Religião

06/09/2019 | domtotal.com

Capitalismo e religião

A soteriologia capitalista crê que a salvação vem do capital, que é oferecido pelo sistema financeiro através do mercado. Arremedo do Filho que é dado pelo Pai por meio do Espírito.

Diante do horizonte de um capitalismo subjacente nas religiosidades de massa, urge a necessidade de anunciar o Deus revelado por Jesus de Nazaré.
Diante do horizonte de um capitalismo subjacente nas religiosidades de massa, urge a necessidade de anunciar o Deus revelado por Jesus de Nazaré. (Reprodução)

Por César Thiago do Carmo Alves*

Na sociedade contemporânea, a economia de mercado ocupa um lugar central. Em última análise, é ela que dita as leis de formatação da sociedade. Prova disso se manifesta no fato de que a própria política de países cujo sistema econômico é o capitalismo está preocupada quase que exclusivamente com o crescimento econômico, com o PIB (Produto Interno Bruto), com as transações comerciais, com as bolsas de valores etc. Qual é a relação dessa economia de mercado com a religião?

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Toda religião tem aquilo que fascina, isto é, o mistério. Esse é importante e necessário. Ele conduz à mística. No cristianismo, esse mistério é Deus, em seu infinito amor, bondade e doação. Contudo, ao pensar no capitalismo como religião, qual é o mistério inerente nele que conduz à mística? Esse é o desejo. No entanto, esse sistema é revelado como sistema de mercado.

Essa religião tem em si uma teologia. É a idolátrica. "As teologias idolátricas se reduzem, basicamente, a um único modelo fundamental, embora admitam variações de acordo com o 'material histórico' que configura sua proposta" (MO SUNG, 1994, P.217-218). A teologia idolátrica permite uma dupla forma de experiência religiosa. Elas são diferentes, separadas e sem relação. A primeira é a mais importante. Consiste na devoção ao ídolo. No caso da "religião econômica", esse ídolo é o dinheiro. A segunda se refere à adoração a outros deuses. Contudo, eles têm que ser totalmente a-históricos, uma vez que o ídolo é histórico. Sendo assim, a teologia idolátrica deixa aberta a possiblidade de uma vivência religiosa de forma paralela à "religião econômica".

Há também uma soteriologia presente na "religião econômica": quem salva é o capital. Do mesmo modo que no cristianismo pensa-se na soteriologia numa perspectiva trinitária, isto é, o Pai doa o Filho pelo Espírito, também se pode pensar trinitariamente na soteriologia capitalista: o sistema econômico oferece o capital através do mercado. O que se exige dos devotos é o ato de fé nessa trindade capitalista. Desse modo, eles serão salvos, pois fora do capital não há salvação. Fora dele todos estão condenados à perdição eterna e, assim, não farão parte do paraíso prometido.

Elemento importante a se destacar é o sacrifício, uma vez que em seu interior a "religião econômica" abarca uma teologia sacrifical. O sacrifício operado por essa religião é de pessoas, todavia não de qualquer pessoa, mas uma categoria específica: os pobres. Contudo, há também outras manifestações do sacrifício idolátrico, como por exemplo, a destruição da natureza em nome do deus dinheiro. Esse exemplo é evidenciado no caso brasileiro a partir da atual e irresponsável política ambiental do governo Bolsonaro.

Os direitos humanos, conquista importante no processo de evolução da sociedade, que buscam assegurar a integridade da pessoa e seu valor, na lógica da teologia do sacrifício do mercado estão sendo, paulatinamente, eliminados. Afinal, o mais importante e necessário são os direitos do mercado. "Os direitos do mercado substituem os direitos humanos. Isto explica por que nossa sociedade continua falando tanto e com tanta intensidade dos direitos humanos. De fato, agora se trata quase exclusivamente de direitos do mercado e no mercado" (HINKELAMERT, 1998, p.13[213]).

A teologia idolátrica da "religião econômica", além de apresentar um falso deus, também coloca o ser humano como secundário, de modo particular os pobres. A vida humana fica relegada a segundo plano em detrimento do capital.

É justamente essa teologia da "religião econômica" que se pode constatar nas religiosidades de massas. Ela convive perfeitamente com uma certa apresentação do divino cristão. Deus não é anunciado como o revelado por Jesus Cristo. Tampouco a pessoa de Jesus é apresentada a partir de sua historicidade. Busca-se um Deus, um Jesus que não se implicou com a história. É totalmente metafísico. Como anunciado, sua vida, morte e ressurreição não leva a implicar o ouvinte do anúncio na solidariedade com os mais sofredores. Diferentemente, é intimista e a preocupação são as soluções dos problemas pessoais que geralmente se resumem em três áreas: saúde, amor e finanças. Com isso, se anestesia a reflexão crítica do seguimento de Jesus e o comprometimento social e eclesial, dando espaço para o reinado do capital. Esse não é questionado em nenhum momento. Numa rápida olhada nos programas religiosos que são exibidos na TV pode-se constatar a exploração financeira dos fiéis, que em sua maioria são pessoas pobres, com promessa de uma recompensa. Tal exploração é o sacrifício pedido pela "religião econômica". É a teologia da prosperidade em cena. Essa teologia é irmã da teologia idolátrica.

Diante do horizonte de um capitalismo subjacente nas religiosidades de massa, urge a necessidade de anunciar o Deus revelado por Jesus de Nazaré. O Deus cristão é um Deus que faz opção pelos pobres. Eles não são os que devem ser sacrificados, ao contrário, são os mais pobres que necessitam de atenção, cuidado, amor e garantia dos direitos fundamentais. Se Jesus revela o Pai, em suas ações narradas nos Evangelhos, essa opção fica evidente. Sacrificá-los é não agradar a Deus e ir contra a sua vontade. A vontade de Deus é que os pobres tenham vida plena e as religiões cristãs têm a tarefa inexorável de serem promotoras das condições da dignidade humana.

Referência

MO SUNG, Jung. Teologia e economia: repensando a teologia da libertação e utopias. Petrópolis: Vozes, 1994.

HINKELAMERT, Franz. A economia no atual processo de globalização dos direitos humanos. RIBLA, Petrópolis, n.30, p. 9[209]-17[217], 1998.

*César Thiago do Carmo Alves é doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia e Teologia. Possui especialização em Psicologia da Educação. É membro do grupo de pesquisa Teologia e diversidade afetivo-sexual da FAJE.

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