Mundo

02/09/2019 | domtotal.com

Brexit: suportar o insuportável


A decisão de Boris Johnson de pedir à rainha que suspenda o Parlamento, completamente dentro da sua linha de ação desde que foi escolhido para primeiro-ministro, mostra de forma evidente que pretende um Brexit sem acordo com a UE.

O sistema de democracia parlamentar que protegeria os interesses dos have nots – a maioria da população – perverteu-se dentro das suas regras.
O sistema de democracia parlamentar que protegeria os interesses dos have nots – a maioria da população – perverteu-se dentro das suas regras. (Pixabay)

Por José Couto Nogueira*

“Suportar o insuportável” foi a expressão usada pelo imperador Hirohito em 15 de agosto de 1945, ao anunciar aos seus súditos pela rádio a rendição do Japão. É a expressão mais dramática do que significa aceitar uma situação inaceitável. Muitos “suportares” do insuportável aconteceram na história, normalmente devidos a derrotas nacionais. Os ingleses, depois de lutar na guerra de 1939-1945, quando chegaram a se sentir perdidos, passaram a acreditar no poder ilimitado da sua resiliência. Em entrevistas feitas atualmente nas ruas da Grã-Bretanha, tem sido habitual ouvir dizer “aguentamos em 1939, podemos aguentar novamente”, ou outras palavras com o mesmo espírito. Em 1940, perante a ameaça de invasão, escassez de bens e inferioridade militar, o Reino Unido mostrou o espírito de sacrifício e o empenho necessário para sobreviver e, finalmente, vencer o inimigo (com ajudas, mas isso não vem ao caso).

Estas pessoas entrevistadas na rua, patrióticas, orgulhosas, denodadas, certamente que aguentarão estoicamente o destino que as espera. A diferença de 1939-1945, que nós, cá fora, tão bem percebemos, é que desta vez não há nenhuma invasão nem ameaça hostil. A “perda de soberania” que eles invocam como um dos principais motivos para sair da União Europeia (UE) (os outros são os custos financeiros e a concorrência dos trabalhadores estrangeiros) não é um fato real. 

O país conservou a sua soberania durante os 50 anos em que esteve integrado à Europa, em parte porque teve sempre um estatuto especial de exceções, em parte porque conservou as suas instituições intatas. Ou seja, a desgraça pela qual vão ter de passar agora não vem de fora, é auto-infligida. No entusiasmo do referendo de 2016, votaram com o coração e não com a cabeça, pois ambos os lados ignoraram completamente as projeções econômicas, ou distorceram-nas em nome de princípios, Mas, ao fim de dois anos, a esmiuçar as impossibilidades práticas (fronteira das irlandas) e medir os constrangimentos econômicos, já não resta nenhuma dúvida que o país vai passar uns anos muito difíceis. Os leavers nem sequer afirmam que vai ser fácil, mas sim que o país tem capacidade de suportar o insuportável.

O sofrimento não será para todos, como de costume. Os manipuladores internacionais do dinheiro já estão a ganhar com as flutuações do câmbio. O sistema é relativamente simples: sempre que o valor da libra cai, o que tem acontecido continuamente nos últimos dois anos e continuará por mais algum tempo, compram bens no mercado internacional com libras. Portanto, sempre que a libra cai o valor do investimento em libras sobe. Quando, algures no tempo, a libra estiver no mínimo, terão um capital colossal. Quanto aos manipuladores ingleses, os haves, no calão do país, limitam-se a cambiar as suas libras por divisas estrangeiras. Quando os preços do capital tiverem caído na Grã-Bretanha, poderão recomprar as libras e investir no país a preços de saldo.

Entretanto, o sistema de democracia parlamentar que protegeria os interesses dos have nots – a maioria da população – perverteu-se dentro das suas regras. Só um exemplo: os últimos dois primeiros-ministros, Theresa May e Boris Johnson, não foram eleitos por voto popular. Com a decisão de Johnson pedir à rainha para suspender o Parlamento, absolutamente legal, a probabilidade de pessoas que não foram eleitas fazer uma coisa que não foi referendada – a saída da UE sem qualquer acordo – torna-se uma inevitabilidade.

