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02/09/2019 | domtotal.com

Muitos muros, poucas pontes

Nosso mundo brasileiro aqui e nosso mundão lá fora não se abre, só se fecha ao redor de muros nesses tempos de guaritas, armas e receios.

Na falta de diálogo, dá-lhe muro.
Na falta de diálogo, dá-lhe muro. (Pixabay)

Por Ricardo Soares*

Bom dia, boa tarde, boa noite prezados vizinhos e vizinhas brasileiros. Tomo a liberdade de escrever a esse seleto grupo não na tentativa de polemizar nem cometer lições de auto-ajuda. Apenas para refletir com vocês sobre o muro enorme que foi construído no fundo e por todos os lados de nosso país e que, na minha modesta opinião, se converte na mais completa tradução dos tempos em que vivemos. Na falta de diálogo, dá-lhe muro. Sem conversa, sem consenso como se tivéssemos dado procuração a um poder executivo insano a incumbência de destruir não só um país como um projeto de nação. Mesmo os que votaram nas bestas não deram procuração para o extermínio de qualquer foco de humanismo.

Repito que não quero polemizar especialmente sobre as obsessivas questões relativas à segurança e o medo que justificam o erguimento de mais e mais muros de toda ordem no país, sem perguntar se não existem outras alternativas como mais pontes, por exemplo. Somos um país com milhares de câmeras para todos os lados,  controles obsessivos de entradas e saídas, gente armada de corpo e alma, gente com ódio insano sem conhecer sequer um parágrafo de história.

Quando o muro de Berlim caiu em 1989, acho que eu e muitos de nós passamos a acreditar num mundo melhor. Mas aí vieram muros outros, como os que separam Israel da Palestina ou o muro que Trump quer construir para separar EUA do México. Os muros reais e simbólicos erguidos no Brasil são, repito, uma metáfora desses tempos em que não conseguimos dialogar e erguemos barricadas em volta de nós mesmos até em questões que deveriam ser consensuais.     

Nosso mundo brasileiro aqui e nosso mundão lá fora não se abre, só se fecha ao redor de muros nesses tempos de guaritas, armas e receios. E mesmo você, prezado vizinho brasileiro, que acha o máximo esses muros que nos separam, eu te convido a refletir sobre o tema. Até quando vamos ficar aqui dentro sem convergência em nada, sem qualquer ação efetiva para nos pacificarmos? Ou toda essa violência é apenas uma lamentável catarse coletiva? Gritar, reclamar atrás dos nossos muros ou derrubá-los na tentativa de um diálogo? De novo, lamento por todos nós. Em vocês que votaram pela opção da barbárie. E em vocês que avisaram e não foram ouvidos. Fraterno abraço a todos porque ainda acredito que somos uma nação que pode superar seus ódios apesar dos discursos de guerra.

*Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista, escritor e jornalista. Publicou oito livros, dirigiu 12 documentários.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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