e o regime a que eram submetidos os alunos, à base de ensino de qualidade, orações e latim. Com uma mistura de ficção e realidade, o conto descrevia bem os costumes que obedientemente vivíamos no que chamei de presídio de fé.

Reli o conto algumas vezes, dei umas mexidas e resolvi mostrar ao Wander Piroli, que eu considerava – e era mesmo – um dos melhores contistas brasileiros. O Piroli estava sempre ao meu alcance, porque frequentava quase diariamente a Gruta Goiás, o Bar do Chico, ao lado dos Diários Associados, onde eu trabalhava. Se ele aprovar, eu inscrevo, decidi. Perguntei a ele se poderia ler e dar uma opinião sobre um continho que escrevera e ele disse apenas: “Traz”.

No dia seguinte, quando ele tomava suas cervejas no balcão da Gruta, eu lhe entreguei as laudas datilografadas. Ele pegou e começou a ler, eu de olho nas reações dele. Leu com atenção, sem sequer ligar para o copo à sua frente. Terminou, olhou pra mim com sua natural e singela superioridade e sentenciou: “Afonso, se eu fosse jurado, por Deus que nem leria os outros. É bom pra cacete, cara”. Saí do bar animado e no dia seguinte enviei o conto para o concurso.

Passaram-se uns dois meses. Certo dia, o amigo Luiz Márcio Viana chegou à minha mesa, quando eu exercia o cargo de assessor de imprensa da Companhia de Distritos Industriais, e perguntou qual era o meu nome completo. Eu disse Afonso Barroso de Oliveira, por quê? Porque você ficou em terceiro lugar no concurso do Unibanco. Olha aqui – e me entregou a revista Veja da semana.

Era um anúncio de duas páginas com a relação dos 10 classificados no concurso, que premiava os três primeiros com dinheiro e os outros sete com menção honrosa e a garantia de figurar num livro que seria lançado pela Editora Abril. Participaram cerca de 14 mil candidatos.

Recebi dias depois as passagens e o voucher para hospedagem no Hotel Othon, em São Paulo, na Praça do Patriarca, onde também ficava a sede do Unibanco.

No coquetel de premiação, regado a uísque 12 anos, estávamos sentados num sofá imenso da sala vip do banco quando se aproximaram os escritores Otto Lara Resende e Lygia Fagundes Telles, dois dos jurados do concurso. Perguntaram quem era Afonso Barroso. Eu disse sou eu e me levantei. Foi quando o Otto apertou minha mão e disse: Aposto que você é mineiro. E a Lygia contou que os dois brigaram para que o meu conto fosse o primeiro lugar. Fiquei cheio de mim, e me considerei o vencedor do concurso.

Voltei com um cheque bem gordo, que podia ter uns quilinhos a mais se os outros cinco jurados tivessem concordado com a Lygia e o Otto. Mas conhecer os dois e receber deles aquele elogio foi um grande prêmio. 

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

EMGE

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