É só considerar as alternativas:

Uma oposição parlamentar constituída pelo Partido Trabalhista, os Democratas Liberais e alguns deputados conservadores fortemente anti-Brexit, reúne-se – fora do Parlamento, que está fechado, mas mantêm os poderes parlamentares – consegue maioria para fazer votar uma moção de desconfiança. O governo cai. A rainha convoca novas eleições. O resultado dessas eleições será apresentado, por definição dos tempos de campanha, depois de 31 de outubro, tarde demais.

Neste caso – de serem marcadas novas eleições – a UE poderia adiar a data da saída. Poderia, mas nada indica que o faça. Os responsáveis pelos órgãos superiores da UE e os dirigentes dos países europeus têm sistematicamente dito que não há mais nada para negociar e que, caso o Reino Unido não apresente uma proposta viável até 31 de outubro – coisa que Boris Jonhson não faz quaisquer tenções de apresentar – o no deal Brexit é um fato.

A outra alternativa seria o Parlamento votar por um novo referendo durante a semana de funcionamento, que vai do fim do fechamento agora aceite pela rainha até 31 de outubro. Mais uma vez, por definição dos tempos de campanha, o resultado só seria conhecido depois dessa data. Também nada indica que a UE queira esperar.

Existe uma terceira alternativa, a da rainha retirar a proposta de saída da União Europeia – cancelar o Artigo 50. Nem o direito consuetudinário que rege as instituições inglesas, nem as atitudes de Elizabeth II nestas décadas de reinado, indicam que não fará tal coisa. Aliás, se o fizesse, deflagraria uma crise política sem precedente – quer dizer, há um precedente, quando o Parlamento, em 1649, mandou executar Charles I.

Cheque mate.

Quais são as consequências da saída do Reino Unido da União Europeia sem acordo? Como toda a gente sabe, inclusive os ingleses, o país passa a negociar com o continente de acordo com as regras da World Trade Organization; alfândega e taxas de importação para os bens, necessidade de visto para as pessoas. Embora dos dois lados do canal já estejam a ser feitos os preparativos para essa hipótese, que incluem milhares de novos funcionários aduaneiros e grandes áreas para os camiões de mercadorias esperarem as inspeções, guias etc., é evidente que o movimento de pessoas e bens será lento e sujeito a atrasos imprevisíveis. 

Para os europeus, significa menos exportações para a ilha, e saída de muitos trabalhadores da ilha para a Europa; grave, mas absorvível. Para os ingleses, significa falta de bens essenciais, cadeias de fornecimento (suply chains) interrompidas, desemprego em certos setores (automóveis, por exemplo) e falta de mão de obra noutros (agricultura e saúde, por exemplo) O petróleo, outro bem essencial, será menos abundante e mais caro, provocando falta de estoques e subida de preço dos combustíveis. As empresas que podem, mudam-se para a Europa continental ou para a Irlanda. Os investidores estrangeiros venderão as suas libras, e o Banco da Inglaterra terá de ir buscar dinheiro ao fundo dos cofres, ou emitir dívida pública a ser subscrita com juros altos.

Politicamente, a Escócia fará o mais depressa possível novo referendo, em que votará a saída do Reino Unido. A Irlanda do Norte, novamente embrenhada nos problemas entre católicos e protestantes, entrará em guerra civil de baixa intensidade, como antes do acordo de Sexta-feira Santa, em 2016. Na Grã-Bretanha propriamente dita, haverá um aumento de incidentes e ataques de teor xenófobo e racial. As faltas nos supermercados poderão provocar motins. Novas eleições colocarão Jeremy Corbyn no governo.

O que dizem Boris Johnson, o seu governo e os brexiteers quanto a este cenário? Que vai tudo correr bem, graças à perseverança, resiliência e energia criativa dos ingleses. Haverá alguns sacrifícios a fazer, mas breves, e depois de reconquistada a soberania, o país fará acordos comerciais bilaterais com os Estados Unidos, o Japão, a Austrália e mais quem queira. Cenários possíveis, que levam anos a dar resultados visíveis.

O insuportável vai ser mesmo difícil de suportar.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova York foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!

Comentários


Instituições Conveniadas