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20/08/2019 | domtotal.com

Repulsa e fascínio em Mindhunter

Mindhunter conta a gênese da investigação policial comportamental.

Passaram a visitar penitenciárias federais com o objetivo de conversar com assassinos condenados para entender seus mecanismos de funcionamento e seus modos de operação.
Passaram a visitar penitenciárias federais com o objetivo de conversar com assassinos condenados para entender seus mecanismos de funcionamento e seus modos de operação. (Divulgação)

Por Alexis Parrot*

Dois anos depois, a série Mindhunter retorna para quebrar a maldição da segunda temporada, verdadeira infecção que assola a maioria quase absoluta das séries de TV. Os novos episódios estão à altura dos antigos e vão além: dão sequência verossímil ao arco narrativo do programa e devassam ainda mais a psique dos protagonistas, com todas as consequências que o pesado trabalho traz para suas vidas pessoais.   

Baseada em acontecimentos reais, Mindhunter conta a gênese da investigação policial comportamental, quando o FBI começou a trabalhar com a construção de perfis psicológicos para afunilar a busca por suspeitos de crimes em série, nos final dos anos 1970. Para tanto, passaram a visitar penitenciárias federais com o objetivo de conversar com assassinos condenados para entender seus mecanismos de funcionamento e seus modos de operação.

O fascínio dos agentes interpretados por Jonathan Groff e Holt McCallany é compartilhado pelo público, à medida em que penetram na mente dos mais célebres serial killers já produzidos pelos EUA e seu American way of life.

Os crimes cometidos por estes homens são da ordem do inominável mas, apesar disso, quanto mais os ouvimos descrever as minúcias de seus atos, mais desejamos saber e mal podemos esperar para descobrir qual será o próximo assassino a ser entrevistado.    

Lá no primeiro episódio do primeiro ano da série já fica explícito sobre qual material Mindhunter é construído e o porquê de nos interessarmos por um tema que deveria causar repulsa. Em uma preleção para policiais de uma delegacia do interior de Iowa, o personagem de Groff mata a charada ao dizer: "Por que nos comportamos da maneira como nos comportamos? É uma pergunta feita por poetas, filósofos e teólogos desde tempos imemoriais. É o playground de Shakespeare, Dostoievsky e Freud." 

Evidentemente, há um quê de mórbido e perverso tanto nos responsáveis pela criação e realização da série quanto em todos nós que nos colocamos à disposição para assisti-la – coisa que se faz sofregamente, diga-se.   

Testemunhar a recriação dessas entrevistas, vislumbrar o horror dos crimes cometidos e ter a impressão de que passamos a conhecer e entender melhor essas pessoas, acaba nos tranquilizando de alguma maneira. Ao nos depararmos com o retrato da monstruosidade, respiramos aliviados por não nos reconhecermos nestes monstros. Com isso, somos capazes de reafirmar nossa própria humanidade.    

Por trás de tudo isso está David Fincher, o responsável por Clube da luta e A rede social (dois grandes filmes que comentam de maneira implacável o que significa viver no mundo de hoje), além de Seven, obrigatório em qualquer antologia do cinema policial que minimamente se preze. É autor também de Zodíaco, que recria a trajetória do serial killer homônimo, atuante no norte da Califórnia, entre o final dos anos 60 e início dos 70. Mindhunter é descendente direto deste filme.

Ao servir como produtor executivo e dirigir os primeiros episódios de cada nova leva, é ele que dá o tom e determina ritmo e estilo para todo o programa.

A chegada da segunda temporada da série coincidiu com a estreia no Brasil do novo Tarantino, Era uma vez em Hollywood. A trama do filme aborda os assassinatos da Cielo Drive, em Los Angeles, ocorridos há exatos 50 anos e cuja vítima mais proeminente foi Sharon Tate, atriz em ascensão à época, casada com o cineasta Roman Polanski e grávida de oito meses no momento em que foi morta.

