Brasil Cidades

23/08/2019 | domtotal.com

De consensos e burrices

Autoridade e autoritarismo são duas coisas muito diferentes.

Porque buscar consensos também pode esconder uma tremenda covardia.
Porque buscar consensos também pode esconder uma tremenda covardia. (Pixabay)

Por Fernando Fabbrini*

O poeta está diante de sua escrivaninha, coçando a careca e tendo à mão uma caneta Parker 61. Ele rabiscou as primeiras linhas de um novo poema. Súbito, levanta-se; corre até o telefone preto, discando o número de um amigo. O sujeito atende:

- Oi Manuel? Tudo bem? Olha, estou com uma dúvida ...

- Pois não, Carlos, às ordens...

- Bem... Estava andando no meio do caminho e tinha uma pedra. Então, pensei ... E se fosse uma garrafa vazia? Um sapato velho? Um galho seco... O que acha?

Manuel, relutante, deu a sua opinião. Carlos anotou-a num papelzinho. Depois ligou para João, Mário, Rubem, Murilo, Vinicius, perguntando a mesma coisa. Cada um defendia sua preferência em torno do objeto no meio do caminho. No fim da tarde, atormentado, Carlos jogou as anotações no lixo e deixou “pedra” mesmo, como pensara desde o início.

Outra cena: o centro cirúrgico de um grande hospital. Sedado, o paciente vai receber um transplante de coração. O médico, experiente e seguro, toma o bisturi, ergue-o. Porém, interrompe o gesto no ar:

- Peraí... Vamos decidir em conjunto, pessoal.

O anestesista, as enfermeiras e os assistentes se entreolham. O cirurgião prossegue:

- Vejamos ... Vocês preferem que o corte no peito seja na vertical ou na horizontal? E as costelas? Serro o esterno ao meio ou só do lado esquerdo?

O comandante de um navio, tendo à frente um gigantesco iceberg, reúne a tripulação no convés:

- Marujos, devemos virar o leme para bombordo ou estibordo? Reduzimos a velocidade ou aceleramos? Decidam e me falem, tá? Tô lá na cabine, cochilando.

Autoridade e autoritarismo são duas coisas muito diferentes. O povo – principalmente os jovens – anda confundindo. Para a garotada que nem arruma a própria cama, qualquer obrigação banal vira “autoritarismo”. Na mesma onda, muitos adultos, com medo de passarem por “autoritários”, preferem coletivizar todas as decisões, fazendo-se de “legais”. Qualquer bobagem e lá vêm assembleias, polêmicas, discussões infindáveis. Todos se agarram às suas minucias, fincam o pé, criam casos, não resolvem nada e fica tudo adiado para o próximo debate.

Nelson Rodrigues dizia que toda unanimidade é burra. Uma piada antiga entre os criativos da área de publicidade alerta que o camelo era pra ser um cavalo – mas, por azar, caiu nas mãos de um grupo de trabalho e virou aquilo.

Enfim: decisões em grupo, comitês, colegiados, coletivos e assemelhados funcionam em certos casos, com certeza. Mas não exageremos. Porque buscar consensos também pode esconder uma tremenda covardia. De fato, o que é decidido “em conjunto” é também muito cômodo. Se der errado, ninguém assumirá a responsabilidade; todos lavarão as mãos, aliviados. Tiraram os seus da reta.  

O pessoal do prédio vizinho está há um ano escolhendo a cor para pintar a grade da frente. Deu até briga na reunião de condomínio. Penso que deveriam aceitar a sugestão da arquiteta encarregada da reforma – uma autoridade no assunto. E você, caro leitor, o que acha? Nem me fale.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O Tempo.

TAGS


EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!

Comentários


Outros Artigos

Não há outras notícias com as tags relacionadas.

Instituições Conveniadas