Cultura

16/08/2019 | domtotal.com

Festejo do Tambor Mineiro celebra cultura do congado com 20 atrações

Ano após ano o festejo reúne milhares de pessoas interessadas em descobrir sobre essa manifestação religiosa que, infelizmente, sofre preconceito.

Sérgio Pererê se apresenta com seu Bloco Oficina Tambolelê, idealizado ainda em 1995.
Sérgio Pererê se apresenta com seu Bloco Oficina Tambolelê, idealizado ainda em 1995. Foto (Divulgação)
Evento atrai participação de crianças todos os anos.
Evento atrai participação de crianças todos os anos. Foto (Divulgação)
Rituais religiosos são apresentados durante o Festejo.
Rituais religiosos são apresentados durante o Festejo. Foto (Divulgação)
Mauricio Tizumba, idealizador do projeto.
Mauricio Tizumba, idealizador do projeto. Foto (Divulfação)
Festa da cultura reinadeira/congadeira é rica e espera conscientizar população sobre a religião.
Festa da cultura reinadeira/congadeira é rica e espera conscientizar população sobre a religião. Foto (Divulgação.)

Por Larissa Troian

Redação Dom Total

Guardas e irmandades do Rosário, grupos percussivos e artistas se encontram para celebrar a cultura reinadeira/congadeira e a influência banto na música produzida no país, no estado e na cidade. Idealizado pelo músico, cantor e compositor Mauricio Tizumba, em 2002, na Associação Cultural Tambor Mineiro, o evento ganhou as ruas do Prado, Região Oeste de Belo Horizonte. Neste domingo (18), o Festejo do Tambor Mineiro volta a ocupar a rua e reúne 11 guardas de congo e moçambique, além de nove atrações que celebram os ritmos afro-brasileiros e contam com a participação da atriz e cantora Zezé Mota.

Tizumba afirma que ao criar esse festejo “o objetivo principal era de colocar o congado na rua, numa região inóspita como é o Prado para esse tipo de crença, para esse tipo de religião, e também com o objetivo de divulgação, para as pessoas saberem da nossa existência”.

De uma forma ou de outra, deu certo. Ano após ano o festejo reúne milhares de pessoas interessadas em descobrir sobre essa manifestação religiosa que mescla elementos da cultura banto com o catolicismo e que, infelizmente, ainda sofre muito preconceito. Nas edições anteriores, pessoas de procedência diversa, entre adultos, jovens e crianças, aglomeraram-se ao redor das guardas, procurando saber de onde vem e o que significa tudo aquilo.

Para Tizumba, a juventude que se “alia” ao festejo pode trazer muitas coisas boas e novas: “Nós temos que empoderar esses meninos, mostrar para essa meninada o quão é importante a crença congadeira, não deixar o branco colocar na cabeça dele que não vale a pena”. Para o artista, a festa serve para evidenciar a dignidade da população afro-descendente. “Temos que sair e mostrar para a juventude que a gente tem o poder sim de continuar manifestando a nossa fé, tocando o tambor e cantando com alegria”, afirma, sustentando que a juventude ganha força ao ver o congado ganhando o respeito da sociedade.  

Vale dizer que a região onde hoje se encontra BH já abrigava festejos de reinados/congados nas fazendas escravagistas que conformavam o antigo Curral Del Rey, tradição que também migrou com a mão de obra operária que veio do interior para a construção da nova capital. Atualmente, centenas de guardas e irmandades realizam seus festejos ao longo do ano, nas bordas da cidade, cumprindo por meio de visitas mútuas – o chamado ofício –, o ciclo anual do Rosário. Tizumba explica a constante transformação da prática, mas com algumas características que são preservadas ao longo dos séculos. “No futuro, acho que essa juventude vai trazer muita novidade pra gente, até porque o tempo vem, o tempo passa e as coisas mudam.”

Tizumba ressalta a alegria do Festejo do Tambor Mineiro em participar desse ciclo, e ressalta o convite a todas e todos para celebrar a cultura banto-mineira, e para louvar Nossa Senhora do Rosário, os demais santos do panteão reinadeiro/congadeiro, as nações africanas e os antepassados.

