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25/08/2019 | domtotal.com

Vícios e maus hábitos

Uma diferença fundamental entre vícios e maus hábitos, está na libertação de seus domínios.

Os vícios, quase sempre são acompanhados de alterações na homeostasia da pessoa
Os vícios, quase sempre são acompanhados de alterações na homeostasia da pessoa (Pixabay)

Por Evaldo D'Assumpção*

Em que pese a semelhança de vícios com maus hábitos, há entre eles uma razoável distância. Hábitos são atitudes que se toma com frequência, muitas vezes de forma pouco consciente. Faz-se aquilo porque se está habituado – daí o seu nome – ou porque dá prazer, alivia tensões, proporciona gratificações. Ou tudo isso junto. Contudo, existem os bons e os maus hábitos. Os bons são saudáveis e não causam prejuízo algum a si próprio, tampouco aos outros. Já os maus, mesmo causando algum grau de satisfação ou prazer, suas consequências são quase sempre danosas para quem os tem, para as pessoas próximas, e para o meio ambiente.

Uma diferença fundamental entre vícios e maus hábitos, está na libertação de seus domínios. Os maus hábitos, quase sempre podem ser excluídos através de educação e autocontrole. Que pode ser feito sozinho, ou com ajuda eficiente e persistente. Já os vícios, quase sempre são acompanhados de alterações na homeostasia da pessoa, criando dependência química que dificulta a sua eliminação. Em comum, está o fato de que, seus portadores quase sempre negam, peremptoriamente, que os têm.

Nosso corpo tem um equilíbrio bioquímico, e várias substâncias, como por exemplo os neurotransmissores, são essenciais para inúmeras funções do organismo. Vícios, como o tabagismo, o alcoolismo, a drogadição, levam para o organismo substâncias químicas que lhe são nocivas, e que competem, impedem ou substituem a ação desses transmissores. O sistema bioquímico do viciado fica dependente daquelas substâncias, e sua falta irá provocar-lhe reações desagradáveis, e até limitantes. Somando-se a essa ação química, os efeitos psíquicos euforizantes, estimulantes ou tranquilizantes que também provoca, estabelece-se a dependência de difícil superação.

Sabe-se que a sensibilidade das pessoas às substâncias viciantes é bastante variável. Algumas possuem uma condição genética mais resistente, levando algum tempo de uso para que tais produtos as tornem viciadas. Outras já são bem mais sensíveis, e com algumas poucas experiências já se tornam totalmente dependentes. Portanto, é prudente e muito importante que ninguém faça uso experimental de nada desse tipo, pois uma simples brincadeira, poucas vezes repetida por pessoa mais sensível, pode causar-lhe enorme dano por toda a sua vida.

Como já foi dito, raramente um viciado se reconhece como tal. A maioria nega e diz que aquilo é só um hábito, do qual consegue se livrar facilmente, na hora que quiser. O problema é que eles nunca querem, e assim vão se afundando no mau hábito até chegar à condição de viciados. E como tal, só com cuidados profissionais, e com muito e penoso trabalho, em alguns casos é possível livrar-se desse mal. Infelizmente, nem todos conseguem.

Maus hábitos e vícios não se referem somente ao uso de substâncias químicas, mas também a comportamentos, e principalmente hoje, à utilização de equipamentos eletrônicos, também capazes de produzir alterações bioquímicas e psíquicas, que igualmente geram dependência de difícil superação. Jogos eletrônicos e telefones celulares são hoje os mais fortes competidores da morfina, da cocaína e assemelhados. Com frequência, estando associados.

O vício em jogos eletrônicos, desde junho de 2018 consta na 11ª Classificação Internacional de Doenças (CID), tendo nela sido incluído pela Organização Mundial de Saúde (OMS), e sendo descrito como um "padrão de comportamento persistente ou recorrente", que pode se tornar tão intenso que "toma a preferência sobre outros interesses da vida". Ou seja, a gratificação proporcionada por esses jogos é equivalente àquela dada pelos estupefacientes aos viciados em drogas. Há pessoas que se isolam do mundo, trancam-se em seus quartos, e nele passam dias sem se alimentar adequadamente, nem sair para nada, jogando desvairadamente.

De modo análogo, o mesmo acontece com os telefones celulares, os chamados smartphones, já havendo inclusive uma denominação para essa verdadeira doença psíquica: nomofobia. Essa palavra foi usada pela primeira vez na Inglaterra, e é formada da frase no mobile fobia, que significa pânico pela privação de um telefone móvel. Naquele pais, entre os jovens de 18 a 24 anos, 76% sofrem desse mal. 

No Brasil existem 230 milhões de smartphones em uso, para uma população de 210 milhões de habitantes. Mas ainda não temos estatísticas de nomofóbicos em nosso país. Contudo, basta observar nas ruas, nos transportes coletivos, nos restaurantes e cinemas, e até mesmo em nossas casas, para se ter a certeza de que esse já é um grave problema para a saúde pública e a convivência social. 

O nomofóbico geralmente apresenta alteração de personalidade e de humor, irritabilidade constante, baixa tolerância à frustração, impulsividade, aversão a regras, apresentando atitudes irresponsáveis e agressivas, especialmente quando de alguma forma alguém tenta afastá-lo de seu aparelho. Com isso, relacionamentos são comprometidos e até rompidos, pessoas são demitidas do seu emprego, estudantes têm acentuada queda de aprendizado, pessoas são atropeladas por estarem cruzando ruas fixadas em suas conexões, ou por motoristas que desobedecem às leis, dirigindo e falando ao celular. Sem dúvida, uma situação bastante preocupante e que tende a se agravar.

*Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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