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19/08/2019 | domtotal.com

Zelensky, o comediante que leva a situação na Ucrânia a sério

Zelensky fez-se eleger montado numa enorme esperança e, simultaneamente, numa compreensível dúvida

Zelensky conseguiu inflectir quase completamente as relações inquinadas com Putin, aproximando-se do Kremlin num tom impensável para os seus antecessores.
Zelensky conseguiu inflectir quase completamente as relações inquinadas com Putin, aproximando-se do Kremlin num tom impensável para os seus antecessores. (Sergei Gapon/AFP)

A Ucrânia, para quem não reparou, é o único país da Europa em guerra. Como se tornou habitual na nossa época, não é uma guerra aberta; nunca foi declarada e consiste numa sucessão de hostilidades que amiúde provocam baixas de parte a parte. De um lado da barricada está a Rússia de Putin, que não se conforma que a Ucrânia tenha saído do espaço político da antiga União Soviética, onde estava integrada desde a década de 1920. Do outro estão os nacionalistas ucranianos, divididos em vários grupos que vão dos nazis (sim, nazis) aos pró-soviéticos (isso mesmo, apesar de a URSS já não existir).

A história da Ucrânia é uma continuidade de conflitos brutais entre russos, polacos, austro-húngaros – todos os vizinhos que sempre se entenderam mal e em diversas ocasiões dividiram o imenso território – o maior país da Europa, com mais de 600 mil quilômetros quadrados – conforme os ventos sopravam mais a leste ou mais a sul. Por fim, com a implosão da União Soviética, a Ucrânia declarou-se independente em 1991 e, prudentemente, fez alianças com Rússia e a Otan, ao mesmo tempo que se declarava neutra. 

Tendo optado por um sistema político democrático, em 2004, foi eleito um presidente decididamente pró-russo, Viktor Yanukovych, numa disputa que o Supremo Tribunal considerou fraudulenta. O seu opositor, Vicktor Yushcenko, contestou o resultado e a população, maioritariamente pró-ocidental, iniciou uma série de protestos que terminou com a Revolução Laranja, em 2005, apoiada não muito discretamente pela União Europeia e Estados Unidos. 

Em 2006, Yanukovych voltou ao poder, enquanto Yushcenko definhava com uma doença misteriosa, atribuída a envenenamento. Novas eleições foram ganhas pela facção pró-ocidental dirigida por Yulia Tymoshenko, o que levou os russos a cortarem os fornecimentos vitais de gás ao país. Yanukovych tornou-se presidente em 2010, reiniciando o processo de aproximação da Rússia. Mais agitação, desta vez violenta, opôs a minoria russa, dominante no sul do país, à maioria ucraniana. Em 2014, foi eleito outro pró-ocidental, Petro Proshenko.

Para a Rússia, e para Putin, uma Ucrânia pró-europeia representava – e representa – uma questão de ordem estratégica e também ao nível tático, pois o sul do país, a Península da Crimeia, é a única saída para o Mediterrâneo da frota russa. Em 2014, vendo que não conseguia uma posição definitiva em Kiev, invadiu a península, usando tropas russas não identificadas e “separatistas” de etnia russa. A chamada República da Crimeia tornou-se uma realidade de fato, no meio duma brutal violência que fez, segundo algumas fontes, mais de 9 mil mortos. Foi nesse contexto que um avião de passageiros da Malaysia Airlines foi abatido pelos “rebeldes” pró-russos.

Embora tenha havido vários acordos de paz, nomeadamente em Genebra, ainda em 2014, a guerra continuou até 2018, com diversas ações russas de provocação e um constante atrito na península e áreas limítrofes. Mas na própria Ucrânia a situação não é pacífica, com grupos fascistas, nazistas e comunistas em permanente conflito, ameaçando as frágeis estruturas democráticas.

Estas hostilidades e mudanças de governo, aqui muito resumidas, levou a um cansaço da população, que não vislumbra de paz interna ou externa. Poroshenko continua uma política de aproximação à União Europeia, mas a UE, embora gostasse duma Ucrânia integrada à Europa, não se sente muito inclinada a provocar ainda mais os russos. Está prevista a entrada do país na União em 2020, mas as negociações arrastam-se – até porque a Ucrânia está muito longe de cumprir os requisitos econômicos e políticos necessários.

