Religião

15/08/2019 | domtotal.com

As famílias são mesmo um laboratório de humanização?

Diante das mudanças, muitos tipos de famílias surgiram. Ao longo dos anos, a realidade trouxe uma nova ideia desvinculada de seus modelos baseados no casamento, sexo e procriação.

O Estado já entendeu que as famílias não são todas iguais.
O Estado já entendeu que as famílias não são todas iguais. (Pixabay)

Por Élio Gasda*

Família - Núcleo social unido por laços afetivos, que geralmente compartilha o mesmo espaço e mantém entre si uma relação solidária. Essa é a definição do conceito, segundo o Dicionário Houaiss. É consenso: família é a primeira expressão de organização coletiva da humanidade. Os modelos são resultado do desenvolvimento social, cultural e econômico de uma sociedade e têm como função básica defender seus membros. Durante séculos e, principalmente, nos últimos anos, foram muitas as alterações conceituais e estruturais das famílias, consequência direta das transformações dos valores e práticas das sociedades.

Diante das mudanças, muitos tipos de famílias surgiram. Ao longo dos anos, a realidade trouxe uma nova ideia desvinculada de seus modelos baseados no casamento, sexo e procriação. A nova concepção tem se pautado em valores, como a afetividade, o amor e o carinho. Família pluralizada, democrática, igualitária. Desde a família tradicional, que pressupõe o casamento entre um homem e uma mulher, até o casamento homoafetivo, entre pessoas do mesmo sexo. Família anaparental, ausência do pai e da mãe, monoparental, quando apenas um dos pais arca com a responsabilidade na criação dos filhos, mãe solteira é um bom exemplo. Família reconstituída, pais separados que começam a viver com outra pessoa, família unipessoal, caso dos viúvos. Crescem as uniões informais, os casamentos inter-raciais. Muitos casais não formalizam o casamento no civil, nem no religioso.

A Constituição de 1988, no artigo 226, considera que a família é a base da sociedade e que a mesma tem proteção do Estado. A partir da relação afetiva, o ordenamento jurídico passou a definir os direitos da família e as novas configurações. São grupos sociais, são pessoas com dignidade humana, com direitos e deveres e que querem ser plenamente respeitadas. Essa é a realidade familiar.

O Estado já entendeu que as famílias não são todas iguais. No Código Civil de 2003 a definição de família abrange as unidades formadas por casamento, união estável ou comunidade de qualquer genitor e descendente. O casamento passou a ser a comunhão plena de vida, com base na igualdade de direitos e deveres dos cônjuges.

Mas até o momento a família está pensada a partir de perspectivas conceituais jurídicas ou de uma estrutura formal de organização social. É preciso pensar família “como capaz de incluir muitos padrões e dimensões diferentes de vida” (Vincent Nichols). O que é família para o cristão? Ainda se pensa a família tal como descreve o Catecismo (n. 2202) no qual um homem se une a uma mulher em matrimônio com vistas à procriação? O cristão pensa a família como o papa Francisco? “Um centro de amor, onde reina a lei do respeito e da comunhão, capaz de resistir aos ataques da manipulação e da dominação dos ‘centros de poder’ mundanos?”

Para cuidar e fortalecer a instituição, a Igreja celebra a Semana Nacional da Família. Oportunidade para reler a Amoris laetitia, exortação do papa Francisco sobre o amor na família. Francisco, em sua intenção de oração para o mês de agosto pediu para que se reze pelas famílias para que essas possam se tornar “escolas de crescimento humano”.

“Cuidar da instituição familiar não é dever de uma pessoa, mas compromisso de todos nós” afirmou o presidente da CNBB e arcebispo de Belo Horizonte, dom Walmor Oliveira ao falar da campanha que tem como tema: “A família, como vai?”. Uma questão simples, mas instigadora. Um convite para trilhar o caminho de compreensão da dignidade e da nobreza da família. De todas as famílias. De acordo com dom Adelar Baruffi, bispo de Crus Alta (RS), é dentro das famílias que acontecem encontros especiais para se educar e viver a iniciação à vida cristã, não sendo um espaço para doutrinação, mas para aprender um jeito cristão de se relacionar.  

Mas essa família cristã, como vai? Tem se relacionado de forma respeitosa com o próximo? Como vão seus valores cristãos? Vive um ambiente de amor? Agradece a Deus pela família que é? Agradece pelas outras famílias diversas como aquelas de sangue, de amizade, surgida de forma livre, sem compromissos jurídicos e religiosos? Todas foram criadas no amor, não se pode basear família exclusivamente em conceito e normas heterossexuais. “Cada pessoa, independentemente da própria orientação sexual, deve ser respeitada na sua dignidade e acolhida com respeito” (Amoris laetitia, 250).

A sua família, como vai? Segue os preceitos cristãos? Reza unida, respeita os domingos como dia do Senhor e é solidária com o próximo com roupas e comida. Mas faz fofoca sobre a família vizinha, repassa mensagens fakes e de ódio? Aplaude a tortura? Acredita que bandido bom é bandido morto? Na sua casa você é o “chefe”, por isso grita com esposa e filhos? Sua família discrimina o pobre, o gay, o preto e favelado? Prefere um filho preso, ou morto a um filho homossexual? Sempre é bom rever os valores cristãos. 

Francisco nos pede: “Rezemos pelas famílias para que graças a uma vida de amor se tornem cada vez mais laboratórios de humanização”. A força da família reside essencialmente na sua capacidade de amar e ensinar a amar. De todas as famílias.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina Social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016).

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