O artista mineiro Sérgio Pererê também está confirmado para a festa. Ele se apresenta com seu Bloco Oficina Tambolelê, idealizado ainda em 1995. Para ele, “essa tradição do congado e do moçambique é algo que faz parte da minha trajetória inteira”. Pererê ressalta a importância de Tizumba para os artistas de Minas, ao fazer “um ‘link’ entre esse universo da arte dos palcos e da cultura popular sagrada dos reinados”.

Convidada especial

Zezé Motta é a convidada especial do Festejo do Tambor Mineiro de 2019. A artista fará participação especial ao lado de Mauricio Tizumba e do Grupo Tambor Mineiro. Sua voz poderosa ecoa na história da música brasileira desde os anos 1970, quando Zezé gravou seu primeiro disco solo em que compositores do porte de Rita Lee e Moraes Moreira entregaram canções inéditas para ela gravar. Sua voz imortalizou clássicos, como Trocando em miúdos, de Chico Buarque e Francis Hime, e Pecado original, de Caetano Veloso.

Além de cantora, Zezé é também atriz. Sua estreia no teatro se deu em 1967, com Roda viva, sob direção de José Celso Martinez Corrêa e, desde então, participou do elenco de importantes peças como: Fígaro, fígaro, Arena conta Zumbi, A vida escrachada de Joana Martine e Baby Stompanato, em 1969; Orfeu negro, em 1972, e Godspell, em 1974, entre outras. No cinema, interpretou Xica da Silva no filme de mesmo nome, recebeu todos os prêmios como atriz e ficou conhecida mundialmente. “Para mim é uma honra, um privilégio participar do Festejo do Tambor Mineiro. Adoro participar de projetos que valorizem a nossa cultura e trabalhar com o Tizumba é bom demais”, revela a artista.

Zezé Mota conta que tem pouca vivência com a cultura congadeira. “A nossa cultura é muito diversificada, muito rica, o país é muito grande, e a gente acaba não tendo intimidade com todos os segmentos. Mas a pouca experiência, o pouco convívio que eu tive com a cultura congadeira foi muito prazeroso. É tudo muito bonito, o ritmo, as danças, as roupas, gosto muito e tenho muito orgulho de saber que é uma cultura que faz parte do meu país”.

Maratona de atrações

O evento tem início as 10h e espera receber cerca de 5 mil pessoas. Na parte da manhã, grande partes das guardas se apresenta. Quem abre o evento é a Guarda de Congo Feminina de Nossa Senhora do Rosário – a primeira guarda feminina que deu origem posteriormente às outras –, seguida da Guarda de Congo de São Benedito. Guardas de outras cidades de Minas também marcam presença, como a Banda Dançante do Rosário de Santa Efigênia, de Conselheiro Lafaiete, e a Guarda de Moçambique do Instituto Cultural Reino do Rosário, de Timóteo.

A parte da tarde fica por conta de Mauricio Tizumba e Oficina de Atabaque, Bloco Saúde, Manu Ranilla e Novos Pandeiros, Bloco Angola Janga, Jeiza Fernandes e Lucas Castro, Mauricio Tizumba e Grupo Tambor Mineiro com participação da Zezé Motta, entre outros.

Faz também parte da programação a feira de artesanato, praça de alimentação com comida afro-brasileira e shows com artistas referência da cultura afro. Esta edição é realizada com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte. A entrada é gratuita e pede-se doações de 1kg de alimento não-perecível que serão destinadas aos festejos das irmandades do Rosário.

Tizumba destaca que “o congado não é uma religião pedinte, a gente vive de doações, então a gente tem que conseguir uma forma de ir à luta, pra conseguir uma condição melhor pra gente continuar manifestando, fazendo nossa fé acontecer na cidade”.

SERVIÇO:

Festejo do Tambor Mineiro 2019

Onde: Rua Ituiutaba, 399, Prado, Belo Horizonte.

Quando: Domingo, 18 de agosto, às 10h.

Ingressos: 1kg de alimento não perecível.

Mais informações: festejo.art.br.

EMGE

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