Economia

19/08/2019 | domtotal.com

Fernández chama Bolsonaro de prepotente e diz que vai manter economia argentina aberta

'Me incomoda a forma e a prepotência com que fala, entre outras coisas. Mas a verdade é que o Brasil é muito mais importante do que Bolsonaro',disse o candidato.

"Se Bolsonaro pensa que eu vou fechar a economia e que então o Brasil vai deixar o Mercosul, que fique tranquilo, porque não penso em fechar a economia". Foto (AFP e Ag. Brasil)
Alberto Fernández, candidato presidencial da coalizão peronista Frente de Todos, em 11 de agosto de 2019, após votar nas primárias argentinas
Alberto Fernández, candidato presidencial da coalizão peronista Frente de Todos, em 11 de agosto de 2019, após votar nas primárias argentinas Foto (AFP/Arquivos)

O candidato favorito na disputa pela Presidência da Argentina, Alberto Fernández, declarou à imprensa local que o país está "virtualmente" em default, que deve "renegociar" seu acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e prometeu não fechar a economia, como teme o Brasil.

Fernández garantiu ainda que o acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia (UE) ainda "não existe", criticou a "prepotência" do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e afirmou que o atual presidente argentino, Mauricio Macri, causou "danos" ao país.

Nome mais votado nas eleições primárias de domingo retrasado (11), com 47% dos votos, ele completa sua chapa com a ex-presidente Cristina Kirchner, na coalizão Frente de Todos (peronismo de centro esquerda).

A tempestade gerada por sua vitória abalou os mercados, com a Bolsa de Buenos Aires acumulando queda de 30% na semana, e o peso, uma desvalorização de quase 20%. Também provocou a renúncia do ministro Nicolás Dujovne. Ele foi substituído pelo economista Hernán Lacunza, respeitado pelos mercados e com vínculos com todos os setores do espectro político.

Após anúncios de medidas de ajuste salarial e de corte de impostos por parte do governo Macri, o homem que pode chegar à Casa Rosada em 27 de outubro deu algumas respostas sobre como vislumbra o futuro do país.

'Renegociar com o FMI'

"Eu diria que há uma única realidade incontrastável, e é que a Argentina, nestas condições, não está podendo pagar as obrigações (de crédito) que assumiu", disse ele ao jornal Clarín, ao comentar o acordo negociado pelo governo com o FMI da ordem de US$ 56 bilhões.

O objetivo da gestão Macri com os empréstimos do Fundo é tentar estabilizar o mercado cambial. "Temos que entender que estamos virtualmente em condições de default e, por isso, os títulos argentinos valem o que valem, porque o mundo se dá conta (de) que não pode pagar", lançou Fernández.

Embora tenha dito que "a Argentina deve cumprir suas obrigações", ele lembrou da negociação "um a um" com os proprietários de bônus da dívida argentina, após o default de 2001. "Tem que sentar e discutir um a um, como fizemos com a dívida naquela época. Lembrem-se de que nós pedimos aos proprietários de títulos que aceitassem um desconto de 75%", frisou. "A única solução que aparece é adiar as datas" de pagamento, disse ao jornal La Nación.

Fernández criticou ainda o acordo entre Mercosul e UE firmado após 20 anos de negociações. "O tratado não existe (...) o que existe é uma série de pontos a acertar, que vai demandar dois anos de negociação", apontou. "O que eu vou fazer com o acordo (...) é (...) tratar dele, estudá-lo, tentar tirar as maiores vantagens para a Argentina, rejeitar as coisas prejudiciais. E, se pudermos chegar a um acordo, bem-vindo seja", concluiu.

Mercosul e "prepotência" de Bolsonaro

"Me incomoda a forma e a prepotência com que fala, entre outras coisas. Mas a verdade é que o Brasil é muito mais importante do que Bolsonaro", afirmou, na entrevista ao Clarín.

"Para mim, o Mercosul é um lugar central. E o Brasil é nosso principal sócio e vai continuar sendo. Se Bolsonaro pensa que eu vou fechar a economia e que então o Brasil vai deixar o Mercosul, que fique tranquilo, porque não penso em fechar a economia. É uma discussão idiota", declarou ao La Nación, rebatendo o ministro brasileiro da Economia, Paulo Guedes.

Na semana passada, Guedes advertiu que o Brasil sairá do Mercosul, se Fernández chegar ao poder e quiser fechar a economia do bloco. 

Macri: dano, caos e inflação

A Argentina tem, hoje, pelo menos 32% da população vivendo na pobreza e uma inflação de 50% ao ano. "A única coisa que Macri fez em quatro anos foram quase 5 milhões de pobres", criticou Fernández.

"O problema central que Macri teve foi uma leitura ruim de como combater a inflação. Aí está a origem do caos econômico que se criou", alegou o candidato peronista.

Consultado sobre como controlar a volatilidade cambial que afeta o país, reiterou um dos pedidos que mais tem feito desde domingo passado: "Tentar preservar as reservas. É a única coisa que nos resta depois de todo dano que se fez".


AFP

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