O crime foi cometido por alguns seguidores do culto capitaneado por Charles Manson, ao qual se referia como sua "família". Além de ter virado personagem do diretor de Pulp fiction, Manson também surge nestes novos episódios de Mindhunter, porém, já encarcerado, dez anos após a famosa chacina.   

Curiosamente, é o mesmo ator, Damon Herriman que interpreta o psicopata tanto no filme quanto na série. A suposta coincidência, além do personagem em comum, serve apenas para aproximar mais ainda o trabalho dos dois diretores.

Fincher e Tarantino são, provavelmente, os dois realizadores mais elegantes em atividade no cinema norte americano. Muito embora trabalhem em duas claves bem marcadas (o primeiro em bemol e o segundo em sustenido), a argila com que ambos moldam suas obras é a mesma: o crime e a violência.

Enquanto Fincher abraça o mistério e prefere, via de regra, o ponto de vista daqueles que investigam, Tarantino se alinha com os marginais, os que cometem os crimes e os anti-heróis. Ao escolher corners opostos dentro do mesmo espectro, tudo aquilo que neles possa ser divergente acaba se tornando também complementar.

A violência que explode (até anulá-la, por excesso) em filmes como Cães de aluguel e Kill Bill, ou na cena final de Era uma vez em Hollywood – de tão exagerada, mais parece um desenho animado do Tom e Jerry – encontra um contraponto no cinema policial do diretor da também bem-sucedida House of cards.

Da violência, vemos apenas os rastros e suas consequências, à medida que seguimos o trabalho detetivesco na busca da elucidação dos crimes – como em Seven, Zodíaco e neste Mindhunter.

Se Tarantino é acelerado, Fincher parece não ter pressa alguma para contar suas histórias e Mindhunter não foge à regra. Desde o inicio da série, acompanhamos algumas enigmáticas inserções do cotidiano de um aparentemente pacato cidadão, baseado geograficamente em uma cidadezinha do Kansas. Nesta segunda temporada as inserções continuam e, mesmo com a tensão crescendo a cada nova entrada do personagem, nada foi amarrado em termos de narrativa por enquanto.

Especula-se que possa ser o retrato da formação de mais um serial killer da vida real, Dennis Radder, o Estrangulador BTK, como ficou conhecido. A ideia é muito boa e a maneira como é pacientemente encaixada na trama mostra inventividade e uma visão do todo rara de se encontrar na televisão.

Enquanto os agentes seguem com seu projeto visando entender melhor como funciona a cabeça de um psicopata, de tempos em tempos somos apresentados a este caso que reverbera na prática toda a teoria que vai sendo montada literalmente no subsolo do FBI.

O Monstro de Atlanta é a investigação de campo que toma boa parte da temporada e a grande chance dentro da história para que as novas técnicas de investigação baseadas nos estudos comportamentais sejam efetivadas de vez pelo bureau federal.

Contra a força policial surgem vários obstáculos (todos muito bem utilizados como nós dramáticos) como a burocracia das instituições públicas, os interesses políticos dos diversos atores envolvidos na trama e, evidentemente, o tempo. Quanto mais demorada a descoberta do culpado, a tendência é que mais e mais inocentes morram. 

Um possível assassino acaba sendo encontrado e acusado, mesmo não se encaixando exatamente no perfil psicológico produzido pelo FBI. Mais uma vez, algo surge para questionar a infalibilidade da técnica, mesmo entre seus criadores – o que serve ao espírito da série que não pretende endeusar ninguém.

A maneira inteligente com que o roteiro trabalha o comportamento de cada personagem face à adversidade, à frustração e à dúvida é o ponto alto do programa, aliada a uma interpretação impecável do elenco principal, mas sobretudo dos coadjuvantes. A praga do feel good movie passou longe daqui.

Ao encarar de frente e discutir com seriedade o que de pior a humanidade é capaz de produzir, Mindhunter aborta qualquer possibilidade de condescendência com o público. Parece pouco, mas ter a coragem de ir na onda oposta da grande maioria dos conteúdos de TV disponíveis hoje é um mérito indiscutível. 

(Mindhunter – segunda temporada disponível no Netflix.)

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o Dom Total.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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