Religião

19/08/2019 | domtotal.com

Debate francês sobre maconha ignora o encarceramento em massa de muçulmanos

O número de muçulmanos presos por crimes relacionados às drogas sugere que esse racismo histórico está vivo e bem no coração da França.

Os parlamentares franceses que buscavam criminalizar a maconha no final dos anos 1960 adotaram essas visões discriminatórias sobre muçulmanos.
Os parlamentares franceses que buscavam criminalizar a maconha no final dos anos 1960 adotaram essas visões discriminatórias sobre muçulmanos. (Louis Hansel/ Unsplash)

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Religion News

Pesquisas sugerem que homens muçulmanos na França foram desproporcionalmente detidos e presos por crimes relacionados à maconha desde que a droga se tornou ilegal em 1970.

No verão passado, na França, dezenas de “Cafés CDB” (CDB são as siglas para canabidiol, um dos componentes canabinoides mais importantes da planta cannabis, da maconha) se abriram de repente em todo o país.

Explorando uma lacuna legal originalmente criada para os agricultores de cânhamo, essas empresas vendiam óleos, bebidas e pomadas para clientes em fila de espera, esses produtos continham canabidiol, um composto de maconha que funciona como uma “cura” não totalmente provada ainda para a insônia, a ansiedade e muitas outras doenças. O governo francês reagiu rapidamente e em meados de junho proibiu oficialmente a venda da CBD. Os cafés CBD desapareceram em um mês.

Mas a breve experiência da França com o canabidiol parece ter iniciado um movimento para legalizar a cannabis, ilegal desde 1970.

Em 19 de junho, dezenas de economistas, médicos e políticos franceses publicaram uma carta aberta na popular revista de notícias L'Obs, denunciando a “falência” da proibição da cannabis e implorando a nação a legalização com a mensagem de Légalisons-Le!. Logo depois, um comunicado econômico do conselho do primeiro-ministro francês divulgou um relatório criticando a guerra às drogas na França como um grande e custoso “fracasso francês” e pedindo a legalização da maconha por motivos financeiros.

Então, em julho, a agência de segurança de drogas da França aprovou o início de testes médicos de cannabis nesse país – algo que os médicos e ativistas defendem desde 2013.

O debate sobre políticas de drogas da França ecoa conversas em grande parte semelhantes que levaram uma dúzia de estados americanos a legalizar e regular a cannabis desde 2014, mas com uma particularidade: a França praticamente ignorou a ligação entre raça, cannabis e encarceramento em massa.

A guerra oculta

As evidências sugerem que a proibição da cannabis nos últimos 50 anos castigou desproporcionalmente a minoria muçulmana da França. Cerca de um quinto dos prisioneiros franceses foram condenados por delitos de drogas, segundo o Ministério da Justiça da França – uma taxa comparável à dos Estados Unidos. Quase todos eles são homens.

Não há desmembramento demográfico desta população, porque o credo francês de “igualdade absoluta” entre os cidadãos tornou ilegal desde 1978 coletar estatísticas baseadas em raça, etnia ou religião. Mas o sociólogo Farhad Khosrokhavar, que estuda o sistema prisional da França, descobriu que cerca de metade das 69 mil pessoas encarceradas hoje na França são muçulmanas de ascendência árabe. Os muçulmanos representam apenas 9% dos 67 milhões de franceses.

De acordo com um estudo de janeiro de 2018 encomendado pela Assembleia Nacional Francesa, das 117.421 detenções por drogas na França em 2010, 86% envolviam cannabis. Os encarceramentos por cannabis estão aumentando rapidamente também. O mesmo estudo informou que o número de pessoas presas anualmente pelo “simples uso” de cannabis na França aumentou 10 vezes entre 2000 e 2015, passando de 14.501 para 139.683.

Tomados em conjunto, este e outros dados sugerem que até um em seis prisioneiros na França hoje pode ser um homem árabe muçulmano que usou, possuiu ou vendeu cannabis.

Assassinos de haxixe

O impacto desproporcional das leis francesas contra as drogas sobre os homens muçulmanos não é surpreendente, considerando que os franceses há muito tempo associam os muçulmanos à maconha – especificamente o haxixe, uma resina de cannabis.

Como argumento em minha tese de doutorado e no livro sobre a história do haxixe na França, o francês do século 19 acreditava que essa droga leve causava insanidade, violência e criminalidade entre os norte-africanos muçulmanos.

