Religião

20/08/2019 | domtotal.com

Sobre fezes e outras escatologias

Os cristãos precisam estar atentos e comprometidos com as ações e posturas que corroboram uma vida mais digna para todas as pessoas e para o mundo.

O nosso corpo é uma casa de finalidades, uma casa do escaton, do fim.
O nosso corpo é uma casa de finalidades, uma casa do escaton, do fim. (Pixabay)

Por Tânia da Silva Mayer*

O ser humano é finito. E essa condição o coloca sempre em confronto com a finalidade de cada coisa que há no mundo. Ademais, o fim, a terminalidade de tudo o que vive é uma realidade que se apresenta em todas as instâncias da vida. Quem nunca foi surpreendido pelo falecimento de um ente querido ou um amigo? Certamente alguém já viu morrer um animalzinho de estimação ou uma flor que espalhava sua beleza no jardim. Os cabelos negros da cabeça cedem seu lugar aos brancos e a pele vistosa sai de cena para dar lugar às rugas e às marcas de expressão. Também o fim orienta uma parcela de nossas ações que possuem prazos a serem cumpridos, como uma viagem, um curso numa faculdade etc.

O nosso corpo é uma casa de finalidades, uma casa do escaton, do fim. E o fim do corpo nos impacta tanto que acabamos por varrer, até e inclusive, nossas escatologias mais hodiernas para debaixo do tapete ou dispensá-las na lata do lixo. No fundo, consideramos nossas escatologias como lixo que deve ser eliminado em vista de uma limpeza ou purificação. O vômito, as secreções nasais, o pus do ferimento, a urina e as fezes são exemplos disso. Na maioria de nós, tudo isso causa repugnância e imediatamente queremos nos ver livres do contato com esses excrementos do corpo que demonstram não somente nossa precariedade, mas também nossas finalidades.

A sociedade contemporânea, no entanto, parece não querer ser confrontada com essa perspectiva do fim. Velamos mais rapidamente os defuntos, eliminamos dos corpos os vestígios da passagem do tempo pela nossa vida, limpamos nossas escatologias do corpo imediatamente. Nesse movimento, parecemos esperar muito mais por um recomeço, uma novidade, e não propriamente pela consumação dos processos vividos. 

O mundo está cada vez mais veloz e virtual e isso tem projetado uma realidade que se vê não sabendo lidar com o fim e a finalidade de todas as coisas. Vive-se como se nada fosse acabar e como se a própria vida não pudesse ter um fim. Por isso, discursos e posturas escatológicas, isto é, que tratam diretamente do fim e da finalidade, passam imperceptíveis, deixam-nos atônitos, de modo que nenhuma reflexão ou ação que objetivam uma experiência mais madura e consciente do fim possam ser realizadas de nossa parte.

O cristianismo vê com esperança a consumação e o fim de todas as coisas. Lá está sempre a oferta da plenitude do reino de Deus, da vida eterna e feliz, do novo céu e da nova terra. Por isso, a vida dos cristãos deve se orientar segundo essas perspectivas. O medo, o choro e a dor não terão vez. Por isso, são realidades a serem extirpadas da história, da vida e do mundo desde já, a fim de que se vislumbre os sinais da plenitude do que será definitivamente.

Nesse sentido, os cristãos precisam estar atentos e comprometidos com as ações e posturas que corroboram uma vida mais digna para todas as pessoas e para o mundo. Os leigos e leigas devem mais especificamente se envolver nas realidades mundanas e ser nelas o sal e a luz que convergem os corações ao Evangelho de Jesus Cristo. Por essa razão, requer-se, em nossos dias e em nosso país, uma postura profética da fé com relação àqueles que defecam, urinam, vomitam, excretam dos altos cargos da República na vida dos pobres, dos indígenas, dos negros e de tantas outras minorias, condicionando nossa gente trabalhadora ao vexame e a uma vida subumana. 

Esse fim predatório que se impõe contra a floresta amazônica não é, de modo algum, sinônimo de desenvolvimento. Pelo contrário, é sinal de morte que se impõe contra qualquer perspectiva de futuro e que deve ser interrompido imediatamente. Por isso, ter consciência das escatologias presentes, essas que trazem o fim como uma realidade de menos vida e de morte cruel, é o primeiro e importante passo para uma ação organizada de aprendizado e de tratamento das misérias produzidas coletivamente pelo povo.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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