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14/08/2019 | domtotal.com

Barcos sob a amoreira

Já há algum tempo se arrependia de comparecer às reuniões familiares.

Voltou aos barcos e optou por partir à deriva, sem rumo.
Voltou aos barcos e optou por partir à deriva, sem rumo. (Eric Leon/Flickr)

Por Pablo Pires Fernandes

As crianças entravam e saíam dos cômodos numa algazarra alheia ao silêncio guardado na memória das paredes do casarão. Em um canto, calado e recostado numa velha poltrona, as lembranças de João Carlos, inevitáveis ali, aumentavam sua sensação de deslocamento.

Desde a morte da mãe, os encontros com seus irmãos e irmãs tinham se tornado raros. Ele sabia que o convidavam aos almoços festivos por cortesia e hábito. “Para que todos estivessem reunidos”, insistiam. Mera formalidade. A cada reunião familiar, percebia um crescente desprezo nos olhares que ele sempre evitava sustentar. Mas aquela hipocrisia estava chegando a um nível insuportável.

A irmã, dona da casa, implicava com ele por fumar – “isso vai te matar” –, por ter se divorciado da esposa – “uma mulher adorável” –, por ter se aposentado cedo da universidade – “seus alunos te admiravam, você era um professor excelente” –, por se manter isolado em sua biblioteca – “aqueles livros velhos e empoeirados” –, e por sua aversão à tecnologia: “Você ficou velho mesmo, né?”.  

João Carlos considerava as mudanças decorrentes dos computadores e as conexões, redes, hiper-interações virtuais e todo o aparato internético as responsáveis pelo mal estar contemporâneo.

Já há algum tempo se arrependia de comparecer às reuniões familiares. Porém, tinha Joana e Antônio, seus sobrinhos. Sem filhos, desenvolveu pelos netos mais velhos da família um afeto particular, o que era recíproco. Sem levantar o rosto nem dizer palavra, saiu para fumar no jardim.

Joana seguiu o tio e o encontrou sob a amoreira soltando baforadas. Ela falou sobre os clássicos da literatura que estava relendo e como o tempo transforma a percepção de uma mesma obra. Dizia aquilo com os olhos no chão, como se pedisse perdão.

Antônio se aproximou com os braços abertos e um sorriso. Quis saber sobre o gato e o papagaio, mas deixou por último a pergunta sobre a coleção de barcos. Ao longo de anos, o tio reuniu um conjunto de barquinhos artesanais, de cedro, miriti, coqueiro e outros materiais que serviam à criatividade brasileira, recolhidos em muitas viagens e que carregavam recordações antigas.

Naquele momento, João Carlos se iluminou ao recordar as horas de cumplicidade que teve com os dois sobrinhos, quando, crianças, encantavam-se diante dos barcos coloridos e das histórias narradas pelo tio, vividas ou inventadas. Memórias calorosas, embora agora, sob a amoreira, lhe despertassem um sentimento impreciso.

A imagem que lhe veio foi a de uma ilha, de isolamento. A solidão, sabia, era condição inerente e habitual ao ponto de nem ser uma questão ou problema. Apenas um fato. Sua reclusão e sua distância foram conscientes.

Voltou aos barcos e optou por partir à deriva, sem rumo, no pensamento como foram as escolhas ao longo da vida. Marinheiro solitário, meio náufrago e meio capitão – mas, quem não? – tomou fôlego e sorriu. Navegar é preciso.


Redação Dom Total

*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'.

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