Escrevendo no início dos anos 1800, o famoso estudioso francês Antoine-Isaac Silvestre de Sacy popularizou a ideia de que a palavra “assassino” derivava da palavra árabe “haxixe” e que ambos se originaram de uma seita muçulmana chamada Os Assassinos de Alamut, que operou durante as Cruzadas.

Descrita pela primeira vez em 1300 na literatura de viagens italiana, na obra As viagens de Marco Polo”, rumorava-se que os Assassinos de Alamut usavam uma “poção intoxicante” para enganar os devotos no Iraque e na Síria para se tornarem assassinos. Sacy acreditava que a poção era feita de haxixe, citando referências árabes contemporâneas à seita como "al-Hashishiyya" ou “usuários de haxixe”.

Sobre esses assassinos, Sacy argumentou, “foram criados especificamente para matar” por seu líder, conhecido como o Velho da Montanha. Foram alimentados com haxixe para garantir “a submissão absoluta à vontade de seu líder”. Embora em grande parte ficção, as alegações de Sacy sobre os assassinos muçulmanos que comem cannabis ganharam força na França, particularmente na medicina.

Dezenas de médicos de meados do século 19 citaram o trabalho de Sacy em suas pesquisas, como aponto no meu estudo. Eles acreditavam que a ciência farmacêutica ocidental poderia “domar” o haxixe – esta perigosa e exótica substância do Oriente – e até poderia ser usado pelos médicos para tratar doenças terríveis como a insanidade, a peste e a cólera.

O haxixe medicinal, principalmente sob a forma de tintura, floresceu na França durante as décadas de 1830 e 1840. Mas os franceses logo ficaram desiludidos com sua droga maravilhosa. A cannabis, sabemos agora, alivia os sintomas de algumas doenças – mas não pode curar a cólera, como acreditavam.

Enquanto os tratamentos fracassados se implementaram e muitas das filosofias médicas que sustentavam o uso do haxixe tornaram-se obsoletas na França no final do século 19, seu uso como remédio terminou em grande parte do país. Em 1953, a França tornou ilegal o uso medicinal do haxixe.

Loucura colonial pela maconha

A ligação entre haxixe e os muçulmanos violentos, no entanto, estava enraizada na consciência nacional. E isso influenciou a política pública francesa por décadas.

As autoridades e os médicos da Argélia colonial francesa, viam o uso de haxixe como a causa da insanidade e da criminalidade violenta, encheram hospitais psiquiátricos na Argélia com muçulmanos locais supostamente sofrendo de folie haschischique – basicamente, “loucura pela maconha”.

Tal pensamento também ajudou a justificar a criação do Código de Indigènat em 1875, uma lei francesa que institucionalizava o racismo e o apartheid na África do Norte francesa ao designar oficialmente os muçulmanos como sujeitos e não como cidadãos.

Em nome da promoção da “ordem colonial”, a França estabeleceu códigos legais separados e desiguais que promoviam a segregação, o trabalho forçado e as restrições aos direitos civis de muçulmanos e outros africanos.

A associação estigmatizante entre muçulmanos, haxixe e criminalidade persistiu após o fim do Império Francês em 1968. Seguiu-se os norte-africanos que emigraram para a França, que eram propensos à violência e à criminalidade e, como tal, sujeitos à vigilância do governo, interrogatórios e excessos da força policial na França.

Os parlamentares franceses que buscavam criminalizar a maconha no final dos anos 1960 adotaram essas visões discriminatórias. Descreveram o crescente problema de drogas do país como uma “praga estrangeira” disseminada pelos narcotraficantes árabes. Um membro da Assembleia Nacional francesa chegou a citar Sacy, lembrando aos colegas legisladores que a maconha já inspirou um culto de assassinos muçulmanos chamados de “Hachichins”.

Os legisladores franceses de hoje provavelmente não usariam essa pesquisa desacreditada ou essa linguagem estigmatizante para conectar os muçulmanos à cannabis. Mas o número de muçulmanos presos por crimes relacionados às drogas sugere que esse racismo histórico está vivo e bem no coração da França.

Se a França se mobilizar para regulamentar e legalizar a maconha, muitos médicos, fumantes de maconha e economistas libertários certamente se regozijarão. Mas podem ser os muçulmanos franceses os que mais se beneficiem.


Publicado originalmente em Religion News.

*David A. Guba, Jr. é membro da Faculdade de História da Bard College. Este artigo foi republicado em The Conversation sob uma licença Creative Commons. As opiniões expressas neste comentário não representam necessariamente as do Religion News Service.

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