Religião

21/08/2019 | domtotal.com

Não é cristã a pretensa superioridade do cristianismo

Abrir mão da pretensa superioridade, talvez, seja uma das tarefas mais difíceis para o cristianismo contemporâneo.

Um dos pontos mais comuns, e talvez menos perceptível numa suposta tentativa de diálogo, é a questão da superioridade.
Um dos pontos mais comuns, e talvez menos perceptível numa suposta tentativa de diálogo, é a questão da superioridade. (Pixabay)

Por Fabrício Veliq*

Dialogar nunca foi algo fácil de fazer. Qualquer pessoa que tenha que conviver com outra, em algum momento, enfrentará o desafio de comunicar a si mesma e, ao mesmo tempo, ouvir a comunicação que venha da outra pessoa com quem se convive.

Um dos pontos mais comuns, e talvez menos perceptível numa suposta tentativa de diálogo, é a questão da superioridade. E, logicamente, a palavra suposta aqui tem um papel importante. Isso porque todo diálogo pressupõe a igualdade de dignidade entre as pessoas que vão para esse diálogo. Se um dialogante se considera superior ao outro, dificilmente dali se espera que saia um diálogo nos moldes tradicionais. No lugar, geralmente o que ocorre são tentativas de convencimento da outra pessoa, ou falsas disposições de ouvir o que esta tem a dizer.

No que tange ao diálogo interreligioso o mesmo acontece. É muito comum, principalmente no meio cristão ocidental, este se considerar superior às outras religiões com as quais propõe um diálogo. Na maioria das tentativas, ao longo da história, o cristianismo sempre se colocou como aquele que detém a verdade absoluta e como o responsável por anunciar essa verdade a todas as nações.

Nesse bojo, consequentemente estão as nações cuja religião majoritária não é o cristianismo. Assim, tornou-se comum que quando uma pessoa cristã chega à determinada região em que o cristianismo não é a religião oficial, sinta-se impelida a converter toda aquela área para aquela que considera a religião mais suprema de todas e que, coincidentemente, é a dele.

Quando isso acontece, as propostas de diálogo vão para o lado proselitista, ou seja, tenta-se de todos os modos mostrarem que as outras religiões estão erradas e o cristianismo possui todas as respostas corretas para todas as questões da humanidade. As outras religiões, por sua vez, se mostrariam como tentativas de dar respostas sem, contudo, alcançar a profundidade delas, necessitando, assim, que o cristianismo chegue e anuncie os termos e conceitos corretos e necessários para se agradar a Deus.

Essa posição de superioridade inviabiliza todo o diálogo e, ao mesmo tempo, está longe do conceito de encarnação proposto por Jesus, e anunciado nos Evangelhos. A encarnação, que quer dizer “assumir a carne do mundo” revela que Deus se fez humano ou, em outras palavras, assumiu a realidade do mundo como sua própria realidade, a fim de revelar quem ele realmente é, ou seja, total doação e total amor para com aqueles e aquelas a quem ama.

Esse humilhar-se do Criador ao nível da criatura revela que toda pretensão de superioridade deve ser, a exemplo de Cristo, deixada de lado, o que sem dúvidas, tem consequências para toda e qualquer proposta de diálogo, seja comum, seja interreligioso. A encarnação mostra que para revelar Deus é necessário estar disposto a se entregar como ele também se entregou e amar como ele amou. Em outras palavras, a encarnação revela que é somente no amor e por meio dele que é possível dizer quem Deus é.

Assim, se a identidade cristã está baseada na identidade de Cristo, então toda pessoa cristã, quando se propuser a dialogar, deve abandonar a ideia de se considerar melhor do que aquele ou aquela com quem se dialoga. No nível macro, o cristianismo deve abrir mão de sua pretensão de superioridade e se colocar como a menor religião de todas, a mais humilde, a que está disposta a aprender com as outras em reciprocidade, considerando essas religiões tão dignas de fala como o próprio cristianismo se considera, sem com isso perder sua identidade, que é Cristo e seu modo de ser, que é amor. Ao fazer isso, coloca em prática aquilo que Jesus ensinou quando disse: “quem quiser ser o primeiro entre vós, seja o último e servo de todos” (Mc 9,35).

Abrir mão da pretensa superioridade, talvez, seja uma das tarefas mais difíceis para o cristianismo contemporâneo, que durante muito tempo se acostumou a ser a maior religião do mundo e o responsável por ditar os padrões éticos, morais, sociais e culturais da humanidade.

Ainda que a partir da modernidade isso não seja mais uma realidade, permanece em muitos líderes e pessoas cristãs a ideia de que o mundo precisa se converter ao cristianismo para que ele seja um lugar melhor, esquecendo que, seguindo os ensinamentos de Jesus, não devemos pretender ter um império cristão sobre os outros, mas, como sal na comida, desaparecer no mundo para, por meio do amor, fazer a real diferença que esta terra aguarda ansiosamente.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bacharel em Filosofia (UFMG) E-mail: fveliq@gmail.com

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