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22/08/2019 | domtotal.com

Aves mortíferas

Nem eu nem ninguém imaginava que fosse possível fazer um filme de terror protagonizado por aves, esses bichinhos que voam que nem anjos.

Mas eis que de repente o próprio Hitchcock me faz pensar que a obra do demônio é o próprio homem, e não a Natureza.
Mas eis que de repente o próprio Hitchcock me faz pensar que a obra do demônio é o próprio homem, e não a Natureza. (Divulgação)

Por Afonso Barroso*

Há uma frase atribuída ao poeta inglês William Blake, segundo o qual “a natureza é obra do demônio”. Tem hora que parece mesmo, embora o criador de tudo tenha sido Deus, e não o diabo. A natureza às vezes se revolta de tal forma que dá a impressão de ter alma diabólica. Terremotos, tufões, vulcões, tempestades, tornados, tsunamis, inundações e outros fenômenos medonhos não têm nada de divino.

Essa reflexão me vem à mente toda vez (e já são várias) que assisto ao impressionante filme Os pássaros, de Alfred Hitchcock. Nem eu nem ninguém imaginava que fosse possível fazer um filme de terror protagonizado por aves, esses bichinhos que voam que nem anjos. Pois é isso que faz o genial mestre do suspense, que de repente se revela um mestre do terror. São mesmo aterrorizantes as cenas desse filme, produzido com notáveis efeitos especiais no início da década de 1960, época em que os recursos do cinema eram ainda precários, bem longe da tecnologia de hoje.

Mas eis que de repente o próprio Hitchcock me faz pensar que a obra do demônio é o próprio homem, e não a natureza. Quando um repórter perguntou a ele o significado do filme, ele respondeu com esta explicação: “Os pássaros estão cansados de serem mortos, depenados e comidos pelos homens. Então, eles decidem se vingar. Um dia se agrupam e mergulham sobre as pessoas em um pequeno vilarejo”. 

Essa explicação simples do genial diretor faz todo sentido, pois é o homem que provoca a natural revolta da natureza quando a agride sem piedade de todas as formas conhecidas. É ilusão pensar que ficariam impunes a matança de animais, as queimadas, o desmatamento, o esgoto e o lixo despejados nos cursos d’água, nos lagos e no mar. 

Suspense e terror se misturam nas cenas desse filme, sem dúvida uma das obras primas do cinema. Numa delas, o personagem Mitch, interpretado pelo ator Rod Taylor, precisa caminhar no meio de centenas de gaivotas pousadas num terreiro, ocupando o amplo espaço em assembleia sinistra. Ele pisa com extremo cuidado para não acender a irritação das aves, que parecem dispostas a atacá-lo a qualquer momento. Esses pássaros aparentemente inofensivos se transformam, sob a direção de Hitchcock, em temíveis aves de rapina, reunidas para liquidar com os seres humanos.  

Em outra cena de terror e alta tensão, a personagem Melanie, interpretada pela então novata atriz Tippi Hedren, abre sem o devido cuidado a porta da casa e é atacada violentamente por uma centena de gaivotas e corvos que a ferem quase mortalmente. Desmaiada, ela é resgatada a custo pelo namorado Mitch, que consegue, a duras penas, puxá-la para dentro. As aves dessa cena parecem feras assassinas aladas, assim como as de outras sequências. A localidade de Bodega Bay, ao sul da Califórnia, vive dias de um terror que supera até mesmo o suspense característico de Hitchcock.

Os pássaros é considerado um dos cinco filmes mais aterrorizantes do cinema, no nível de O exorcista. Conta-se que Hitchcock se inspirou em um acontecimento ocorrido em Monterey, também na Califórnia, onde bandos de aves marinhas começaram a se chocar contra casas, deixando em pânico a população. Apurou-se que o comportamento daquelas aves foi causado pela ingestão de um produto tóxico que se derramou nas águas do oceano e contaminou algas que serviam como alimentos dos passarinhos. Debicaram e endoidaram. Mas, nesse caso, não tinham como alvo os humanos, apenas agiam como loucas, espatifando-se contra paredes e outros obstáculos. 

A sequência final do filme é outra sacada genial de Hitchcock. Não há o The end tradicional. O fim está longe. As personagens conseguem fugir de carro, deixando para trás as aves assassinas, que certamente continuarão a atacar os humanos, não se sabe se apenas na pequena aldeia ou também no resto do mundo.

 Os pássaros. Um filme que atemoriza e faz pensar.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

EMGE

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