Religião

19/08/2019 | domtotal.com

Brasil, uma diáspora do Brasil

É preciso que aprendamos o caminho de sentir orgulho consciente de nossa identidade.

O Brasil vive uma diáspora, dentro do Brasil.
O Brasil vive uma diáspora, dentro do Brasil. (Rafaela Biazi/ Unsplash)

Por Felipe Magalhães Francisco*

A fé do povo da Bíblia está intimamente ligada à esperança na promessa feita por Deus, do dom da terra, lugar onde corre leite e mel. Remonta à história de Abraão, o pai da fé, que saiu da casa de sua parentela, para onde Deus havia apontado. Essa história de fé tem seu ponto alto com a saída do Egito, lugar da escravidão, para a liberdade de receber a herança da promessa de Deus, sob a liderança de Moisés. Com Josué, o povo estava preparado para adentrar a terra: a fidelidade a Deus era a garantia de que tudo correria bem.

Já no período monárquico, o caminho de fidelidade a Deus, em sua aliança para com o povo, desandou. Os profetas, insistentemente, chamavam os reis e o povo para a fidelidade, como condição de possibilidade para a permanência na terra. Fidelidade à aliança significava integridade do coração do povo, justiça nas relações e garantia e exercício do direito. A infidelidade levou o povo a perder a permanência na terra, com o traumático Exílio da Babilônia.

No retorno do exílio, a tradição judaica insistiu na unidade da fé, mesmo para aqueles judeus que não retornaram. Os hebreus da diáspora, isto é, aqueles que estavam fora da terra, deveriam se manter fiéis, mesmo na distância de Jerusalém, à aliança para com o Senhor, também como um modo de não perder a identidade. Identidade, fé e terra são três realidades que não se separam, para a tradição do povo da Bíblia.

Mas, o que nós, brasileiros e brasileiras, temos a ver com isso? Aparentemente nada, é verdade! É possível, porém, que aprendamos com o povo da Bíblia, já que formamos um país com uma imensa maioria de pessoas de fé. Além disso, também a história de nosso país é feita de abusos de povos estrangeiros, que dilapidaram e continuam a dilapidar as riquezas, de todas as ordens, de nossa terra e de nossa gente. Toda a história da América Latina, aliás, é feita assim. Agora, temos assistido a volta do entreguismo e o retorno da subserviência a outros países.

O Brasil vive uma diáspora, dentro do Brasil. Fora o entreguismo latente do atual governo e a subserviência de parte do Judiciário, tal como agora se escancara cada vez mais, aos interesses de potências estrangeiras, temos acompanhado um povo que se perdeu de si. Um povo que já não tinha a autoestima bem trabalhada, vai perdendo o pouco do orgulho que restava. Uma agressividade e intolerância adormecidas despertaram de forma assustadora: um povo que se volta contra si mesmo, e que esquece de todas as suas potencialidades de alegria, de festa, de hospitalidade, de solidariedade...

É preciso que aprendamos o caminho de sentir orgulho consciente de nossa identidade. Saber ler com criticidade nossa história, percebendo tudo o que nos foi tirado, tanto pelos de fora quanto pelos de dentro, bem como as potencialidades que temos para nos reconstruir. O Brasil é grande e pode ser ainda maior, sem as ilusões de um patriotismo nacionalista e excludente, mas valorativo do que temos de mais precioso, nossa própria gente. Lutar, com todas as nossas forças, contra as tentações de uma mentalidade escravocrata, bem como contra um complexo de vira-latas que nos diminui, e aprender a amar o Brasil, como a nossa terra boa, a nossa terra onde corre leite e mel. Se Abraão, pela fé, teve que sair de casa para alcançar a terra, o imperativo para nossa gente, agora, é permanecer em casa, fazendo dessa nação um verdadeiro lar!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas 'Imprevisto' (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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