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19/08/2019 | domtotal.com

O repórter e o general

Entre as principais vítimas da censura estavam os jornais e, naturalmente, os jornalistas.

Não imaginava que a filha de um general pudesse ser tão doce.
Não imaginava que a filha de um general pudesse ser tão doce. (Divulgação)

Por Afonso Barroso*

Os anos de chumbo e trevas que o Brasil viveu após o golpe de 1964 eram mesmo de chumbo grosso e escuridão. Foram especialmente tenebrosos depois do famigerado AI-5, o ato do governo militar que fechou o Congresso, suprimiu as liberdades, sepultou as garantias individuais e instaurou um regime de ditadura plena, com censura e repressão às artes e à informação como nunca se imaginara.

Entre as principais vítimas da censura estavam os jornais e, naturalmente, os jornalistas. Os que tivessem alguma tendência à oposição eram vigiados, monitorados em cada movimento e, de acordo com critérios sempre subjetivos, militarmente punidos.

Jardel (chamemo-lo assim), jornalista conhecido e muito respeitado por sua competência e imparcialidade, foi um dia detido e levado “para averiguações” ao quartel-general de uma certa capital. Aconteceu que ele havia publicado matéria com informações obtidas de um político ligado aos militares, na qual relacionava os nomes de uma série de políticos indexados para cassação de direitos. Era um furo, e causou grande repercussão. Um dos que seriam “premiados”, de acordo com a lista obtida pelo repórter, era um dos deputados mais respeitados da ocasião e, embora considerado um dos líderes da oposição, um político moderado que ninguém podia imaginar pudesse figurar numa lista da ditadura para cassação.

A divulgação da lista irritou os militares, que não queriam antecipar nomes já escolhidos para serem alijados da vida pública. Resultado: mandaram deter o autor da matéria. Um tenente, tido como um dos mais violentos da linha dura, foi encarregado da missão. Chegou com dois soldados à redação do jornal onde Jardel trabalhava. Prenderam-no e o levaram “para uma conversinha” com o comandante militar da região.

O tenente entra com Jardel no gabinete do general X e o apresenta com um sorriso sádico:

- É este o repórter que publicou a matéria - diz.  

O homem das quatro estrelas manda que o repórter se sente à sua frente e, no momento em que vai iniciar o interrogatório, vê entrar no gabinete uma garota muito bonita que se surpreende com a presença daquele rapaz sentado à frente da mesa.

- Jardel, o que você está fazendo aqui?

Ela corre até o repórter, dá nele um beijo carinhoso no rosto e vira-se para o general:

- Pai, então o senhor já conhece o Jardel, meu namorado?

A surpresa do general não é menor que a do tenente, que em posição de sentido monta guarda na porta do gabinete.

- É seu namorado? Ele publicou uma notícia que não deveria ter saído em jornal – responde o general, visivelmente constrangido.

Mais tranquilo e também surpreso com a presença inesperada da garota que conhecera dias atrás num baile de formatura, o repórter defende-se:

 - General, a notícia me foi passada pelo governador X, que não pediu sigilo nem que preservasse o nome dele. Tenho o telefone aqui. Se o senhor quiser, pode ligar pra ele e perguntar – disse com firmeza.

Na porta, o tenente sente que lhe foge o sangue nas faces ao assistir à cena. Acha melhor dar meia volta e sair de fininho.

Jardel não sabia que a moça com a qual estava “ficando” e que vou chamar de Dulce, era filha do general, que o dispensa da audiência, recomendando apenas “tomar cuidado ao escrever notícias sobre a revolução”.

Jardel diz tudo bem, despede-se educadamente do poderoso “sogrão” e sai de braços dados com a namorada. Não imaginava que a filha de um general pudesse ser tão doce. 

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

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