O desgaste bélico e político (a corrupção tem atravessado todos os governos) levou a que, nas eleições de março/abril (dois turnos) deste ano, fosse eleito um candidato completamente fora do sistema. Volodymyr Zelensky, comediante, era conhecido por fazer o papel de presidente da República, precisamente, numa série televisiva muito popular porque metia a ridículo as instituições e os políticos tradicionais do país. Com um partido formado à pressa, Servidores do Povo, conseguiu ser eleito no segundo turno, sem um programa muito preciso, mas com a promessa de normalizar a vida política e social do país. É de notar que os 12% da população localizados nas zonas rebeldes não puderam ou não quiseram votar.

Não é a primeira vez, no mundo, que um ator ou figura pública do espetáculo ganha eleições baseado na sua popularidade cinematográfica. Ronald Reagan, nos Estados Unidos (1981-89), e Joseph Estrada, nas Filipinas (1998-2001) são dois exemplos com resultados opostos; enquanto Reagan surpreendeu toda a gente com um mandato musculado e historicamente decisivo, Estrada foi afastado por corrupção e incompetência. Na correção das coisas, comediante é uma profissão tão digna como advogado ou engenheiro. Há até quem a ache mais confiável, mesmo sendo um profissional de efabulações.

Zelensky fez-se eleger montado numa enorme esperança e, simultaneamente, numa compreensível dúvida. Apesar de jovem e de currículo limpo, não tinha conhecimentos no meio para uma equipe com experiência política que resolvesse os aparentemente intermináveis problemas internos e externos do país.

Nestes seis meses, Zelensky, uma incógnita para russos e europeus, se não para os seus próprios eleitores e desafetos, conseguiu inflectir quase completamente as relações inquinadas com Putin, agindo com uma combinação de deliberações bem calculadas e “generosidade estratégica” (expressão usada pelo New York Times), aproximando-se do Kremlin num tom impensável para os seus antecessores. A primeira coisa que fez, logo em junho, foi telefonar a Putin, propondo um encontro sem pré-concessões. Não sabendo como funcionaria o novo líder ucraniano, o russo optou por uma série de pequenas provocações, a ver como ele reagia – tudo isto seguido atentamente pelos ocidentais. Sem a pressão nacionalista que tinha manietado Poroshenko, Zelensky apelou para os operários pró-russos do sul do país, eles também cansados com a situação de conflito permanente. Declarou um cessar-fogo que se tem mantido, retirou tropas da fronteira com o Dombass (a zona que inclui a Crimeia e dois territórios contínuos), facilitando o movimento de civis, e investiu nas cidades fronteiriças, criando uma certa prosperidade econômica.

Putin respondeu dando passaportes russos aos habitantes da zona dissidente, o que lhe permitirá investir militarmente com a desculpa de proteger cidadãos russos. Zelensky replicou dando passaportes ucranianos aos mesmos habitantes. Mas em junho apreendeu um petroleiro russo que tinha entrado em águas ucranianas – não se sabe se por acaso ou se para testar a determinação de Putin – como retaliação pela apreensão de três navios ucranianos em novembro de 2018. Ou seja, tem lidado com Putin com a mesma combinação de incidentes e determinação, de igual para igual, sem considerar a enorme desigualdade bélica entre os dois países.

Uma vantagem a seu favor é a popularidade: a série de televisão em que fazia de presidente também era muito popular na Rússia, e ainda mais na Crimeia, o que leva a que Putin pense duas vezes antes do atacar frontalmente. Recentemente reforçou essa vantagem, criando uma estação de televisão baseada na Ucrânia, que emite exclusivamente em russo. Nas sondagens de popularidade feitas na Rússia, o seu nome aparece logo a seguir a Putin. Segundo um comentador relativamente imparcial ucraniano, Zelensky tem tentado se colocar na posição da Branca de Neve, empurrando Putin para o papel da Rainha Má.

É claro que a situação de fundo não mudou, nem mudará: a Rússia quer a Crimeia, como escudo de proteção contra a Europa e como prova de que voltou à sua glória de outrora. Mas, pelo menos por ora, o conflito saiu do terreno (minado) para o ecrã da popularidade, o que é um desenvolvimento novo. Com o seu sorriso fresco e uma aparente inocência, Zelensky conseguiu pelo menos amortizar os ímpetos agressivos de Putin, sempre preocupado com a sua imagem interna e externa.

Não resolvendo o problema de fundo, a situação criada por Zelensky pelo menos diminuiu a pressão e criou espaço para uma solução mais viável, temporária que seja.

Que não se diga que os comediantes não dão bons políticos. Afinal a política, quando não é trágica, funciona como uma comédia.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova Iorque foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal.

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