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20/08/2019 | domtotal.com

O uso da madeira proveniente de demolição no estado de Minas Gerais

O desenvolvimento da consciência em relação aos problemas ambientais que nos cercam justifica a necessidade de avanços tecnológicos no uso de materiais.

As árvores que originam alguns dos tipos de madeira reaproveitadas das demolições são protegidas da extração atualmente, atribuindo exclusividade às peças geradas por elas.
As árvores que originam alguns dos tipos de madeira reaproveitadas das demolições são protegidas da extração atualmente, atribuindo exclusividade às peças geradas por elas. (Pixabay)

Por Luciana Nunes de Magalhães*

Na cadeia do desenvolvimento sustentável, a madeira é totalmente adequada aos princípios da construção ecológica. É um material de pouco consumo energético, tanto em sua fase de formação, como na fase de desdobro e aplicação. Apresenta boa resistência mecânica, proporcionando execução de estruturas leves e de grande porte, além de ser durável quando bem utilizada em um sistema construtivo adequado. O desenvolvimento da consciência em relação aos problemas ambientais que nos cercam justifica a necessidade de avanços tecnológicos no uso de materiais e processos construtivos que não causem danos ao homem e ao meio ambiente.

A tecnologia para substituir materiais com grande impacto ambiental, que possibilita a manutenção dos níveis de dióxido de carbono, menor consumo de energia durante o processo e redução da emissão de gases do efeito estufa, é um exemplo de sustentabilidade. Em função deste panorama e da preocupação ecológica hoje existente, a madeira ganha espaço no setor da construção civil.

São de conhecimento as constantes modificações e adequações em edificações antigas que ocorrem nas construções. Assim, os materiais retirados das demolições, muitas vezes em excelente estado de conservação, como é o caso das madeiras de piso, vigas e pilares, portas e esquadrias em geral, podem ser aproveitados. O Brasil possui uma forte tradição construtiva em alvenaria de tijolos e um grande preconceito em relação à madeira, herdados de nossos colonizadores portugueses e consolidados pelo uso inadequado do material. A gradual eliminação desses obstáculos pode ser adquirida através da divulgação dos conhecimentos tecnológicos que levem à utilização correta desse material, garantindo, assim, desempenho, durabilidade e qualidade estética adequadas. No referido contexto aliado a questões econômicas, devemos considerar as aplicações e avaliar as responsabilidades e benefícios que trazem as madeiras de demolição.

Aplicações

As árvores que originam alguns dos tipos de madeira reaproveitadas das demolições são protegidas da extração atualmente, atribuindo exclusividade às peças geradas por elas. Das casas antigas mais comuns são as espécies de peroba rosa, jacarandá, ipê, canela, pinho e riga, encontradas nas zonas rurais onde os antigos donos eram quase sempre pessoas de baixa renda e que trabalhavam em plantios no campo. Por isso, construíam suas casas de madeira por ser a alternativa de baixo custo. Essas edificações apresentam esse material em abundância, ou seja, no teto, no chão, nas paredes e nas esquadrias o que garante uma variedade de tamanhos e formatos de madeira a serem aplicadas em várias situações de uma construção, desde peças estruturais a mobiliário.

As toras de madeira de grande diâmetro e de boa resistência ao tempo encontrados no interior de Minas são dormentes de ferrovia que, feitos com ipê, jacarandá, peroba, jatobá, angelim, carvalho e outras espécies, antes de serem colocados nos trilhos, passavam por uma espécie de estufa para aumentar sua resistência, permitindo que ficassem anos e anos na ferrovia e ainda podendo ser reaproveitados. A utilização desses dormentes em peças estruturais agrega valor estético e boa resistência mecânica. Por fim, as cruzetas retiradas de postes de luz em áreas rurais têm texturas irregulares, ranhuras e marcas bem particulares sendo muito valorizadas nos produtos que usam madeiras de demolição como mobiliário.

Todas as peças de demolição, depois de retiradas da obra, recebem tratamento adequado antes da nova aplicação. Na fase da produção, recebem tratamento térmico para garantir resistência e posterior estudo de uso. De forma geral, além das peças estruturais, as esquadrias, pisos, escadas e decks representam a versatilidade de uso e aplicações na construção civil dependendo da criatividade do profissional responsável pelo projeto.

Responsabilidades

Uma matéria-prima versátil, entretanto, nem sempre a demolição de uma obra civil é necessária, muitas vezes é possível restaurá-la e aproveitar seus materiais nesta mesma obra. Quando se trata de patrimônio cultural de uma cidade, deve-se então observar atentamente essa possibilidade.

Os casarões que foram construídos pela sociedade no passado são importantes fontes de pesquisa e preservação cultural, representam uma época importante da história do Brasil e, portanto, fazem parte de nossa memória cultural. Torna-se necessário, então, uma avaliação criteriosa para evitar abusos e uso inadequado do material. Por outras situações, faz-se necessário a demolição quando há risco de desabamentos e consequente risco à população local. Podemos citar dois exemplos de situação relacionados à necessidade de demolição. 

 

O primeiro exemplo é o de um antigo casarão que pertencia ao professor Euclides Dantas e foi demolido no Município de Vitória da Conquista, interior da Bahia. O espaço, localizado na Rua João Pessoa, foi um pensionato para estudantes e estava abandonado havia muitos anos. Devido à destruição pelo tempo e falta de manutenção, o passeio em frente a casa foi completamente interditado, causando danos ao tráfego local e ameaçando por desabamento a população, não restando dúvidas pelos avaliadores competentes da necessidade de demolição.

Numa segunda situação (abaixo), o Casarão do Coronel Farnese Maciel, no Município de Patos de Minas, Minas Gerais, abriu um precedente que ameaçou seu patrimônio histórico. A casa, em estilo colonial, era uma das mais antigas construções do município. Foi de lá que o coronel comandou os destinos da cidade durante 60 anos, até 1940. Ainda assim, infelizmente, os proprietários do imóvel receberam autorização da prefeitura para fazer a demolição no ano de 2008.

Pelos exemplos, refletimos sobre a realidade dos motivos pelos quais levam à demolição de algumas obras históricas importantes e fica entendido, portanto, que, ao se tratar de madeira de demolição, deve-se tomar cuidado com a procedência dos materiais para não se tornar um participante de atitudes ilegais que prejudiquem a cultura e o patrimônio brasileiro.

Benefícios

A sustentabilidade fez despertar o interesse pela reutilização de madeiras que seriam descartadas e ainda tratando-se de um produto de origem natural e renovável, cujo processo produtivo exige baixo consumo energético, atóxica, considerada segura ao toque e manejo.

Quando todos parecem ter olhos para o novo, a madeira de demolição surge na contrapartida, proveniente de casarões e galpões antigos, encanta pelos vestígios impressos na superfície – riscos, veios profundos, restos de tinta. Percebe-se no mercado a inserção de materiais novos que tentam recriar esses benefícios como a textura, cores e padrões estéticos em geral do material antigo. Entretanto, o conforto ambiental que proporcionam, bem como o aspecto rústico e a versatilidade que agrada a tantos decoradores e arquitetos, dificilmente podem ser recriados. Recuperada de casarões, igrejas ou outras construções antigas que a utilizaram, além da estética, a madeira de demolição agrega valor histórico ao objeto, e algumas peças podem ter até 200 anos de história. Portanto, arquitetos cada vez mais optam pelo material “madeira de demolição” em seus projetos que se tornaram sinônimo de bom gosto e sustentabilidade na construção civil brasileira.

*Luciana Nunes de Magalhães é professora da Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE)

EMGE

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